Categoria: Inovação aberta

  • Criando uma cultura de inovação e impacto positivo

    Criando uma cultura de inovação e impacto positivo

    Acreditamos que o movimento das empresas em direção à inovação, sustentabilidade e práticas ESG não ocorre de uma hora para outra, mas de fato é um processo de transição e uma direção de caminho a ser trilhado.

    Apesar de começar a agir ser importante, inclusive para gerar aprendizado e começar a tangibilizar intenções, no tempo, apenas realizar iniciativas e práticas isoladas não é suficiente para garantir a consistência que esse movimento precisa. É necessária uma mudança da cultura empresarial, incorporando a inovação e sustentabilidade na estratégia e na tomada de decisão de forma transversal a toda empresa.

    A mudança cultural e engajamento de colaboradores, para qualquer temática, é por si só um grande desafio, mas sem este fator acreditamos que a transição e preparação das empresas para um futuro sustentável não irá acontecer e se consolidar.

    Esse é um trabalho que deve ser feito de forma coletiva, envolvendo o RH, comunicação interna, lideranças, diretoria e as próprias áreas de inovação e sustentabilidade. Neste texto vamos mostrar alguns dos caminhos para implementar uma cultura de inovação e sustentabilidade e premissas que devem ser consideradas.

    Concordamos muito com a afirmação feita pelo Ricardo Young, em entrevista para o Quintessa: “O ESG está sendo visto como uma coisa nova, mas o que tem realmente de novo é a necessidade de uma mudança radical da cultura empresarial na direção de uma visão sistêmica do seu impacto no meio ambiente, na sociedade e na economia”. 

    Por que a mudança cultural é importante?

    Incorporar a inovação e o olhar para a sustentabilidade vai além de assumir compromissos ou criar iniciativas e práticas para mitigar riscos e impactos socioambientais negativos. Envolve os valores da empresa, a forma de trabalhar, de se relacionar e de se conectar com o propósito da organização. 

    Além disso, é preciso introduzir o tema de forma a capacitar e desenvolver os colaboradores tanto na importância dele, quanto em aspectos mais ‘técnicos’ que envolvem o seu trabalho no dia a dia. 

    Por exemplo, em uma empresa que caminha em direção à adoção de práticas ESG, a área de compras deve estar instrumentada para entender quais são as externalidades dos fornecedores que contrata, tomando decisões baseadas no impacto socioambiental gerado e não somente em preço. 

    A cultura e os valores devem orientar o que essa área faz, independente da proposta comercial do fornecedor. Um exemplo disso é o caso do Carrefour, que reflete a contratação de uma empresa de segurança terceirizada não alinhada aos valores da empresa, e que causou uma consequência grave para a sua reputação. Não basta a empresa trabalhar o ESG no escritório, se o tema não se reflete também na operação, no ponto de contato com o cliente.

    A mesma coisa acontece com a área de RH, que além de ser a ‘guardiã’ da cultura organizacional, deve orientar suas práticas de seleção e desenvolvimento dos colaboradores baseadas em aspectos de diversidade. Não basta assumir compromissos se não apoiar e capacitar os responsáveis por eles no dia-a-dia.

     Leia mais: Innovability – o que é e porque você deveria conhecer

    Ter clareza dos valores e propósito da empresa

    Dado que este movimento deve ir além do “o quê” a empresa faz, mas incluir também o “por que” e “como” ela faz, ele precisa estar alinhado ao seu propósito e valores. Vale refletir: Para que existimos? No que acreditamos? O que é realmente importante para nós? Qual a nossa forma de agir?

    Isso ajuda com que a empresa não apenas adote ações que estão “em alta” ou são uma tendência no mercado, mas de fato reflita sobre como deseja agir nesta direção. Essa reflexão traz uma base sólida para que as ações sejam sustentadas ao longo do tempo.

    Por exemplo, para algumas empresas, o valor da diversidade pode ter maior importância, para outras pode ser a colaboração e confiança, e para outras é pode ser o impacto no meio ambiente. É claro que a empresa pode trabalhar todos esses aspectos, mas é importante analisar e colocar na balança esses elementos, pois serão critérios para a tomada de decisão e que irão garantir que toda a empresa caminhe na mesma direção.

    Além dessas reflexões mais amplas, é preciso combiná-las com o modelo de negócio da empresa. A depender da sua atuação, o compromisso com a neutralização da emissão de carbono pode ser mais ou menos relevante do que um compromisso com remuneração justa ao longo de toda sua cadeia de valor, por exemplo – incorporando análises como a matriz de materialidade da empresa nesta decisão.

    Não só ter essa clareza, isso deve estar introjetado na cultura em forma de rituais e símbolos compartilhados e vivenciados por todos os colaboradores, para que seja um pacto coletivo, colocando todos no mesmo barco.

    O envolvimento das lideranças é fundamental, mas não pode parar em um movimento top-down imposto apenas com base na hierarquia

    Para que aconteça um comprometimento real com a inovação e sustentabilidade, é fundamental que os(as) executivos(as), a presidência e até o conselho estejam envolvidos e engajados. É importante que deem o exemplo e as diretrizes, mas não é suficiente. Se toda a organização não estiver vivenciando e acreditando nos mesmos valores, é difícil que se concretize.

    Além disso, é muito mais fácil que as pessoas se engajem quando participam do processo de construção deste movimento e não quando é imposto de cima para baixo. 

    Um exemplo são grupos de trabalho, grupos de afinidade, coletivos, GTs ou comitês de temas como diversidade, maternidade ou até sustentabilidade (quando não faz sentido uma área formal na empresa). Incentivar que colaboradores de grupos historicamente sub-representados ou aliados e engajados na causa se organizem e proponham práticas para a empresa tem muito valor e traz legitimidade e assertividade nas ações. Neste caso é importante que haja um orçamento, comprometimento e envolvimento de áreas responsáveis para de fato colocar em prática as demandas trazidas pelo grupo.

    Em entrevista para o Quintessa, o Luis Guggenberger trouxe um exemplo de como os temas são trabalhados na Vedacit: “elencamos na nossa Matriz de Materialidade os 7 temas principais que vamos trabalhar até 2025, e para cada um desses temas sorteamos padrinhos (executivos que respondem diretamente ao CEO) que vão se reunir com os líderes de projetos e discutir os KPIs, orçamento e ações naquele tema. Isso força também o(a) alto(a) executivo(a) a estudar sobre o tema e ter uma visão 360º. Por exemplo, nosso CFO é padrinho do tema de Diversidade, então ele sai da caixinha da área das finanças e desafia a área de Gente e Gestão sobre como vamos trabalhar esse tema integralmente na companhia.”

    Capacitações e treinamentos

    Em um movimento de mudança cultural, é importante colocar todas as pessoas na mesma página. Alguns conhecimentos são básicos e devem ser compartilhados antes da implementação prática de algumas ações.

    Conhecimentos sobre diversidade e inclusão, por exemplo, ajudam a preparar um ambiente muito mais acolhedor para trazer pessoas diversas para o time. Não basta só contratar, é preciso incluir e fazer com que se sintam parte. As pessoas têm diferentes níveis de conhecimento sobre o assunto, e todos nós temos vieses inconscientes – explícitos em maior ou menor grau, a depender do nosso contexto e vivências. Muitas podem não saber que um termo que utilizam na sua fala pode ser ofensivo para outros, para dar um exemplo básico.

    Conversando com gestores de empresas, vemos que a formação até hoje foi majoritariamente voltada para gerir a operação, otimizar e alcançar cada vez mais resultados. O que falta para a grande maioria das pessoas é entender contextos mais complexos como a mudança do clima, a desigualdade social , a gestão de resíduos e todas as externalidades do processo produtivo. E é neste ponto que a capacitação mais técnica é essencial para diferenciar aquelas empresas que assumem compromissos superficiais, daquelas que realmente entenderam a gravidade dos problemas e irão se comprometer com um plano de implementar práticas mais sustentáveis.

    Para os colaboradores que não necessitam de saberes mais complexos na área, introduzir o assunto de forma geral, falando sobre ODS, economia circular e até pequenas ações do dia a dia para fazer em casa, são portas de entrada para expandir o interesse no tema e engajar nessa mudança cultural, além de conhecimentos importantes para todos nós como cidadãos mais conscientes.

    Treinamentos de metodologias e ferramentas de inovação, como empreendedorismo, design thinking e métodos ágeis também ampliam a visão sobre a resolução de problemas e formas de trabalhar. Mas além do conteúdo, é preciso também pensar na forma de levar esse conhecimento. Muitas vezes cursos e workshops não são suficientes, o que nos leva ao próximo tópico.

    Acelerando a mudança por meio da prática

    No Quintessa trabalhamos com programas de inovação aberta nas empresas, trazendo soluções inovadoras de startups para os desafios de sustentabilidade, novos negócios e responsabilidade social. Um dilema típico que vemos ao implementar estas iniciativas é se primeiro a empresa deveria criar essa cultura de inovação e sustentabilidade e capacitar as lideranças.

    O processo de mudança cultural é sempre vivo e está em constante evolução, então, o que vemos é que os programas de inovação aberta fazem parte desse processo e ajudam a tangibilizar e acelerar muitas transformações culturais.

    Programas de aceleração, por exemplo, oferecem um espaço de mentoria em que lideranças e colaboradores podem se envolver com empreendedores e aprender na prática como é trabalhar de forma ágil e inovadora no relacionamento com as startups, além de atuar na prática com soluções que geram impacto positivo.

    A prática estimula o desenvolvimento de competências como a criatividade, agilidade, colaboração, iniciativa e abertura ao novo, pensamento sistêmico, competências essenciais para encontrar soluções aos desafios de sustentabilidade e para se adaptar a mudanças.

    No Braskem Labs, que realizamos em parceria com a Braskem, são abertas inscrições para os colaboradores participarem como mentores do programa, e a cada ano as vagas ficam mais disputadas. O pitch day, etapa final da seleção das startups para o programa, é aberto para os colaboradores assistirem, votarem e fazerem perguntas aos empreendedores, e na última edição engajou mais de 200 pessoas.

    Programas em que implementamos pilotos de soluções das startups oferecem a experimentação prática e a geração de resultados no curto prazo. Além disso, contratar soluções de startups explicita um outro fator: não basta ter uma cultura de inovação e sustentabilidade se o processo de suprimentos ainda é burocrático e dificulta a adoção rápida de iniciativas inovadoras – a mudança cultural realmente deve estar em todas as áreas e processos. Trazer programas práticos, que provoquem e acelerem as mudanças pode ajudar muito neste processo, além de trazer uma organização parceria especialista para orientar a como realizá-las. 

    Em um programa que realizamos com o Banco BV, facilitamos a cocriação entre colaboradores do banco, para que desenvolvessem novos produtos, serviços e práticas empresariais, contando com o suporte de empreendedores como especialistas – e estimulando a inovação e intraempreendedorismo entre o time. Neste programa, além do desenvolvimento de competências dos colaboradores, colocamos em prática a criação de novos produtos, serviços e práticas empresariais que gerassem valor para o negócio e impacto positivo de forma integrada.

    A inovação aberta como aliada 

    As startups têm potencial de gerar valor e resolver desafios de quase todas as áreas, por isso a inovação aberta também tem papel transversal na empresa e deve ser trabalhada na cultura. Para que o trabalho seja possível, as pessoas precisam acreditar que não têm todas as respostas internamente, estarem abertas a dialogar, a aprender, a ouvir.

    É interessante garantir que um grupo de pessoas ou uma área seja responsável por fazer com que as iniciativas de inovação aberta aconteçam, estruturando o processo e um pipeline de startups para que outras áreas possam “beber dessa fonte”.

    A área de RH, por exemplo, pode se beneficiar da inovação aberta ao conhecer startups de impacto que trabalham a diversidade em diferentes frentes. Temos na nossa rede startups focadas em contratação de profissionais diversos; capacitação profissional de refugiados, jovens, pessoas LGBTQIA+, egressos do sistema prisional; implementação de práticas e sensibilização sobre temas como maternidade, parentalidade, masculinidade e empoderamento de mulheres no âmbito profissional; soluções inovadoras para treinamento e engajamento de colaboradores, entre outras.

    Pensar uma cultura de inovação e sustentabilidade é isso: buscar formas mais inovadoras de gerar impacto social e ambiental nas suas atividades – seja nas práticas de gestão, como também criando novos produtos, serviços e modelos de negócio.

    “Para o meu time, o Braskem Labs é uma oportunidade de interagir com um ecossistema que não teríamos outra oportunidade. Na área de desenvolvimento de mercado buscamos novos usos e aplicações para os nossos plásticos, e a provocação que acabo levando para a equipe é: além do modelo tradicional que a gente já vinha mapeando pra encontrar essas inovações, o que a gente pode trazer através das startups? E naturalmente isso acaba cativando as equipes para buscarem as novidades. É uma semente que vai reverberando.” – Renato Yoshino | Diretor dos negócios de Agro, Infra e Indústria na Braskem, durante gravação de um webinar com o Quintessa.

    Mostrar resultados gera engajamento e incentivo

    Quando os colaboradores enxergam o resultado das ações de inovação e sustentabilidade, o engajamento também aumenta. Não só daqueles envolvidos diretamente nas ações, mas em todos os que têm o desejo de se sentir parte de ‘algo maior’, de saber que a sua empresa está contribuindo para a geração de impacto positivo na sociedade.

    Sabemos que o processo de inovação demanda abertura para experimentação e para lidar com riscos, mas começar pequeno e ir demonstrando resultados tangíveis faz parte dessa transformação cultural. Cuide do engajamento das pessoas chave e ajude-os a entender que é um processo experimental e que as respostas serão dadas ao longo do caminho.

    Como falamos neste texto, não é tão óbvio para muitas pessoas que uma ação de impacto positivo pode gerar novas formas de relacionamento com o cliente e fidelização. Conforme a cultura vai amadurecendo e os resultados vão sendo demonstrados, esse tipo de iniciativa vai se tornando cada vez mais natural para os desafios das áreas.

    No programa CPFL na Comunidade, implementamos pilotos de negócios de impacto em comunidades de baixa renda atendidas pela CPFL Energia. As soluções de educação financeira, capacitação de mulheres em elétrica básica e reciclagem de uniformes geraram melhoria da percepção de marca pela população e resultados mensuráveis na redução do consumo de energia dos clientes. Ou seja, novas formas de se pensar o relacionamento com esse público e de gerar impacto além das ações de responsabilidade social.

    Pensando em mostrar o valor desse tipo de iniciativa para toda a companhia e gerar engajamento, a equipe responsável pelo projeto circulou algumas newsletters internas durante a implementação, contando sobre os desafios, os resultados e os depoimentos dos beneficiários na ponta.

    Ter metas atreladas à inovação e sustentabilidade traz um incentivo a mais para acelerar essa mudança cultural. Indo mais além, muitas empresas já começaram a atrelar o bônus de executivos(as) ao cumprimento das metas ESG – o que tangibiliza o compromisso e incentiva a mudança.

    Por fim, as empresas são feitas de pessoas, e cada uma tem suas crenças e motivações individuais para se engajar em determinados assuntos. Por isso, ao mesmo tempo em que se define e publica uma estratégia para ESG, sustentabilidade ou inovação, é preciso pensar nos fatores da cultura empresarial que sustentam e engajam as pessoas para essa agenda. Não é um desafio fácil, mas vale a pena dedicar energia aqui.

    A sustentabilidade não é responsabilidade de uma área, e sim de todas as pessoas. A inovação como alavanca da sustentabilidade – e vice-versa – deve estar no checklist de todos os projetos e decisões do dia a dia. A cultura é um processo contínuo e de longo prazo, tendo o propósito e valores como base. 

    Como falamos neste texto, as empresas estão em diferentes estágios de maturidade em direção a um futuro mais sustentável, e o nosso papel no Quintessa é acolhê-las e direcioná-las nesta transição. Entre em contato conosco para conhecer nossa atuação. 

  • Caminhos práticos para as empresas se aliarem às startups para reduzirem suas emissões

    Caminhos práticos para as empresas se aliarem às startups para reduzirem suas emissões

    Startups e corporações podem se juntar para fomentar inovação e sustentabilidade em diversas cadeias de valor

    As emissões de gases de efeito estufa vêm sendo amplamente entendidas como uma questão prioritária para o mercado. O crescimento de metas net-zero de grandes empresas, muitas vinculadas à bonds mais baratos, é apenas uma (e talvez a mais marcante) materialização disso.

    Para o Quintessa, que já está há mais de 11 anos trabalhando com soluções de mercado para superação dos nossos desafios sociais e ambientais junto a startups e grandes empresas, é ótimo ver o tema transcendendo espaços e indo além das tradicionais mesas com academia, governo e terceiro setor.

    Por já termos concordado, como sociedade, que esse é um dos temas prioritários para avançarmos, esse texto se foca em uma abordagem prática de como podemos atacar este desafio.

    Nós temos tido experiências muito positivas em ajudar grandes empresas a baterem suas metas de sustentabilidade através da inovação aberta. Esse é um caminho eficaz, rápido e menos arriscado de endereçar desafios, pois as startups já desenvolveram muitas das soluções, o que exime as grandes empresas de precisarem começar do zero.

    Assim, apresentamos aqui soluções de startups para o desafio da diminuição das emissões de carbono, e que podem ser válidas para distintos perfis de empresa.

    Logística

    No quesito eletrificação de frotas, startups como Voltz Origem vêm crescendo e mostrando que é viável produzir motocicletas elétricas nacionais. A E-Moving, startup acelerada pelo Quintessa, vem trabalhando com consumidores finais e empresas para difundir a bike elétrica como meio de transporte. Também para o last-mile, mas abrindo o flanco para maiores distâncias, a FNM está voltando, desta vez com caminhões elétricos.

    A Courri, também acelerada pelo Quintessa, colocou de pé um modelo logístico movido ao combustível mais limpo de todos: pedaladas. Em 2019, a B2W viu o movimento e adquiriu a startup.

    Startups em estágios mais embrionários, na fronteira do desenvolvimento de tecnologias em biocombustíveis e ganho de eficiência em baterias, também têm um papel relevante na temática de logística limpa.

    Uma observação importante para a opção de eletrificação de frotas se refere à matriz energética que está alimentando esses motores. No Brasil, 70% da matriz elétrica é limpa.

    Apesar de ser melhor que muitos outros países, ainda temos muito o que evoluir, o que leva ao assunto seguinte…

    Matriz energética

    Tornar a matriz mais limpa passa por ações de diversos atores e as grandes empresas têm um papel importante de indução e desenvolvimento destas soluções.

    A instalação de placas solares, que é normalmente a primeira iniciativa que vem à mente, pode ser feita com ajuda de startups como SolarGrid e a SolStar, e é um caminho cada vez mais vantajoso, à medida que a tecnologia por trás das placas evolui. O modelo de assinar placas, como o da Solar21 também tem apelo e é uma forma mais barata de começar.

    Outras fontes de energia, como o biogás produzido pela acelerada do Quintessa HY Sustentável também vem ganhando relevância, principalmente em cadeias alimentícias.

    Ademais, a migração da origem da energia elétrica da sua cadeia pode ser feita sem necessariamente a implantação de equipamentos nas instalações das empresas. Modelos de assinatura de créditos de energia limpa, como o da Lemon e da NewSun são saídas para se adotar em cadeias mais pulverizadas. Existem também grandes comercializadoras oferecendo energia limpa no mercado livre.

    Ganho em eficiência energética, uma pauta que é intimamente ligada ao retorno financeiro, uma vez que a economia de energia leva a menores gastos, também pode ser endereçado por startups, como a GreenAnt, que ajuda a mensurar perdas e ineficiências.

    Este é um trecho da coluna de Anna de Souza Aranha, diretora do Quintessa, no Um Só Planeta. Este texto foi escrito em co-autoria com João Ceridono.

  • Innovability: o que é e porque você deveria conhecer

    Innovability: o que é e porque você deveria conhecer

    Há anos, a inovação e a transformação digital vem sendo colocados como fatores decisivos para a sobrevivência das empresas no nosso tempo. Nos últimos 10 anos, o número de startups no Brasil cresceu 20 vezes, com um grande salto em 2018. Grandes empresas passaram a não só inovar internamente, mas se relacionar com esse ecossistema. Vimos o surgimento de hubs de inovação, plataformas digitais e co-workings patrocinados pelas grandes corporações. 

    Recentemente, tivemos uma mudança: apesar de um conceito e prática com décadas de existência, nos últimos dois anos a sustentabilidade passou a ser reconhecida como fator chave para a sobrevivência das empresas.

    Porém, muitos ainda não perceberam o valor em incorporar a sustentabilidade nos processos de inovação. Em muitas empresas ainda existe uma desconexão entre os compromissos de sustentabilidade com a criação de novos negócios e produtos. 

    Imagine, por exemplo, uma área de inovação trabalhando no lançamento de novos produtos em novas embalagens, enquanto a área de sustentabilidade está com o desafio de trabalhar em programas de logística reversa para as embalagens atuais da marca. Não faria sentido as duas áreas conceberem juntas um produto em embalagens mais sustentáveis, feitas com outros tipos de materiais, biodegradáveis ou de mais fácil reciclagem, por exemplo?

    É do potencial desta conexão que surge o termo Innovability, ou Inovabilidade. A palavra tangibiliza a crença de que a inovação e a sustentabilidade devem ser inseparáveis, não somente como áreas de negócio, mas como pilares estratégicos para toda a empresa.

    Em uma publicação da London School of Economics (LSE), os autores demonstram duas razões pelas quais estas agendas ainda estão desconectadas. A primeira é a falta de processos que realmente incluam a sustentabilidade na jornada de inovação desde os estágios iniciais. A sustentabilidade deve ser inserida desde os primeiros passos de uma inovação.

    A segunda razão é o gap entre as áreas de negócio e a área de sustentabilidade. Isso é reflexo de uma estrutura organizacional há muito tempo já estabelecida, com os dois times trabalhando por objetivos e metas muito distintas. É tempo de reestruturar as organizações para se adaptarem às novas demandas.

    Leia mais: Como empresas podem unir a geração de impacto positivo à estratégia de inovação e novos negócios

    A inovação aberta como aliada das metas de sustentabilidade e práticas ESG das grandes empresas

    O uso do termo Innovability não é sobre criar mais um conceito dentre tantos que já existem hoje, como ESG, valor compartilhado, Empresas B, capitalismo consciente… Mas sim sobre consolidar essa visão de que os dois processos são indissociáveis. 

    A Inovabilidade indica a capacidade de uma organização de inovar de forma sustentável e de alavancar a sustentabilidade como forma de inovação, novos negócios e diferenciação.

    O Quintessa acredita muito nesta visão estratégica, de ter a sustentabilidade como lente para enxergar novos negócios – bem como entender que processos de inovação, como a inovação aberta, podem ser muito eficazes para atingir os objetivos de sustentabilidade.

    Aqui no Brasil, além da nossa menção ao conceito em nossa publicação Guia para Inovar com Impacto, a referência que temos visto utilizando o conceito é Ricardo Voltolini, CEO da Ideia Sustentável, por quem conhecemos o termo.

    Na prática

    Uma empresa que se destaca e pauta este tema é a Enel, que criou um departamento de Innovability dentro da empresa, tornando as duas áreas indissociáveis. Desde 2014 a Enel faz da inovação e sustentabilidade seus pilares estratégicos por meio da inovação aberta, trazendo soluções de startups, universidades, pesquisadores, fornecedores, colaboradores e outras empresas.

    “Nós trabalhamos no innovability, um termo que combina os dois conceitos, e não somente em palavras, porque acreditamos que é impossível separá-los. Não podemos pensar em inovação sem ser sustentável, e vice-versa.” Ernesto Ciorra, Chief Innovability Officer da Enel.

    A iniciativa chamada de “Open Innovability” já envolveu mais de 100 países, com hubs em 32 deles, e 7 mil soluções propostas.

    Outras empresas que trabalham o conceito internamente são a EDP, também do ramo de energia, na crença de que “os desafios de mercado devem ser encarados sob uma perspectiva de reinvenção completa” e a Suzano, que se pauta na Inovabilidade para  “pensar fora da caixa e enxergar longe para lidar com os desafios do século 21”.

    Sem a utilização do conceito, mas enxergando as ações na prática, vale a menção à Vedacit, que unifica sob a liderança de Luis Guggenberger as áreas de Sustentabilidade, Inovação e Responsabilidade Social (Instituto), e o Braskem Labs, programa de inovação aberta da Braskem, que é originado e é até hoje gerido pela área de Desenvolvimento Sustentável.

    Leia também: Entrevista com Luis Guggenberger no Diálogos Quintessa

    Em tempos de grandes e rápidas mudanças, a inovação e a sustentabilidade passam a ser prioridade para qualquer empresa que deseja garantir sua relevância em um futuro próximo e devem andar juntas. 

    No Quintessa, acreditamos que a inovação é o caminho para alcançar soluções escaláveis para os desafios de sustentabilidade e ESG das grandes empresas, e que desafios de sustentabilidade podem ser oportunidades de inovação e diferenciação para as empresas. 

    As áreas e as pessoas já existem, a mudança é sobre introduzir uma nova lente e reorganizar os processos e estruturas para promover a Inovabilidade.

    Este tema faz parte do Guia para Inovar com Impacto, publicação inédita do Quintessa que apresenta um passo a passo para criar programas de inovação aberta que gerem valor para o negócio e impacto socioambiental positivo. Acesse o Guia completo aqui!


    Sugestões de leitura:

    How to embed sustainability into the innovation funnel – LSE Business Review

  • Gestão de resíduos: um panorama sobre negócios de impacto que endereçam esse desafio

    Gestão de resíduos: um panorama sobre negócios de impacto que endereçam esse desafio

    Análises e aprendizados sobre o pipeline de startups que atuam na temática

    3º Mapa de Negócios de Impacto lançado este ano pela Pipe Social contou com um estudo especial sobre negócios da área ambiental. Ao todo, foram 536 negócios mapeados alinhados à agenda ambiental, com atuação nos setores da agropecuária, florestas e uso do solo, indústria, logística e mobilidade, energia e biocombustíveis, água e saneamento e gestão de resíduos.

    Alguns dados merecem destaque sobre estas startups: 39% delas ainda não tiveram faturamento e 28% faturaram até R$100 mil em 2019. Em 45% delas, a necessidade por capital se mostra presente e dos que já receberam algum tipo de recurso, 68% acessaram um bolso filantrópico.

    Sob a perspectiva de impacto, 42% dos negócios mapeados estão voltados à gestão de resíduos, o que mostra que grande parte das greentechs estão de olho no “lixo” como negócio. E não é só no Mapa da Pipe Social que isso se comprova.

    Este é o 3º ano que o Quintessa é o parceiro do Braskem Labso programa de inovação aberta da Braskem que faz parte da estratégia de Desenvolvimento Sustentável da empresa – acelerando startups que geram impacto socioambiental positivo na cadeia do plástico e da química. Procuramos por negócios com foco em agronegócio, biotecnologia, construção e infra, economia circular, embalagens, mobilidade e química sustentável. O Labs conta com duas turmas: o Ignition, para negócios em estágio de validação do modelo de negócio, e o Scale, para negócios onde o desafio é estruturar a gestão e impulsionar o crescimento.

    Na edição deste ano recebemos aproximadamente 400 inscrições, sendo 25% dos negócios inscritos os de economia circular. Desses, menos da metade eram elegíveis para o programa do Scale, sendo direcionados para o Ignition, o que demonstra que, de fato, a maioria dos negócios desse setor está em estágio inicial de desenvolvimento.

    A Política Nacional de Resíduos Sólidos (PNRS) instituída em 2010 abriu uma série de oportunidades para empreendedores desenharem modelos de negócio que auxiliassem os geradores a cuidarem da destinação correta dos resíduos.

    O que por um lado parece oportuno demais, por outro faz com que o mercado se torne bastante habitado por soluções similares, o que costumamos chamar de “oceano vermelho”. Buscar por diferencial competitivo nesses casos é a base para garantir um posicionamento sólido no mercado.

    É interessante notar nas inscrições do Braskem Labs a quantidade de negócios focados em coleta e destinação correta de resíduos pós consumo por meio de benefícios para o consumidor final. Geralmente se configuram em modelos de recompensa para quem leva o seu resíduo separado (pet, vidro, alumínio etc) por meio de pontos ou outros benefícios. So+ma e Molecoola são dois ótimos exemplos que passaram no Braskem Labs em 2019 e 2020, respectivamente. Como eles, vários outros vêm surgindo.

    Outro exemplo são as empresas de rastreabilidade da cadeia de resíduos, como a Plataforma Verde ou a Circular Brain. Aqui estamos falando de plataformas de logística reversa que permitem a integração de todos os players da cadeia, bem como monitoramento deles, promovendo um aumento da entrada de resíduos no ecossistema.

    Além deles, há diversas outras startups que já aceleramos e que trazem soluções para a logística reversa, relacionamento e melhoria das cooperativas, como BoomeraInstituto MudaRecicleirosGaia/ViraserGreenMiningBRPolenArco ResíduosSolos Biocicla.

    Com tantas soluções habitando esse mercado, a pergunta que fica é: como se diferenciar nesse mercado? Sabemos que ele está se desenvolvendo e que talvez essa resposta também esteja. Mas já dá para reconhecer algumas pistas. Destacamos aqui algumas delas.

    Este é um trecho da coluna de Anna de Souza Aranha, diretora do Quintessa, no Um Só Planeta. Este texto foi escrito em co-autoria com Thaís Fontoura.

    LEIA O TEXTO COMPLETO NO UM SÓ PLANETA

  • Em sua sétima edição, Braskem Labs anuncia 20 startups selecionadas  para seus programas de aceleração

    Em sua sétima edição, Braskem Labs anuncia 20 startups selecionadas para seus programas de aceleração

    Neste ano, a plataforma de empreendedorismo conta com apoio de Johnson & Johnson Consumer Health, Grendene, Sherwin-Williams e Oxiteno como co-sponsors. Desde 2015, a plataforma acelerou mais de 90 startups.

    A Braskem anuncia as 20 startups selecionadas para a próxima etapa do programa Braskem Labs, que chega à sétima edição em 2021. Com objetivo de impulsionar negócios sustentáveis criados a partir da química e do plástico, o programa conta este ano com as parcerias de Johnson & Johnson Consumer Health, Grendene, Sherwin-Williams e Oxiteno, que trabalharam juntas na escolha e darão mentoria aos projetos inovadores e com impacto positivo na sociedade e no meio ambiente. O Quintessa, aceleradora dedicada a startups de impacto socioambiental positivo, é parceiro da Braskem nesta plataforma pelo terceiro ano consecutivo.

    Respeitando as medidas de isolamento social, a edição desse ano foi, pela segunda vez, em formato digital. A seleção ocorreu nos dias 11 e 13 de maio contando com os integrantes das empresas participantes e importantes nomes da cadeia da química e do plástico, que determinaram as startups que seguirão no Braskem Labs. O programa conta com duas frentes: 10 projetos irão participar do Braskem Labs Ignition, focado em startups ainda em fase de validação de modelo de negócio; e 10 do Braskem Labs Scale, que oferece suporte para negócios em fase de tração ou escala, impulsionando seu crescimento.

    Desde 2015, quando foi criado, mais de 90 startups foram aceleradas pelos dois programas e, destas, 96% continuam no mercado e outras 34% atraíram investimentos externos. A próxima fase de aceleração teve início na última quarta-feira, 09/06, contando com um evento de kick-off. Ao longo deste ano, os empreendedores participarão de workshops e mentorias – individuais e em grupo – com executivos da Braskem e dos co-sponsors relacionados aos seus negócios, realizando dinâmicas envolvendo desde o estabelecimento de um público-alvo à construção do modelo de negócio. 

    Para Karla Censi, gerente de soluções sustentáveis na Braskem e responsável pelo programa de aceleração Braskem Labs, a iniciativa reforça o papel da Braskem de antever a importância de incentivar esse ecossistema e fomentar seu próprio programa de aceleração de startups há sete anos, como uma forma de apoio ao empreendedorismo e construção de parcerias em prol da inovação.

     “Ao longo de todo o desenvolvimento do programa, temos notado movimentos que geram resultados positivos e viabilizam a realização de projetos disruptivos, tirando-os do campo das ideias e oferecendo possibilidades para que sejam colocados em prática. Com isso, o Braskem Labs contempla duas frentes primordiais nos negócios, não só no presente, mas também visando as gerações futuras: a inovação e a sustentabilidade”, afirma. 

    O Braskem Labs é inteiramente equity free, ou seja, as empresas apoiadoras não se tornam sócias das startups, o que reforça o posicionamento do programa em prol do ecossistema e dos empreendedores. Nos últimos seis anos, mais de 32% das empresas participantes firmaram parcerias com a Braskem ou co-sponsors. 

    Confira as empresas selecionadas para participar do Braskem Labs 2021:

    Braskem Labs Ignition 

    Startup Descrição
    Circular Brain Primeiro ecossistema digital para rastreabilidade e gestão do Ciclo de Vida de equipamentos eletroeletrônicos. Um hub de soluções digitais para economia circular por meio de logística reversa (pós-venda e pós-consumo), segurança da informação, reuso, reciclagem e disposição final de produtos tecnológicos. 
    BioBeads Produção e desenvolvimento de micro e nanopartículas poliméricas naturais biodegradáveis e/ou biocompatíveis para aplicação em diversos setores como cosmético, farmacêutico e médico.
    Dana Agro Linha de produtos atóxicos que protegem e renovam as culturas de cana-de-açúcar, soja, milho, hortaliças e frutas, dos danos ambientais (seca, chuva intensa, alternância de temperaturas, chuvas de granizo e geada). Por meio da tecnologia, o produtor tem garantida a produtividade e a arentabilidade nas lavouras frente as condições adversas.
    Desembala Comercialização de linha completa de produtos de limpeza disponíveis em sachês concentrados e hidrossolúveis. 
    FitStock Plataforma digital onde as empresas podem anunciar seus excedentes de insumos químicos para venda, compra de materiais anunciados ou outras solicitações que sejam procuradas no mercado.
    Instituto Cidade Jardim Telhados verdes e jardins verticais que possibilitam espaço para produção local de alimentos, ajudando a reduzir as distâncias entre o produtor e o consumidor. 
    Minha Coleta Solução que promove a coleta para todos tipos de resíduos em condomínios,  com assinatura de crédito de logística reversa e programas de logística reversa para empresas.
    Mush Embalagens e isolamento acústico biodegradável produzidos a partir da tecnologia de micélio, com resíduos do agronegócio. 
    O2Eco  Placa de parafina com nano minerais que ativam o processo de bioestimulação, mobilizando, naturalmente, as bactérias que já estão no corpo hídrico a consumirem a matéria orgânica.
    S3nano Aditivo utilizado para eliminar fungos, bactérias e vírus das superfícies dos produtos, aumentando o tempo de vida da produção e reduzindo a transmissão de doenças.

     

    Braskem Labs Scale

    Startup Descrição
    BioLambda Venda de equipamentos de fotopolimerização de ambientes, ar e superfícies.
    Bioz Green Produtos de limpeza e higiene isentos de conteúdo petroquímico.
    Coletando Inclusão bancária por meio da coleta de resíduos. Por meio da plataforma, é possível gerar renda extra ao trocar embalagens por dinheiro. 
    Descarte Correto Recebem ou compram resíduos eletrônicos, atuando em 3 frentes: (1) recuperação de computadores e venda a preços acessíveis para centros educativos, (2) recuperação de computadores e venda da licença da metodologia para centros educativos com cursos profissionalizantes e (3) venda da matéria-prima de volta para a indústria.
    Fleurity Venda de coletores menstruais ou calcinhas/absorventes reutilizáveis, reduzindo o risco de infecções e evitando o descarte de absorventes usados no meio ambiente. 
    Port Roll Substituição da embalagem one way de madeira por caixas de plástico reutilizáveis.
    Rochmam Venda ou aluguel de máquinas para a recuperação de solventes.
    TNS Nano Soluções de nanotecnologia para aplicação em embalagens, tecidos, tintas, espumas e fibras.
    Trashin Sistema de coletas e projetos de logística reversa. Trabalham com educação e sinalização no ponto de coleta, rastreabilidade até a destinação adequada, dados em sistema online e cashback aos geradores sobre a venda dos resíduos.
    YouGreen Cooperativa que realiza a gestão integrada de resíduos para grandes geradores, trazendo uma solução completa para clientes industriais, comerciais e residenciais. 
  • Guia para inovar com impacto | Passo a passo para Inovar com Impacto

    Guia para inovar com impacto | Passo a passo para Inovar com Impacto

    Está no ar o “Guia para inovar com impacto”, uma publicação do Quintessa que apresenta um passo a passo para criar programas de inovação aberta que gerem valor para o negócio e impacto socioambiental positivo.

    Compartilhamos nossa metodologia para apoiar grandes empresas, institutos e fundações a avançarem nesta agenda, detalhando a abordagem dentro de três pilares: novos negócios, sustentabilidade e ESG, e filantropia corporativa e responsabilidade social.

    A publicação tem patrocínio da Aliança pelos Investimentos e Negócios de Impacto.

    Faça download aqui

  • Ouse dar potência à humanidade que existe em você

    Ouse dar potência à humanidade que existe em você

    O que a gente precisa é de gente humana, inconformada, corajosa — e disposta a agir

    “ESG”, felizmente, chegou ao mainstream. Cada vez mais há recursos para fundos de investimento de impacto. Contornada por diversos conceitos distintos (como Empresas B, capitalismo consciente, capitalismo de stakeholders, negócios de impacto, entre outros), a ideia de que não basta se satisfazer apenas com o lucro e retorno financeiro gerado chegou.

    A ideia de que é preciso olhar além – seja mitigando riscos, adotando práticas alinhadas aos aspectos sociais, ambientais e de governança, ou resolvendo desafios sociais e ambientais a partir da sua atividade principal – começou a furar a bolha. Mas, se ela ainda não chegou para você, por que olhar para ela?

    Há três vertentes para racionalizar a resposta. A primeira: pela dor, medo de perder, constrangimento de regulamentações e exigências de consumidores, colaboradores e investidores. A segunda: pela conveniência, inteligência, oportunidade em ganhar ainda mais — fundamentada pelos estudos que demonstram o retorno de investimentos sustentáveis superior aos tradicionais. A terceira, pelo amor, pela convicção, pela consciência – que é a que vou explorar aqui, dada que as demais já foram embasadas antes.

    Acho que além das argumentações racionais, às quais estamos viciados como sociedade, há um motivo maior e mais simples. Porque faz sentido. Porque é necessário. Porque se não, não estaremos vivos para podermos operar da forma como operávamos antes. A crise ambiental que vivemos é também uma crise social – seja porque nós somos uma das espécies afetadas por ela, seja porque somos a espécie que está causando ela.

    Há algum tempo, como professora no MBA da FIAP, fiz com diversas turmas um exercício muito simples — estimulava a pessoa a refletir sobre seus valores pessoais, entender o quanto estavam alinhados às suas práticas diárias no trabalho e então propor novas práticas ou reforçar outras para poder garantir um maior alinhamento. Tendo visto mais de quase 200 respostas ao exercício, fiquei chocada em ver que elas todas iam para caminhos comuns.

    Exemplifico: ouvir o cliente e vender algo que lhe fosse de fato útil, sem ter que vender algo que está vinculado à sua meta, mas que sabe que é ruim para o cliente.

    Ter mais espaços de escuta com o time e poder compartilhar aprendizados com outros. Poder unir mais o lado pessoal e profissional, sendo mais transparente sobre o que pensa e sente no ambiente de trabalho. E tantas outras, mais ou menos sofisticadas, nessa linha.

    Minha reflexão foi de que parecia que a resposta estava apenas em não atrapalhar as pessoas para que elas pudessem expressar seus valores e sua humanidade, o que já traziam naturalmente dentro de si, sem esbarrar em regras e políticas que impedissem isso.

    Quando falamos sobre ESG, acho que há (ou deveria haver) essa mesma reflexão por trás. Podemos pensar de uma forma racional sobre o eixo de “diversidade”, mas não há uma abordagem mais natural, orgânica, humana, na qual podemos chegar nesse eixo simplesmente pensando “não parece estranho que alguns grupos de pessoas não consigam alcançar as mesmas oportunidades que chegam a outros, de forma mais equânime?”.

    A mesma coisa para a questão ambiental. Podemos olhar para um eixo ambiental a partir de frames, métodos e políticas, mas também podemos chegar a uma ideia de ação refletindo “não parece justo que eu ajude a regenerar o ecossistema do qual estou extraindo água do lençol freático, pensando que a população local não deveria ser prejudicada pela minha empresa?”. Ou mesmo dentro do viés de “se eu posso beneficiar os pequenos fornecedores que atuam na minha cadeia de valor, convertendo isso em fidelização, produtividade ou qualidade do produto, não parece um desperdício não fazer isso?”.

    Algumas ideias que às vezes consideramos geniais e fora da caixa são muitas vezes óbvias, apenas não vistas por termos nos viciado tanto a um certo modo de pensar, enxergar, fazer negócios, que ficam escondidas por trás de nossos pontos cegos.

    Este é um trecho da coluna de Anna de Souza Aranha, diretora do Quintessa, no Um Só Planeta

    LEIA O TEXTO COMPLETO NO UM SÓ PLANETA

  • Investimentos ESG e de Impacto: qual a diferença?

    Investimentos ESG e de Impacto: qual a diferença?

    ESG e investimentos de impacto têm ganhado espaço nos últimos anos e meses, mas apesar de terem um princípio em comum, é importante esclarecer que são conceitos distintos. 

    Os dois conceitos partem do mesmo princípio – de que não basta apenas gerar retorno financeiro, mas é preciso considerar o efeito gerado pelo investimento. Ambos estão dentro de uma camada mais ampla de investimentos responsáveis.

    Diferenciando os dois conceitos

    Os investimentos que levam em conta a análise dos fatores ESG têm um olhar mais focado no “como” a empresa opera, se tem práticas nos aspectos ambiental (E), social (S) e governança (G) que geram impacto positivo ou negativo. 

    Os investimentos de impacto tem foco no “por que” e “o que” a empresa faz, ou seja, se o seu core business (sua atividade principal) resolve desafios sociais e ambientais.

    Enquanto investimentos ESG têm uma abordagem para identificar riscos não-financeiros que podem afetar o valor do ativo, sendo parte de um processo de análise, os investimentos de impacto dizem sobre o tipo de investimento que o(a) gestor(a) está buscando e sua intencionalidade.

    Fazendo uma analogia simples: ao fazer um investimento ESG, eu posso aportar recursos em uma empresa que vende um iogurte comum, mas com práticas adequadas em termos  sociais, ambientais e de governança – por exemplo, com uma correta destinação dos resíduos da produção e uma justa remuneração dos produtores de sua cadeia produtiva. Ao fazer um investimento de impacto, seria preciso escolher, por exemplo, uma empresa que tem foco em mudar o cenário de subnutrição, com um iogurte reforçado com vitaminas e um preço acessível à população que enfrenta a subnutrição – tendo em seu core business o foco em resolver um desafio social e ambiental.

    Podemos dizer que o ESG é um “guarda-chuva” mais amplo.

    O investimento com foco em ESG, além do retorno financeiro, busca também, em primeira instância, mitigar riscos ambientais, sociais e de governança para proteger valor, ou ainda, adotar práticas positivas nestes três âmbitos, para aumentar seu valor. 

    Os investimentos de impacto possuem um foco distinto, pois têm a intenção e o foco em soluções para os desafios sociais e ambientais, por meio das atividades core das empresas investidas.

    investimento de impacto
    Fonte da imagem: Aliança pelos Investimentos e Negócios de Impacto – https://aliancapeloimpacto.org.br/

    A expectativa de retorno sobre os investimentos de impacto varia bastante de acordo com o perfil dos investidores, e podem ser mais ou menos competitivas, como vemos nos três quadros da imagem acima. 

    Segundo o relatório ‘Investimento de Impacto na América Latina’, elaborado a cada dois anos pela Aspen Network of Development Entrepreneurs (Ande), dos 28 investidores respondentes, quase metade espera taxas alinhadas às de mercado, enquanto uma parcela menor aceita taxas um pouco inferiores. Os 11 investidores, que respondem por menos de US$ 100 milhões, fazem alocação com intenção de preservar capital. 

    Fonte da imagem: Aspen Network of Development Entrepreneurs (Ande) – Investimentos de Impacto na América Latina Tendências 2018 & 2019

    O que são os investimentos ESG

    Os investimentos ESG (ASG, em português) são aqueles que consideram os fatores ambientais, sociais e de governança na análise e no processo de tomada de decisão. Com uma análise mais ampla se comparada à dos investimentos tradicionais, é frequentemente utilizada como uma forma de se melhorar o desempenho financeiro.

    Segundo o CFA Institute, cada letra refere-se a:

    E – Ambiental (Environmental, em inglês) | Medida da conservação do mundo natural, que inclui os esforços relacionados às mudanças climáticas, emissões de gases de efeito estufa, poluição, biodiversidade, gestão de resíduos e efluentes, etc.

    S – Social | Medida da consideração das pessoas e sua relação com a empresa, como satisfação do consumidor, engajamento dos funcionários, diversidade, relação com comunidades, proteção de dados, relações de trabalho, etc.

    G – Governança | Medida dos padrões de gestão de uma empresa que tratam da composição do conselho de administração, estrutura dos comitês de auditoria e fiscal, processos para evitar corrupção, ouvidoria, etc.

    O termo foi cunhado em 2005, no Estudo chamado “Quem se importa vence.” realizado pelo Pacto Global.

    O ESG não é um produto ou classe de ativos, é um critério de análise e um novo olhar na decisão por um investimento.

    Existe a separação em investimentos que são “mitigadores de risco”, impactando a análise e diligência na decisão de investimento, e outros que são focados em “oportunidades positivas”, buscando proativamente o progresso dentro dos três pilares. 

    Cada vez mais há dados que mostram que os investimentos focados em oportunidades de progresso são mais rentáveis a longo prazo, por correlações, por exemplo, entre a busca da redução das emissões de carbono e a redução de custos com energia, entre uma maior diversidade entre o time e uma maior produtividade, retenção e engajamento deste time, e mesmo entre uma maior geração de valor e fidelização dos clientes.

    Cada vez mais vemos grandes empresas emitindo dívidas vinculadas a metas de descarbonização, com a identificação como ESG. São exemplos as captações da Sicredi e da Fazenda da Toca, e mesmo fundos que se identificam desta maneira, como o da Plural Asset. Ao mesmo tempo, é comum a discussão sobre a adequação ou não dessa identificação, como o caso da dívida emitida pela Via, o que convoca ao cuidado neste tipo de análise.

    O que são os investimentos de impacto

    Os investimentos de impacto são aqueles que têm a intencionalidade clara de gerar impacto social e/ou ambiental de forma mensurável, além do retorno financeiro (GIIN – Global Impact Investors Network). 

    O termo surgiu em 2010, no relatório do JP Morgan “Impact Investments: an emergent asset class”, que incluiu a lente dos impactos sociais e ambientais positivos além do retorno financeiro.

    Os investimentos de impacto são então os investimentos feitos em negócios e soluções empreendedoras com intencionalidade clara de resolver um desafio social ou ambiental, como a melhoria da educação, acesso à saúde, gestão de resíduos, fontes de energia renovável, entre outros, ao mesmo tempo que geram retorno financeiro – os chamados negócios de impacto. 

    Os 17 Objetivos do Desenvolvimento Sustentável (ODS), os quais estão por trás da Agenda 2030, são comumente usados como base para fundamentação sobre a relevância do desafio que se busca superar.

    No conceito sistematizado pela Aliança pelos Investimentos e Negócios de Impacto, negócios de impacto são “empreendimentos que endereçam problemas socioambientais por meio de sua atividade principal e atuam de acordo com a lógica de mercado, com um modelo de negócio que busca retorno financeiro” e possuem essas quatro características principais:

    – Intencionalidade de resolução de um problema social e/ou ambiental;

    – Solução de impacto é a atividade principal do negócio;

    – Busca de retorno financeiro, operando pela lógica de mercado;

    – Compromisso com monitoramento do impacto gerado.

    Pelo foco explícito na geração de impacto, muitas vezes os investidores se distanciam desses negócios por enxergá-los próximos ao terceiro setor e ações de filantropia. O que diferencia os negócios de impacto das ONGs é a busca de retorno financeiro e a geração de impacto atrelada à geração de receita pela venda de produtos e serviços, além da possibilidade de poderem distribuir dividendos, o que os torna capazes de oferecer retorno aos investidores com os mesmos parâmetros de mercado de startups tradicionais, por exemplo.

    Qual o cenário dos investimentos de impacto no Brasil?

    No final de 2019 os investimentos de impacto no Brasil somavam US$ 785 milhões, mais que o dobro de dois anos antes (US$ 343 milhões).

    O GUIA 2.5, realizado pelo Quintessa, já mapeou 19 iniciativas de investimento em negócios de impacto no ecossistema brasileiro. Além das iniciativas que trabalham com a modalidade de investimento de risco (Venture Capital), temos também iniciativas de empréstimos com foco em impacto.

    Fonte: guiadoisemeio.com.br

    As organizações de desenvolvimento dos negócios, como aceleradoras e incubadoras, têm papel fundamental para desenvolver e preparar os negócios para crescer e estarem maduros para receber os investimentos de risco, qualificando esse pipeline.

    Quem está investindo em ESG e impacto?

    As grandes gestoras de investimento têm liderado a “pressão” nas empresas por adequações e adoção de melhores práticas ambientais, sociais e de governança. Temos importantes declarações de Larry Fink, da BlackRock, ou da Goldman Sachs, que não fará o IPO de empresas sem a participação de mulheres no conselho. 

    Por outro lado, a participação da sociedade e a decisão “mais consciente” de onde alocar os seus recursos também está crescendo. Não é mais novidade a mudança na tomada de consciência das pessoas, especialmente as novas gerações, sobre as questões sociais e ambientais. Não só em busca de incentivar e consumir de empresas ‘responsáveis’, existe um crescente interesse em alinhar também seus investimentos a seus valores pessoais. 

    Em uma pesquisa de 2014, somente 47% das pessoas acima de 69 anos acreditavam que é possível obter retornos financeiros ao investir em negócios de impacto. Já para os millennials, esse número salta para 73% (US Trust Insights on Wealth and Worth, 2014).

    O mercado já tem se movimentado para atender esse público, como a notícia recente da Fama Investimentos, que reduziu a aplicação mínima no fundo de ESG para mil reais. Segundo a gestora, a tese dialoga com o público mais jovem, com menor poder aquisitivo, mas que tem buscado esse alinhamento. Outro exemplo é a frente de empréstimo coletivo da Sitawi, com tíquetes iniciais acessíveis.

    Temos observado o mesmo interesse por parte dos family offices. Existe cada vez mais o desejo de se alinhar e aplicar os valores da família nas suas decisões de investimento, deixando um legado mais consistente de seus recursos.

    Para trazer uma ordem de grandeza, segundo o JP Morgan, os investimentos ESG ultrapassaram US$ 45 trilhões em 2020 (90% na Europa e Estados Unidos), enquanto isso, o relatório de 2019 da GIIN estimou que o mercado de investimentos de impacto está em US$ 502 bilhões. Debates e visões do mercado também são animadoras e otimistas quanto ao potencial de rentabilidade dos investimentos ESG e de impacto.

    A tendência é de cada vez mais crescimento, visibilidade e capital para a solução dos nossos maiores desafios sociais e ambientais. Visto por muitos como a “nova moda”, nós acreditamos que ela não é passageira, e que no futuro próximo, o que é visto hoje como ‘investimento tradicional’ será visto como exceção.

    Assim, é importante que você esteja preparado(a) para identificar, analisar e investir nestes diferentes tipos de investimento, os quais vemos como complementares.


    Sugestões de leituras complementares:

  • Webinar | Inovação, ESG e Diversidade

    Webinar | Inovação, ESG e Diversidade

    No dia 25 de maio, Anna de Souza Aranha, diretora do Quintessa, realizou uma palestra no Learning Village, hub de inovação e educação da HSM e SingularityU.

    A palestra abordou como a inovação aberta e o relacionamento com startups de impacto podem impulsionar a agenda ESG de grandes empresas, trazendo exemplos na temática de diversidade.

    Acesse aqui a gravação na íntegra.

  • Economia Donut: a tese sobre os 5 estágios das empresas na transição para um modelo mais sustentável

    Não é de hoje a percepção e o alerta de que os modelos econômico, industrial e empresarial estão pressionando os limites sustentáveis do planeta. Há um movimento de muitas empresas e indivíduos em busca de alternativas e ações para reduzir o seu impacto negativo e gerar impacto positivo.

    São diversos modelos, agendas e pensamentos propostos para apoiar as empresas e toda a sociedade nessas ações, por exemplo a Agenda 2030 e os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável.

    Um dos modelos propostos para gerar transformação sistêmica envolvendo os diferentes setores rumo a um futuro sustentável é a Economia Donut. Criado pela economista inglesa Kate Raworth, o Donut propõe uma nova lógica para pensar a economia, que leva em conta a dignidade humana e os limites ecológicos do planeta.

    Na Economia Donut, o espaço seguro e justo para a humanidade deve se manter dentro da “rosquinha”, por isso o nome Donut. Indicadores abaixo disso mostram uma privação humana em áreas como educação, água, energia, igualdade de gênero (baseadas nos ODS), e quando os indicadores ultrapassam a parte exterior do Donut, significa que aquele país ou cidade avaliado estaria ultrapassando o teto ecológico que o planeta pode sustentar.

    Qual o papel das empresas nessa nova economia?

    Segundo a economista, quando as empresas tomam consciência de que precisam fazer parte da solução e adotar práticas mais sustentáveis, podem apresentar diferentes tipos de comportamento. 

    Ela apresentou o conceito para diversos líderes empresariais e recebeu respostas distintas sobre o que cada uma das empresas estaria fazendo para preservar o planeta e gerar desenvolvimento humano. 

    Kate entendeu que a variedade de respostas demonstra que empresas estão em diferentes momentos nessa transição de um modelo degenerativo para uma concepção regenerativa, e dividiu em 5 estágios, os quais chamou de “Lista de Tarefas das Corporações”:

    1. Não fazer nada
    2. Fazer o que compensa
    3. Fazer a parte que nos cabe
    4. Não provocar danos
    5. Ser generoso e regenerativo
    1. Não fazer nada

    Essa é a mais velha e simples resposta. 

    “Por que mudar o nosso modelo de negócios, raciocinam eles, quando ele vem dando forte retorno? Nossa responsabilidade é maximizar os lucros, de modo que, enquanto não forem introduzidos impostos ou cotas ambientais para alterar os incentivos que temos pela frente, continuaremos assim. O que estamos fazendo é (na maior parte) legal, e, se formos multados, tendemos a considerar isso um custo operacional.” 

    Durante muito tempo essa foi a postura que prevaleceu, tratando a sustentabilidade como um custo.

    Porém, não há mais tempo para pensar assim. Por exemplo, as mudanças climáticas já estão afetando os negócios. Empresas que dependem, por exemplo, de fornecedores agrícolas para fabricar roupas, alimentos, vinhos, refrigerantes ou cervejas, começam a perceber (inclusive no bolso) a consequência que o aumento da temperatura global está causando nas cadeias de abastecimento de seus produtos.

    Grande parte das empresas já reconhece que ‘não fazer nada’ deixou de ser uma estratégia inteligente e a resposta do estágio 2 se tornou mais comum. 

    Leia mais: Uma nova forma de negócios está aqui – e veio para ficar. Por que ignorá-la não é uma opção?

    2. Fazer o que compensa

    O segundo estágio diz respeito a adotar medidas ecoeficientes que reduzam custos ou promovam a marca. Por exemplo, a redução da utilização de água e energia na indústria são algumas medidas que tendem a reduzir custos.

    Em outras palavras, a empresa começa a contribuir com soluções, mas em uma abordagem utilitarista.

    “A Volkswagen ganhou notoriedade em 2015, quando se descobriu que havia introduzido deliberadamente uma modificação no software do sistema de injeção eletrônica de milhões de seus carros a diesel de forma a programar seus motores para funcionar no modo de baixa emissão de poluentes durante os testes regulatórios, reduzindo de maneira significativa os índices de emissões de óxido de nitrogênio e dióxido de carbono.”

    Nesse estágio, segundo a autora, também se encaixam os “produtos verdes”, cujo objetivo está na promoção da marca e diferenciação da concorrência, enquanto os demais produtos “não-verdes” continuam nas prateleiras normalmente. 

    Em muitos casos, as empresas oferecem esses produtos a preços mais altos e transferem a responsabilidade para o consumidor – em estar ou não “disposto”  a comprar os produtos mais ecológicos.

    A criação de alternativas mais sustentáveis é um começo, mas está longe de ser o que é realmente necessário. Isso quando os produtos são de fato mais sustentáveis e não somente uma ação de greenwashing, o que renderia um texto à parte.

    3. Fazer a parte que nos cabe

    Esse estágio começa a entrar em um maior nível de profundidade e diz respeito à fazer sua parte no que se refere à mudança para a sustentabilidade. As empresas que estão com essa abordagem reconhecem a escala da mudança necessária, por exemplo, com a redução total das emissões de gases do efeito estufa ou no uso de fertilizantes. Porém, apesar de reconhecer, têm uma abordagem de se responsabilizar apenas pela sua parte, não pelo todo.

    A autora traz o exemplo de um banco da África do Sul que se comprometeu a destinar “a parte que lhe cabia” de financiamento, cerca de 400 milhões de dólares por ano, para investimentos em iniciativas sociais e ambientais do país, provendo energia acessível e renovável, água e saneamento para a população. É uma iniciativa incrível, mas precisamos saber o que o restante do dinheiro do banco está financiando – se é, por exemplo, a indústria de combustíveis fósseis.

    “…como bem sabe qualquer um que já tenha ficado com a conta do restaurante na mão depois de todos já terem contribuído com as respectivas partes, a conta quase nunca bate. Quando somos nós mesmos que determinamos o que nos cabe fazer, nunca conseguimos fazer nada – como demonstraram governos no mundo todo com seus compromissos tristemente inadequados, determinados em nível nacional, de cortar as emissões de gases do efeito estufa.” 

    Essa é uma visão complexa, mas o que a autora quer dizer é que muitas vezes a mentalidade de “fazer a nossa parte” pode levar a querermos “ficar com a nossa parte”. 

    Explico: ao determinar os limites que o planeta pode sustentar, as empresas passam a enxergar como um bolo a ser distribuído. Se é possível emitir X toneladas de CO2, vou pegar a minha fatia. Mas qual é de fato o tamanho dela? Quanta água dos lençóis freáticos cada empresa pode utilizar?

    Essa ideia de que cada um fica com a sua parte pode levar a visão de que estamos competindo pelo “direito de poluir”. E sabemos que nós, seres humanos, quando disputamos recursos limitados, podemos ter a tendência a brigar por espaço, fazer lobby, mudar as regras do jogo e, nesse processo, corremos o risco de ultrapassar os limites.

    4. Não provocar danos

    O quarto comportamento das empresas traz uma mudança de perspectiva: não provocar danos, também conhecido como “missão zero”. Esse estágio diz respeito a conceber produtos, serviços, construções e negócios que tenham como objetivo um impacto ambiental zero.

    Um exemplo é a fábrica de laticínios da Nestlé no México, que tem um consumo zero de água. Toda a água que ela precisa para abastecer a indústria é suprida ao condensar o vapor produzido pelo leite.

    Os casos de água e energia são mais comuns, mas seria ainda maior se fosse o objetivo em todos os recursos operacionais das empresas. A missão zero demonstra um sinal de que podemos ter alta eficiência na utilização de recursos.

    Porém, uma reflexão interessante nesse caso é pensar na frase do arquiteto William McDonough, que “ser menos ruim não é ser bom, é ser ruim, só que menos”.

    “Perseguir a missão zero é uma visão estranha para uma Revolução Industrial, como se parasse intencionalmente no limiar de algo muito mais transformador. Afinal, se a sua fábrica consegue produzir toda a energia e água limpa que utiliza, por que não checar se poderia produzir mais? Se consegue eliminar todos os materiais tóxicos do seu processo de produção, por que não introduzir no seu lugar materiais que melhorem a saúde?”

    É claro que não são questões simples, mas no lugar de “fazer menos mal”, as empresas podem ter como objetivo “fazer mais bem”, reabastecendo o planeta no lugar de degenerá-lo de forma mais lenta., o que nos leva ao estágio 5. 

    5. Ser generoso e regenerativo

    “Por que apenas não pegar nada quando é possível também dar alguma coisa?” 

    É dessa pergunta que surge o último estágio da transição: ser generoso e criar um empreendimento regenerativo por concepção.

    “Mais do que uma ação numa lista de coisas a fazer, trata-se de uma forma de estar no mundo que adota a gestão da biosfera e reconhece que temos a responsabilidade de deixar o mundo vivo num estado melhor do que o encontramos.”

    Para isso precisamos criar empresas cuja atividade central ajude a restabelecer os ciclos naturais e reconhecer que também somos parte do todo. Aprender a não só deixar de emitir, mas capturar o carbono e armazená-lo nos solos agrícolas, por exemplo, tomando a natureza como modelo.

    Imagem: Livro Economia Donut, Kate Raworth. Zahar. Edição do Kindle.

    Acreditamos que as empresas não mudam da noite para o dia e que não existe um estágio certo ou errado para se estar agora, apesar de considerarmos o estágio 5 o ideal para a transformação que desejamos promover. 

    Por outro lado, Kate Raworth diz que não há necessidade – e nem tempo – de fazer essa transição passo a passo, se já sabemos onde queremos chegar. Ou seja, podemos evoluir de forma não linear, migrando do estágio 1 para o 5.

    Seguimos na crença de que um movimento de transição deve ser iniciado, e o primeiro passo é ter evoluído do estágio 1 e estar preparado para evoluir constantemente.

    “Para onde se vai é tão importante quanto onde se está agora.” 


    Referência das citações do texto: Raworth, Kate. Economia Donut (pp. 232-236). Zahar. Edição do Kindle.