Filantropia – Paula Leite https://homolog.quintessa.org.br My WordPress Blog Thu, 10 Feb 2022 17:31:47 +0000 pt-BR hourly 1 https://wordpress.org/?v=6.8.2 Como famílias empresárias podem atuar com negócios de impacto https://homolog.quintessa.org.br/2022/02/10/familias-empresarias-family-offices-negocios-de-impacto/ Thu, 10 Feb 2022 17:31:47 +0000 http://blog.quintessa.org.br/?p=1002 E por que seu engajamento pode ser fundamental para o avanço do setor

Os family offices, estruturas que administram o patrimônio de famílias empresárias e pessoas físicas de alta renda, já se aproximaram do ecossistema de empreendedorismo e das startups e são hoje uma alternativa para empreendedores que buscam investimento de venture capital. 

Agora, começam a se aproximar também do ecossistema de impacto. O report da INEO de 2020 mostrou que as famílias empresárias têm se mostrado cada vez mais engajadas nas temáticas de filantropia, ESG e investimentos de impacto, impulsionadas pelas movimentações do mercado e pela visão das novas gerações que assumem a gestão.

47% das famílias entrevistadas pretendem alocar entre 1 e 10% de seu portfólio em investimentos de impacto, e 12% pretende alocar de 11 a 50%. Além disso, 26% aumentou seu envolvimento com filantropia na pandemia.

Por outro lado, a pesquisa aponta também os desafios em transformar esse engajamento em prática e investimento de fato: mais de 70% das famílias não conhecem o impacto social e ambiental dos ativos que investem, olhando apenas o retorno financeiro, e 35% dos entrevistados ainda não começaram a estudar o tema.

O cenário é típico de transição: há intenção de avanço na atuação da temática, mas ainda é o momento de compreender como isso pode acontecer na prática. O lado bom disso é que, não havendo um único caminho correto possível, há diversas maneiras de se engajar e promover esse avanço.

Enxergamos como essencial o engajamento desse ator dentro do ecossistema de impacto. Nos últimos anos, vimos o engajamento de empresas e governo nele, mas sabemos que estes segmentos tendem a ser direcionados por metas de curto prazo. As famílias empresárias, com maior autonomia sobre a alocação de seu patrimônio e o olhar para o legado positivo que as gerações geram, podem trazer um capital estruturante e de longo prazo para compor o setor.

Além disso, essas famílias costumam poder aportar não apenas recursos, mas apoios não financeiros de alto valor, como conhecimento de negócios (para mentorias) e conexões qualificadas com o mercado, entre outros.

Como então as famílias empresárias podem incrementar e aprimorar sua participação no ecossistema de impacto? 

Já faz alguns anos que nos relacionamos com investidores ‘pessoa física’, famílias e family offices, principalmente com um olhar de investimento anjo nas startups de impacto. Recentemente, as possibilidades têm se expandido. 

Por um bom tempo optamos por não olhar para o bolso da filantropia, pois nossa grande batalha era mostrar que negócios de impacto poderiam gerar retorno financeiro positivo. De fato, conseguimos consolidar isso, com vários negócios de impacto da nossa rede que estão sendo investidos e adquiridos por grandes fundos e empresas, como a Boomera e a Ambipar, Courri com a Americanas, entre outros cases. (Caso não conheça o conceito de negócios de impacto, conheça aqui).

A questão é que se estes negócios não tivessem alcançado um estágio maduro como empresa, isso nunca teria acontecido e é no apoio a esses negócios que o capital filantrópico faz muito sentido e pode ser um ponto de partida para a atuação das famílias. Um capital filantrópico paciente e estruturante para viabilizar o desenvolvimento dos negócios de impacto, mais aderente ao risco e precedente ao bolso de venture capital (VC).

Vale ressaltar que a grande maioria das famílias sempre atuou com impacto na linha da filantropia, realizando ações e doações pontuais ou até recorrentes para diversas organizações do terceiro setor. O que queremos apresentar é a inovação como uma lente para a filantropia, com o objetivo de ampliar o impacto dessa doação de forma mais perene, sustentável e com potencial de multiplicação, por meio dos negócios de impacto. 

Nosso entendimento é que uma atuação não substitui a outra e são complementares. Dentro do espectro do capital, há os diversos “tons de cinza” a serem preenchidos, desde a filantropia mais tradicional, o venture philanthropy, o investimento anjo, o investimento de VC para estágios iniciais, o private equity, e assim em diante. Para cada tipo de capital, há um escopo específico de negócios de impacto e projetos que se adequa, sendo a atuação com esses diversos bolsos uma estratégia de diversificação de portfólio e abrangência de atuação das famílias.

Um case muito interessante a ser estudado é de Puerto Asis Investiments, na Argentina. Tendo os 17 ODS como base (Objetivos de Desenvolvimento Sustentável, formulados pela ONU em 2015), são uma plataforma de investimentos com propósito que opera através de diferentes estratégias em um espectro contínuo de capital. 

As variações dentro do espectro analisam aspectos como:

  • Retorno financeiro: retorno de mercado x “Impact first” x sem retorno financeiro
  • Nível de risco 
  • Foco de impacto: mitigação de impacto negativo x potencialização de externalidades positivas x contribuição para solução de desafios sociais e ambientais

Entre a variação desses aspectos, as respostas variam entre:

  • Mandatos de investimento: private equity x venture capital x filantropia
  • Estágio das investidas: empresas maduras x startups x projetos
  • Estratégias: investimento responsável x investimento sustentável x investimento de impacto x venture philanthropy x investimento social x bens públicos 

Neste texto que publicamos anteriormente você pode se aprofundar mais sobre os tipos de capital. Há ainda o viés de estruturações “blended”, que mesclam distintos tipos de capital em uma mesma operação, mas no qual não nos aprofundaremos aqui.

Como isso acontece na prática?

Aqui focaremos no conceito de Venture Philanthropy, que, de forma simplificada, pode oferecer capital filantrópico e apoio não financeiro para o negócio de impacto amadurecer a ponto de se tornar um investimento futuro. Falamos mais sobre esse conceito aqui, que pode ser aplicado tanto pelas famílias quanto por fundos de investimento.

Replicando o conceito: “Venture Philanthropy trabalha para fortalecer as organizações sociais, fornecendo-lhes recursos financeiros e apoio não financeiro, a fim de aumentar seu impacto social. A metodologia é baseada na aplicação de princípios de capital de risco, incluindo investimento a longo prazo e apoio prático. As principais características incluem: Financiamento sob medida (escolhendo os instrumentos financeiros mais adequados a fim de apoiar a organização – grant, dívida, equity e instrumentos financeiros híbridos); Apoio organizacional (serviços de apoio com valor agregado a fim de fortalecer a resiliência organizacional e a sustentabilidade financeira); Medição e gerenciamento de impacto (medição e gestão do processo de criação de impacto social, a fim de maximizar e potencializar impacto)”. 

Aqui no Quintessa já realizamos algumas iniciativas diferentes junto a investidores e famílias:
  • Family offices: Plataforma Negócios pelo Futuro

Em 2020 executamos a iniciativa da Plataforma Negócios pelo Futuro com dois family offices, no objetivo de ampliar a oferta de soluções de negócios de impacto que pudessem contribuir com soluções no contexto de pandemia. A Provence Capital e a Península investiram, de seu bolso de filantropia, R$ 650 mil em três startups de impacto, sendo parte do valor destinado à contratação de seus serviços, para que pudessem ser oferecidos à população e gerassem impacto positivo aos beneficiários na ponta, e parte à aceleração e acompanhamento dos negócios pelo Quintessa. 

Um dos negócios foi a Parças Developers School, que forma e emprega egressos do sistema prisional na área de tecnologia. Além de receberem um capital filantrópico para oferecer o curso a mais alunos (e inclusive usaram parte do dinheiro para comprar cestas básicas a estes jovens), receberam uma aceleração de 8 meses do nosso time para estruturar a gestão e o modelo de negócio, o que permitiu que ao fim do processo, o Nubank investisse na startup. Desde então o impacto só vem aumentando e mostra como o capital filantrópico não só apoiou os beneficiários como viabilizou a aceleração do negócio, que, já mais maduro, pôde acessar o recurso de investimento e ganhar escala, multiplicando o impacto gerado de forma perene.

  • Pessoas físicas: Sponsorship Quintessa

Em 2018 criamos o Sponsorship Quintessa, programa em que investidores financiaram uma aceleração do Quintessa para algumas startups de impacto. O objetivo foi a geração de pipeline, impulsionando o crescimento do negócio e preparando-os para um investimento ao final da aceleração – além do que já mencionamos sobre conhecer melhor os empreendedores para mitigar riscos na futura sociedade, o que fez muita diferença ao final do processo. 

  • Famílias e pessoas físicas: Jornada de Venture Philanthropy

Este programa foi criado em 2021 para pessoas físicas e famílias empresárias, em forma de uma jornada de 8 a 15 meses abrangendo três objetivos: gerar impacto positivo (seja pela atividade fim dos negócios, seja por promover o desenvolvimento do ecossistema), gerar aprendizado prático e vivencial em investimento de impacto, e gerar pipeline qualificado para potencial investimento posterior.

Os participantes são o Instituto Helda Gerdau e Associados do ICE.

Além de apoiar financeiramente o desenvolvimento de startups de impacto positivo por meio de uma aceleração do Quintessa para os negócios, incluímos momentos de capacitação, mentoria, conexões de valor e networking. Uma das vantagens nesse formato é promover também a troca entre as famílias e os investidores, que compartilham seus aprendizados e reflexões sobre a atuação na temática.

Seguindo o formato que realizamos na Jornada, entendemos que pessoas físicas de alta renda (investidores) e famílias empresárias/family offices podem atuar com negócios de impacto em três principais objetivos:
  • Desenvolvimento do ecossistema de impacto

Quando falamos dos negócios de impacto, segundo o levantamento do Mapa de Negócios de Impacto do Brasil, 70% deles não tem faturamento ou faturam menos de 100 mil ao ano, estando a maior parte deles em estágio inicial. 

Além disso, quando lançamos o GUIA 2.5, ficou nítida também a necessidade de apoio por parte das aceleradoras, que sozinhas na responsabilidade financeira de promover o apoio aos empreendedores, não conseguem fomentar o desenvolvimento de todo o ecossistema. 

Com cada vez mais capital de risco chegando no ecossistema, focado em investimento de impacto, o pipeline de negócios qualificados não tem aumentado na mesma proporção para poderem receber esses aportes, havendo um gap de capital não alocado por falta de pipeline de negócios maduros que possam receber ele. É necessário então um capital mais paciente que possa apoiar no desenvolvimento dos negócios até atingirem um nível de maturidade para receber investimentos.

Sendo assim, a doação por parte das famílias para apoiar o desenvolvimento do ecossistema de impacto tem um poder de multiplicação muito forte: ao apoiar um negócio de impacto no início, ao ele entregar seus produtos/serviços e crescer, ele impacta positivamente milhares de pessoas. Assim, o impacto se dá não apenas pelo desenvolvimento do ecossistema, mas também pela geração de impacto positivo na ponta, aos beneficiários.

  • Aprendizado prático

Apoiar os empreendedores de impacto é uma forma de experimentar e vivenciar o ecossistema de impacto na ponta. Consumir conteúdo, participar de eventos e palestras é importante, mas atuar diretamente no dia a dia empreendedor, entender seus desafios e conhecer seus beneficiários é uma forma de aprender e refletir sobre quais são as reais necessidades de apoio e como cada um deseja participar do ecossistema para potencializar essa geração de impacto. Há diversos “tons de cinza” dentro do setor 2.5 e aprender na prática sobre a diferença entre cada negócio, de estágios diferentes, é a melhor forma para se preparar para gerir bem seus vários tipos de capital.

  • Formar pipeline de investimento

O terceiro objetivo é formar um pipeline qualificado de startups de impacto e poder ‘trocar de bolso’, investindo por meio de capital de risco. Além disso, é uma oportunidade de se relacionar com os fundadores, entender sinergias e alinhamento de valores para uma futura sociedade. É com o bolso da filantropia que viabiliza a aceleração dessas startups e a imersão nesse relacionamento que se pode encontrar bons potenciais investimentos antes que eles cheguem ao mainstream do mercado de investimentos e mitigar o risco de uma decisão de alocação baseada apenas em reuniões e apresentações. Assim, pode-se ver não como uma “doação a fundo perdido”, mas como um investimento paciente e de longo prazo que garante uma futura boa alocação do bolso de VC.

Por fim, é importante dizer que esse tipo de recurso é mais adequado para apoiar o ecossistema e os negócios em estágio inicial, mas já são muitas as startups de impacto madura em rodadas mais avançadas de investimento de risco.

O grande papel do bolso do venture philanthropy pode ser poder priorizar o tipo de ajuda que aquele negócio precisa, injetar capital adequado e apoio não-financeiro, para poder destravar outros tipos de investimento.

Uma família empresária ou um family office tem suas metas e compromissos em garantir a segurança e continuidade daquele patrimônio, mas cada vez mais surge também a preocupação com o tipo de legado que gostaria de deixar para as próximas gerações. Nesse sentido, acreditamos que ao aplicar a lente de inovação nas ações de filantropia, ela pode ser uma grande aliada do investimento de risco em negócios de impacto, gerando benefícios para as pessoas e o planeta desde o início da jornada.

O Quintessa apoia famílias, investidores, institutos e empresas a começarem ou aprimorarem a agenda de inovação com impacto positivo. Se este conteúdo fez sentido para você e gostaria de entender melhor como podemos apoiar sua família ou organização nesta agenda,  deixe uma mensagem e entraremos em contato.


Para se aprofundar:

]]>
Quem paga a conta do desenvolvimento de um pipeline de negócios de impacto maduro? https://homolog.quintessa.org.br/2021/07/16/quem-paga-a-conta-do-desenvolvimento-de-um-pipeline-de-negocios-de-impacto-maduro/ Fri, 16 Jul 2021 20:01:01 +0000 http://blog.quintessa.org.br/?p=853 Reflexões sobre caminhos para o amadurecimento do ecossistema

No final de 2019 os investimentos de impacto no Brasil somavam US$ 785 milhões, mais que o dobro de dois anos antes (US$ 343 milhões). Com a ascensão do ESG e o olhar dos investidores para o retorno além apenas do financeiro, a tendência é que ainda mais investimento de impacto seja direcionado para o setor (entenda neste outro texto a diferença de investimentos de impacto e ESG).

A dúvida que vem então é: teremos um volume de negócios maduros suficiente para alocar esse capital?

No Quintessa, temos uma base de mais de 4 mil negócios de impacto e vemos uma parcela relevante que chega até nós ainda não é elegível a entrar em nossos programas de aceleração por estar em um estágio muito inicial, sem conseguir especificar suas hipóteses de modelo de negócio (não é por acaso que nossos primeiros conteúdos foram direcionados para empreendedores em estágio de validação).

3º Mapa de Negócios de Impacto Social+Ambiental, realizado pela Pipe Labo em 2021, mostra que 69% dos negócios mapeados faturam menos de R$ 100 mil por ano ou ainda não faturam.

Outro estudo, também realizado pela Pipe, o Scoring de Impacto, identificou que um dos principais desafios para os investidores de impacto é a “falta de oportunidade de investimento de alta qualidade com bons históricos (track record)” — o que reforça o que enxergamos na prática.

Para deixar claro: estou falando aqui de volume. Não deixemos isso ofuscar a realidade de que sim, existem negócios de impacto maduros, qualificados e que estão acessando capital relevante. Alguns exemplos de Empreendedores Quintessa que podem ser mencionados publicamente: Courri adquirida pela B2W, Boomera investida pela Ambipar, Vitalk com captação de quase R$ 10MiHand Talk com captação de 2.5MiEmoving sendo investida pela Movida, entre outros (conheça aqui).

Trabalhando com as grandes empresas em programas de inovação aberta, na nossa frente de Programas em Parceria, vemos poucos programas direcionados a negócios de estágio de maturidade inicial, dado que isso pode representar risco (no Guia para Inovar com Impacto exploramos com mais detalhes esse elemento).

Assim, se temos capital voltado para investimentos de impacto aguardando negócios maduros e temos negócios iniciais precisando de suporte para amadurecerem fica a pergunta: qual ator deve investir no desenvolvimento de um pipeline de negócios de impacto maduro? Qual tipo de capital pode destravar essa equação, viabilizando este suporte?

No mundo empresarial, falamos sobre o desenvolvimento da cadeia de valor, da remuneração justa de todos os elos da cadeia — e se aplicássemos esse olhar para este assunto? Quem desenvolve a cadeia de valor para o mercado de venture capital brasileiro focado em investimento de impacto?

(Vale mencionar que dou aqui o foco no mercado de investimento e negócios de impacto, mas sabemos que é um desafio muito mais macro, também presente quando falamos de empreendedorismo no Brasil de forma mais ampla).

Este é um trecho da coluna de Anna de Souza Aranha, diretora do Quintessa, no Um Só Planeta.

]]>
Venture Philanthropy | Filantropia e startups de impacto: uma relação com muito potencial https://homolog.quintessa.org.br/2021/03/02/negocios-de-impacto-e-filantropia/ Tue, 02 Mar 2021 23:00:36 +0000 http://blog.quintessa.org.br/?p=664 O texto de hoje completa uma tríade de conteúdos sobre inovação aberta e startups de impacto: falamos sobre a lente de novos negócios, sustentabilidade e hoje, falaremos sobre filantropia.

Até agora simplifiquei a comunicação, falando em startups de impacto, mas para o conteúdo de hoje vale conceituarmos o termo “negócios de impacto”: eles “são empreendimentos que têm a intenção clara de endereçar um problema socioambiental por meio de sua atividade principal (seja seu produto/serviço e/ou sua forma de operação). Atuam de acordo com a lógica de mercado, com um modelo de negócio que busca retornos financeiros, e se comprometem a medir o impacto que geram” (Aliança pelos Investimentos e Negócios de Impacto, 2019). 

O ecossistema de negócios de impacto é também chamado de setor 2.5: uma referência à união entre características do segundo setor, de empresas privadas e marcado pelo foco em gerar lucro, e do terceiro setor, de organizações sem fins lucrativos com foco em gerar impacto socioambiental positivo.

Vou destacar três vertentes nas quais acredito que a relação entre recursos de filantropia e negócios de impacto tem muito potencial.

Negócios de impacto como ‘fim’

Venture philanthropy: filantropia para desenvolvimento de pipeline de investimento

Nestes tantos anos de Quintessa, já mapeamos e nos relacionamos com mais de 4 mil negócios de impacto. O que percebemos no dia a dia é refletido pelo número que o Mapa produzido pela Pipe Social traz: 73% dos negócios de impacto mapeados faturam menos que R$ 100 mil por ano ou ainda não faturam. 

Quando a Pipe realizou o Scoring de Impacto, um dos principais desafios identificados foi a “falta de oportunidade de investimento de alta qualidade com bons históricos (track record)”

Quando lançamos a nova edição do GUIA 2.5, produzido pelo Quintessa, na pergunta aberta que fizemos sobre qual tipo de auxílio externo gostariam de receber, diversas organizações (aceleradoras, incubadoras, etc.) responderam: trazer capital de filantropia para o setor para financiar as acelerações e captar mais recursos para atender mais empreendedores. Não à toa o título da matéria da Reset sobre o evento de lançamento do GUIA foi: “Ecossistema de impacto cresce no país — mas ainda precisa atrair a Faria Lima”.

Assim, se temos capital voltado para investimentos de impacto aguardando negócios maduros para ser alocado e temos negócios iniciais precisando de suporte para amadurecerem, qual tipo de capital pode destravar essa equação, viabilizando este suporte?

Foi de forma sincrônica que conheci o conceito de venture philanthropy e reconheci o que já fazíamos no Quintessa há anos.

Segundo a EVPA, “a Venture Philanthropy trabalha para fortalecer as organizações sociais, fornecendo-lhes recursos financeiros e apoio não financeiro, a fim de aumentar seu impacto social. A metodologia é baseada na aplicação de princípios de capital de risco, incluindo investimento a longo prazo e apoio prático a certos elementos de economia social”. As principais características incluem: Financiamento sob medida (escolhendo os instrumentos financeiros mais adequados a fim de apoiar a organização – grant, dívida, equity e instrumentos financeiros híbridos); Apoio organizacional (serviços de apoio com valor agregado a fim de fortalecer a resiliência organizacional e a sustentabilidade financeira); Medição e gerenciamento de impacto (medição e gestão do processo de criação de impacto social, a fim de maximizar e potencializar impacto). 

Um grande case que pode servir de exemplo é da In3Citi com a startup de impacto Nina, feito em colaboração com o Quintessa (descrito neste material). A In3Citi utilizou-se de recurso filantrópico para viabilizar a aceleração da Nina, o que fez com que a startup estivesse mais qualificada e madura para receber posteriormente um investimento em equity, o qual além de visar retorno em termos de impacto, visava também retorno financeiro. A parceria deu tão certo que já estamos em nosso quarto caso juntos: Eco Panplas, HY Sustentável e Solos.

Além de qualificar o pipeline de investimentos, é uma ação que gera impacto na ponta (no caso da Nina, cidades seguras para mulheres e para todos) e ao ecossistema, atuando no gap que pontuei acima.

Essa estratégia é descrita neste caso muito didático: “Investing for Impact: Ordinary Work for Extraordinary People”. Até o negócio se tornar lucrativo, a Unicus recebeu apoio de doações (grants) e posteriormente recebeu investimento em equity (participação acionária), sempre com apoio não financeiro de forma complementar:

Apesar de não ser um assunto muito comentado, isso é um tanto comum: a Vitalk, que realizamos a aceleração em 2017 e ajudamos a captar 8 milhões de reais do bolso de Venture Capital (com investidores como a Valor Capital) posteriormente, havia, nos seus anos iniciais, desenvolvido seus produtos com suporte de doações, como contam aqui.

Assim, o recurso da filantropia pode ser um grande aliado do recurso que busca retorno financeiro, o venture capital, criando um pipeline qualificado. A filantropia pode oferecer um recurso paciente e um espaço de experimentação que permite lidar com risco, para que depois venham outros “bolsos”.

Filantropia estratégica: filantropia para desenvolvimento de pipeline de parceiros de negócio

Um mesmo viés pode ser adotado para olharmos para as empresas. Aqui vou utilizar o conceito de Filantropia Estratégica, segundo este artigo: “a filantropia estratégica é caracterizada quando uma firma busca empreender esforços sinérgicos utilizando os recursos corporativos para resolver problemas sociais que estejam em consonância com os valores centrais e a missão da empresa. (…) Isso significa dizer que estão buscando atingir os objetivos de negócios também a partir das ações de filantropia”. 

Assim, empresas e organizações podem utilizar da filantropia como uma forma de gerar impacto positivo e também se relacionarem com novos parceiros de negócio, gerando valor à sua atividade core, consumidores e outros stakeholders.

Um exemplo é o case que realizamos com a BP, na qual, junto à Palladium, aceleramos a Beequal, um negócio que oferece espaço terapêutico para pais de crianças com desafios de desenvolvimento. Ter realizado a aceleração gerou impacto positivo na ponta, beneficiando pais e crianças, bem como qualificou um potencial parceiro para a BP no relacionamento com seus clientes.   

Um outro exemplo de parceria possível seria de uma empresa que trabalha com artigos de moda e viabilizasse a aceleração de negócios como a Rede Asta ou a Já Entendi, que poderiam capacitar mulheres de baixa renda costureiras que produzem artigos para sua coleção.

Por último, ressaltando o que disse acima, da filantropia como um recurso paciente e que permite lidar com risco, realizamos com o Instituto Vedacit o primeiro Mapa Cidades Sustentáveis, identificando ONGs e negócios que impacto que atuavam na temática – uma ação que ajuda a embasar o planejamento estratégico da empresa, no viés de inovação aberta e responsabilidade social corporativa.

Negócios de impacto como ‘meio’

Filantropia para contratar soluções que geram impacto positivo de forma qualificada, perene e escalável

Negócios de impacto também podem fazer parte de uma atuação filantrópica enxergando-os como meio – me explico: olhando as soluções que eles podem implementar e gerar impacto na ponta.

Uma ação que realizamos neste sentido foi a primeira edição da Plataforma Negócios pelo Futuro, com foco em soluções para o contexto de pandemia gerada pelo COVID-19. Ainda que os negócios selecionados pudessem ser analisados como potenciais investimentos, no caso, o capital mobilizado veio do bolso da filantropia estratégica, contratando as soluções dos negócios para que elas fossem oferecidas gratuitamente para os beneficiários na ponta, como relatado nesta matéria

Os negócios de impacto possuem soluções já prontas, qualificadas, com potencial de escala e sustentabilidade financeira – há um poder de multiplicação ao apoiá-los, pois eles poderão continuar gerando impacto para outras centenas de pessoas a partir do recurso alocado.

Por exemplo, dentro de uma estratégia de responsabilidade social de uma empresa para desenvolver a comunidade do entorno de sua sede, pode fazer todo sentido implementar a solução de um negócio como a Barkus para oferecer educação financeira, da Litro de Luz para dar acesso à iluminação pública, do Moradigna para oferecer mais salubridade às casas.

Vale mencionar que a boa prática é sempre partir de uma escuta ativa, do entendimento das demandas locais, e também que esta ação poderia estar ainda integrada à uma ação de mentoria dos executivos, na estratégia de voluntariado corporativo.

Cabem aqui duas observações. Uma é para não cairmos no pensamento de que o setor 2.5 é melhor do que o Terceiro Setor ou na visão de que um deve substituir o outro – acreditamos na visão de complementaridade, vendo os negócios de impacto, assim como as ONGs, como potenciais parceiros para implementação de projetos que gerem impacto positivo na ponta. 

A segunda observação é que por mais que estejamos falando de recursos de doação, muitas vezes essas relações se materializam na ponta por meio da emissão de uma nota fiscal – contratando a solução dos negócios e baseando a prestação de contas no impacto gerado, não na forma como o recurso foi alocado internamente.

Há tantos outros caminhos possíveis:

Uma empresa que trabalha com construção pode investir recursos filantrópicos no desenvolvimento de um bairro e na causa de cidades sustentáveis, beneficiando a cidade externamente, mas gerando valor ao negócio por meio da valorização imobiliária. 

Uma empresa que deseja atuar com a causa da educação pode investir recursos filantrópicos “dentro de casa”, beneficiando seus colaboradores e comunidade do entorno com soluções educacionais de negócios de impacto de educação e preparo técnico – e não apenas doando para projetos que não se relacionem com a sua operação.

Negócios de impacto como Prosas, Simbiose, Editora Mol e Arredondar, podem facilitar a empresa no direcionamento de benefícios fiscais e na mobilização de doações para causas.

Uma organização sem fins lucrativos, como é o caso da Fundação Lemann, pode viabilizar o desenvolvimento de edtechs e a implementação de suas soluções como uma forma de melhorar a aprendizagem de estudantes de escolas públicas brasileiras, com recursos filantrópicos, como está acontecendo em nosso programa em parceria.

Atuando de forma consistente, alinhada ao negócio, a filantropia estratégica pode também dar base à estratégia ESG da grande empresa. No início do texto falei como três abordagens distintas, mas a realidade é que o valor está na visão sistêmica, vendo negócio, sustentabilidade e filantropia como ações integradas de uma mesma estratégia, como foi muito bem pontuado neste podcast do GIFE.

Os negócios de impacto, dentro deste viés de serem “2.5” (dois e meio), navegam entre estes distintos bolsos, do 2.1 ao 2.9. Muitas vezes recebem investimento de venture capital, priorizando o viés for profit, por mais que gerem impacto positivo. Por outras vezes, recebem recursos de filantropia, priorizando o for impact, por mais que gerem retorno financeiro.

Espero que o texto tenha trazido clareza sobre o assunto, que vale para estratégias de filantropia de empresas e de pessoas físicas. Tendo lucidez sobre a enormidade dos desafios sociais e ambientais que temos ndo país, esse tipo de ação não só faz sentido em termos de negócio, como é extremamente necessária para que tenhamos uma realidade mais justa, equânime e de qualidade para todos.

Anna de Souza Aranha
Diretora do Quintessa

Texto publicado originalmente no LinkedIn em 02/03/2021

]]>