O que a gente precisa é de gente humana, inconformada, corajosa — e disposta a agir
“ESG”, felizmente, chegou ao mainstream. Cada vez mais há recursos para fundos de investimento de impacto. Contornada por diversos conceitos distintos (como Empresas B, capitalismo consciente, capitalismo de stakeholders, negócios de impacto, entre outros), a ideia de que não basta se satisfazer apenas com o lucro e retorno financeiro gerado chegou.
A ideia de que é preciso olhar além – seja mitigando riscos, adotando práticas alinhadas aos aspectos sociais, ambientais e de governança, ou resolvendo desafios sociais e ambientais a partir da sua atividade principal – começou a furar a bolha. Mas, se ela ainda não chegou para você, por que olhar para ela?
Há três vertentes para racionalizar a resposta. A primeira: pela dor, medo de perder, constrangimento de regulamentações e exigências de consumidores, colaboradores e investidores. A segunda: pela conveniência, inteligência, oportunidade em ganhar ainda mais — fundamentada pelos estudos que demonstram o retorno de investimentos sustentáveis superior aos tradicionais. A terceira, pelo amor, pela convicção, pela consciência – que é a que vou explorar aqui, dada que as demais já foram embasadas antes.
Acho que além das argumentações racionais, às quais estamos viciados como sociedade, há um motivo maior e mais simples. Porque faz sentido. Porque é necessário. Porque se não, não estaremos vivos para podermos operar da forma como operávamos antes. A crise ambiental que vivemos é também uma crise social – seja porque nós somos uma das espécies afetadas por ela, seja porque somos a espécie que está causando ela.
Há algum tempo, como professora no MBA da FIAP, fiz com diversas turmas um exercício muito simples — estimulava a pessoa a refletir sobre seus valores pessoais, entender o quanto estavam alinhados às suas práticas diárias no trabalho e então propor novas práticas ou reforçar outras para poder garantir um maior alinhamento. Tendo visto mais de quase 200 respostas ao exercício, fiquei chocada em ver que elas todas iam para caminhos comuns.
Exemplifico: ouvir o cliente e vender algo que lhe fosse de fato útil, sem ter que vender algo que está vinculado à sua meta, mas que sabe que é ruim para o cliente.
Ter mais espaços de escuta com o time e poder compartilhar aprendizados com outros. Poder unir mais o lado pessoal e profissional, sendo mais transparente sobre o que pensa e sente no ambiente de trabalho. E tantas outras, mais ou menos sofisticadas, nessa linha.
Minha reflexão foi de que parecia que a resposta estava apenas em não atrapalhar as pessoas para que elas pudessem expressar seus valores e sua humanidade, o que já traziam naturalmente dentro de si, sem esbarrar em regras e políticas que impedissem isso.
Quando falamos sobre ESG, acho que há (ou deveria haver) essa mesma reflexão por trás. Podemos pensar de uma forma racional sobre o eixo de “diversidade”, mas não há uma abordagem mais natural, orgânica, humana, na qual podemos chegar nesse eixo simplesmente pensando “não parece estranho que alguns grupos de pessoas não consigam alcançar as mesmas oportunidades que chegam a outros, de forma mais equânime?”.
A mesma coisa para a questão ambiental. Podemos olhar para um eixo ambiental a partir de frames, métodos e políticas, mas também podemos chegar a uma ideia de ação refletindo “não parece justo que eu ajude a regenerar o ecossistema do qual estou extraindo água do lençol freático, pensando que a população local não deveria ser prejudicada pela minha empresa?”. Ou mesmo dentro do viés de “se eu posso beneficiar os pequenos fornecedores que atuam na minha cadeia de valor, convertendo isso em fidelização, produtividade ou qualidade do produto, não parece um desperdício não fazer isso?”.
Algumas ideias que às vezes consideramos geniais e fora da caixa são muitas vezes óbvias, apenas não vistas por termos nos viciado tanto a um certo modo de pensar, enxergar, fazer negócios, que ficam escondidas por trás de nossos pontos cegos.
Este é um trecho da coluna de Anna de Souza Aranha, diretora do Quintessa, no Um Só Planeta
ESG e investimentos de impacto têm ganhado espaço nos últimos anos e meses, mas apesar de terem um princípio em comum, é importante esclarecer que são conceitos distintos.
Os dois conceitos partem do mesmo princípio – de que não basta apenas gerar retorno financeiro, mas é preciso considerar o efeito gerado pelo investimento. Ambos estão dentro de uma camada mais ampla de investimentos responsáveis.
Diferenciando os dois conceitos
Os investimentos que levam em conta a análise dos fatores ESG têm um olhar mais focado no “como” a empresa opera, se tem práticas nos aspectos ambiental (E), social (S) e governança (G) que geram impacto positivo ou negativo.
Os investimentos de impacto tem foco no “por que” e “o que” a empresa faz, ou seja, se o seu core business (sua atividade principal) resolve desafios sociais e ambientais.
Enquanto investimentos ESG têm uma abordagem para identificar riscos não-financeiros que podem afetar o valor do ativo, sendo parte de um processo de análise, os investimentos de impacto dizem sobre o tipo de investimento que o(a) gestor(a) está buscando e sua intencionalidade.
Fazendo uma analogia simples: ao fazer um investimento ESG, eu posso aportar recursos em uma empresa que vende um iogurte comum, mas com práticas adequadas em termos sociais, ambientais e de governança – por exemplo, com uma correta destinação dos resíduos da produção e uma justa remuneração dos produtores de sua cadeia produtiva. Ao fazer um investimento de impacto, seria preciso escolher, por exemplo, uma empresa que tem foco em mudar o cenário de subnutrição, com um iogurte reforçado com vitaminas e um preço acessível à população que enfrenta a subnutrição – tendo em seu core business o foco em resolver um desafio social e ambiental.
Podemos dizer que o ESG é um “guarda-chuva” mais amplo.
O investimento com foco em ESG, além do retorno financeiro, busca também, em primeira instância, mitigar riscos ambientais, sociais e de governança para proteger valor, ou ainda, adotar práticas positivas nestes três âmbitos, para aumentar seu valor.
Os investimentos de impacto possuem um foco distinto, pois têm a intenção e o foco em soluções para os desafios sociais e ambientais, por meio das atividades core das empresas investidas.
Fonte da imagem: Aliança pelos Investimentos e Negócios de Impacto – https://aliancapeloimpacto.org.br/
A expectativa de retorno sobre os investimentos de impacto varia bastante de acordo com o perfil dos investidores, e podem ser mais ou menos competitivas, como vemos nos três quadros da imagem acima.
Segundo o relatório ‘Investimento de Impacto na América Latina’, elaborado a cada dois anos pela Aspen Network of Development Entrepreneurs (Ande), dos 28 investidores respondentes, quase metade espera taxas alinhadas às de mercado, enquanto uma parcela menor aceita taxas um pouco inferiores. Os 11 investidores, que respondem por menos de US$ 100 milhões, fazem alocação com intenção de preservar capital.
Fonte da imagem: Aspen Network of Development Entrepreneurs (Ande) – Investimentos de Impacto na América Latina Tendências 2018 & 2019
O que são os investimentos ESG
Os investimentos ESG (ASG, em português) são aqueles que consideram os fatores ambientais, sociais e de governança na análise e no processo de tomada de decisão. Com uma análise mais ampla se comparada à dos investimentos tradicionais, é frequentemente utilizada como uma forma de se melhorar o desempenho financeiro.
Segundo o CFA Institute, cada letra refere-se a:
E – Ambiental (Environmental, em inglês) | Medida da conservação do mundo natural, que inclui os esforços relacionados às mudanças climáticas, emissões de gases de efeito estufa, poluição, biodiversidade, gestão de resíduos e efluentes, etc.
S – Social | Medida da consideração das pessoas e sua relação com a empresa, como satisfação do consumidor, engajamento dos funcionários, diversidade, relação com comunidades, proteção de dados, relações de trabalho, etc.
G – Governança | Medida dos padrões de gestão de uma empresa que tratam da composição do conselho de administração, estrutura dos comitês de auditoria e fiscal, processos para evitar corrupção, ouvidoria, etc.
O termo foi cunhado em 2005, no Estudo chamado “Quem se importa vence.” realizado pelo Pacto Global.
O ESG não é um produto ou classe de ativos, é um critério de análise e um novo olhar na decisão por um investimento.
Existe a separação em investimentos que são “mitigadores de risco”, impactando a análise e diligência na decisão de investimento, e outros que são focados em “oportunidades positivas”, buscando proativamente o progresso dentro dos três pilares.
Cada vez mais há dados que mostram que os investimentos focados em oportunidades de progresso são mais rentáveis a longo prazo, por correlações, por exemplo, entre a busca da redução das emissões de carbono e a redução de custos com energia, entre uma maior diversidade entre o time e uma maior produtividade, retenção e engajamento deste time, e mesmo entre uma maior geração de valor e fidelização dos clientes.
Cada vez mais vemos grandes empresas emitindo dívidas vinculadas a metas de descarbonização, com a identificação como ESG. São exemplos as captações da Sicredi e da Fazenda da Toca, e mesmo fundos que se identificam desta maneira, como o da Plural Asset. Ao mesmo tempo, é comum a discussão sobre a adequação ou não dessa identificação, como o caso da dívida emitida pela Via, o que convoca ao cuidado neste tipo de análise.
O que são os investimentos de impacto
Os investimentos de impacto são aqueles que têm a intencionalidade clara de gerar impacto social e/ou ambiental de forma mensurável, além do retorno financeiro (GIIN – Global Impact Investors Network).
O termo surgiu em 2010, no relatório do JP Morgan “Impact Investments: an emergent asset class”, que incluiu a lente dos impactos sociais e ambientais positivos além do retorno financeiro.
Os investimentos de impacto são então os investimentos feitos em negócios e soluções empreendedoras com intencionalidade clara de resolver um desafio social ou ambiental, como a melhoria da educação, acesso à saúde, gestão de resíduos, fontes de energia renovável, entre outros, ao mesmo tempo que geram retorno financeiro – os chamados negócios de impacto.
Os 17 Objetivos do Desenvolvimento Sustentável (ODS), os quais estão por trás da Agenda 2030, são comumente usados como base para fundamentação sobre a relevância do desafio que se busca superar.
No conceito sistematizado pela Aliança pelos Investimentos e Negócios de Impacto, negócios de impacto são “empreendimentos que endereçam problemas socioambientais por meio de sua atividade principal e atuam de acordo com a lógica de mercado, com um modelo de negócio que busca retorno financeiro” e possuem essas quatro características principais:
– Intencionalidade de resolução de um problema social e/ou ambiental;
– Solução de impacto é a atividade principal do negócio;
– Busca de retorno financeiro, operando pela lógica de mercado;
– Compromisso com monitoramento do impacto gerado.
Pelo foco explícito na geração de impacto, muitas vezes os investidores se distanciam desses negócios por enxergá-los próximos ao terceiro setor e ações de filantropia. O que diferencia os negócios de impacto das ONGs é a busca de retorno financeiro e a geração de impacto atrelada à geração de receita pela venda de produtos e serviços, além da possibilidade de poderem distribuir dividendos, o que os torna capazes de oferecer retorno aos investidores com os mesmos parâmetros de mercado de startups tradicionais, por exemplo.
Qual o cenário dos investimentos de impacto no Brasil?
O GUIA 2.5, realizado pelo Quintessa, já mapeou 19 iniciativas de investimento em negócios de impacto no ecossistema brasileiro. Além das iniciativas que trabalham com a modalidade de investimento de risco (Venture Capital), temos também iniciativas de empréstimos com foco em impacto.
Fonte: guiadoisemeio.com.br
As organizações de desenvolvimento dos negócios, como aceleradoras e incubadoras, têm papel fundamental para desenvolver e preparar os negócios para crescer e estarem maduros para receber os investimentos de risco, qualificando esse pipeline.
Por outro lado, a participação da sociedade e a decisão “mais consciente” de onde alocar os seus recursos também está crescendo. Não é mais novidade a mudança na tomada de consciência das pessoas, especialmente as novas gerações, sobre as questões sociais e ambientais. Não só em busca de incentivar e consumir de empresas ‘responsáveis’, existe um crescente interesse em alinhar também seus investimentos a seus valores pessoais.
Em uma pesquisa de 2014, somente 47% das pessoas acima de 69 anos acreditavam que é possível obter retornos financeiros ao investir em negócios de impacto. Já para os millennials, esse número salta para 73% (US Trust Insights on Wealth and Worth, 2014).
O mercado já tem se movimentado para atender esse público, como a notícia recente da Fama Investimentos, que reduziu a aplicação mínima no fundo de ESG para mil reais. Segundo a gestora, a tese dialoga com o público mais jovem, com menor poder aquisitivo, mas que tem buscado esse alinhamento. Outro exemplo é a frente de empréstimo coletivo da Sitawi, com tíquetes iniciais acessíveis.
Temos observado o mesmo interesse por parte dos family offices. Existe cada vez mais o desejo de se alinhar e aplicar os valores da família nas suas decisões de investimento, deixando um legado mais consistente de seus recursos.
Para trazer uma ordem de grandeza, segundo o JP Morgan, os investimentos ESG ultrapassaram US$ 45 trilhões em 2020 (90% na Europa e Estados Unidos), enquanto isso, o relatório de 2019 da GIIN estimou que o mercado de investimentos de impacto está em US$ 502 bilhões. Debates e visões do mercado também são animadoras e otimistas quanto ao potencial de rentabilidade dos investimentos ESG e de impacto.
A tendência é de cada vez mais crescimento, visibilidade e capital para a solução dos nossos maiores desafios sociais e ambientais. Visto por muitos como a “nova moda”, nós acreditamos que ela não é passageira, e que no futuro próximo, o que é visto hoje como ‘investimento tradicional’ será visto como exceção.
Assim, é importante que você esteja preparado(a) para identificar, analisar e investir nestes diferentes tipos de investimento, os quais vemos como complementares.
Não é de hoje a percepção e o alerta de que os modelos econômico, industrial e empresarial estão pressionando os limites sustentáveis do planeta. Há um movimento de muitas empresas e indivíduos em busca de alternativas e ações para reduzir o seu impacto negativo e gerar impacto positivo.
São diversos modelos, agendas e pensamentos propostos para apoiar as empresas e toda a sociedade nessas ações, por exemplo a Agenda 2030 e os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável.
Um dos modelos propostos para gerar transformação sistêmica envolvendo os diferentes setores rumo a um futuro sustentável é a Economia Donut. Criado pela economista inglesa Kate Raworth, o Donut propõe uma nova lógica para pensar a economia, que leva em conta a dignidade humana e os limites ecológicos do planeta.
Na Economia Donut, o espaço seguro e justo para a humanidade deve se manter dentro da “rosquinha”, por isso o nome Donut. Indicadores abaixo disso mostram uma privação humana em áreas como educação, água, energia, igualdade de gênero (baseadas nos ODS), e quando os indicadores ultrapassam a parte exterior do Donut, significa que aquele país ou cidade avaliado estaria ultrapassando o teto ecológico que o planeta pode sustentar.
Qual o papel das empresas nessa nova economia?
Segundo a economista, quando as empresas tomam consciência de que precisam fazer parte da solução e adotar práticas mais sustentáveis, podem apresentar diferentes tipos de comportamento.
Ela apresentou o conceito para diversos líderes empresariais e recebeu respostas distintas sobre o que cada uma das empresas estaria fazendo para preservar o planeta e gerar desenvolvimento humano.
Kate entendeu que a variedade de respostas demonstra que empresas estão em diferentes momentos nessa transição de um modelo degenerativo para uma concepção regenerativa, e dividiu em 5 estágios, os quais chamou de “Lista de Tarefas das Corporações”:
Não fazer nada
Fazer o que compensa
Fazer a parte que nos cabe
Não provocar danos
Ser generoso e regenerativo
1. Não fazer nada
Essa é a mais velha e simples resposta.
“Por que mudar o nosso modelo de negócios, raciocinam eles, quando ele vem dando forte retorno? Nossa responsabilidade é maximizar os lucros, de modo que, enquanto não forem introduzidos impostos ou cotas ambientais para alterar os incentivos que temos pela frente, continuaremos assim. O que estamos fazendo é (na maior parte) legal, e, se formos multados, tendemos a considerar isso um custo operacional.”
Durante muito tempo essa foi a postura que prevaleceu, tratando a sustentabilidade como um custo.
Porém, não há mais tempo para pensar assim. Por exemplo, as mudanças climáticas já estão afetando os negócios. Empresas que dependem, por exemplo, de fornecedores agrícolas para fabricar roupas, alimentos, vinhos, refrigerantes ou cervejas, começam a perceber (inclusive no bolso) a consequência que o aumento da temperatura global está causando nas cadeias de abastecimento de seus produtos.
Grande parte das empresas já reconhece que ‘não fazer nada’ deixou de ser uma estratégia inteligente e a resposta do estágio 2 se tornou mais comum.
O segundo estágio diz respeito a adotar medidas ecoeficientes que reduzam custos ou promovam a marca. Por exemplo, a redução da utilização de água e energia na indústria são algumas medidas que tendem a reduzir custos.
Em outras palavras, a empresa começa a contribuir com soluções, mas em uma abordagem utilitarista.
“A Volkswagen ganhou notoriedade em 2015, quando se descobriu que havia introduzido deliberadamente uma modificação no software do sistema de injeção eletrônica de milhões de seus carros a diesel de forma a programar seus motores para funcionar no modo de baixa emissão de poluentes durante os testes regulatórios, reduzindo de maneira significativa os índices de emissões de óxido de nitrogênio e dióxido de carbono.”
Nesse estágio, segundo a autora, também se encaixam os “produtos verdes”, cujo objetivo está na promoção da marca e diferenciação da concorrência, enquanto os demais produtos “não-verdes” continuam nas prateleiras normalmente.
Em muitos casos, as empresas oferecem esses produtos a preços mais altos e transferem a responsabilidade para o consumidor – em estar ou não “disposto” a comprar os produtos mais ecológicos.
A criação de alternativas mais sustentáveis é um começo, mas está longe de ser o que é realmente necessário. Isso quando os produtos são de fato mais sustentáveis e não somente uma ação de greenwashing, o que renderia um texto à parte.
3. Fazer a parte que nos cabe
Esse estágio começa a entrar em um maior nível de profundidade e diz respeito à fazer sua parte no que se refere à mudança para a sustentabilidade. As empresas que estão com essa abordagem reconhecem a escala da mudança necessária, por exemplo, com a redução total das emissões de gases do efeito estufa ou no uso de fertilizantes. Porém, apesar de reconhecer, têm uma abordagem de se responsabilizar apenas pela sua parte, não pelo todo.
A autora traz o exemplo de um banco da África do Sul que se comprometeu a destinar “a parte que lhe cabia” de financiamento, cerca de 400 milhões de dólares por ano, para investimentos em iniciativas sociais e ambientais do país, provendo energia acessível e renovável, água e saneamento para a população. É uma iniciativa incrível, mas precisamos saber o que o restante do dinheiro do banco está financiando – se é, por exemplo, a indústria de combustíveis fósseis.
“…como bem sabe qualquer um que já tenha ficado com a conta do restaurante na mão depois de todos já terem contribuído com as respectivas partes, a conta quase nunca bate. Quando somos nós mesmos que determinamos o que nos cabe fazer, nunca conseguimos fazer nada – como demonstraram governos no mundo todo com seus compromissos tristemente inadequados, determinados em nível nacional, de cortar as emissões de gases do efeito estufa.”
Essa é uma visão complexa, mas o que a autora quer dizer é que muitas vezes a mentalidade de “fazer a nossa parte” pode levar a querermos “ficar com a nossa parte”.
Explico: ao determinar os limites que o planeta pode sustentar, as empresas passam a enxergar como um bolo a ser distribuído. Se é possível emitir X toneladas de CO2, vou pegar a minha fatia. Mas qual é de fato o tamanho dela? Quanta água dos lençóis freáticos cada empresa pode utilizar?
Essa ideia de que cada um fica com a sua parte pode levar a visão de que estamos competindo pelo “direito de poluir”. E sabemos que nós, seres humanos, quando disputamos recursos limitados, podemos ter a tendência a brigar por espaço, fazer lobby, mudar as regras do jogo e, nesse processo, corremos o risco de ultrapassar os limites.
4. Não provocar danos
O quarto comportamento das empresas traz uma mudança de perspectiva: não provocar danos, também conhecido como “missão zero”. Esse estágio diz respeito a conceber produtos, serviços, construções e negócios que tenham como objetivo um impacto ambiental zero.
Um exemplo é a fábrica de laticínios da Nestlé no México, que tem um consumo zero de água. Toda a água que ela precisa para abastecer a indústria é suprida ao condensar o vapor produzido pelo leite.
Os casos de água e energia são mais comuns, mas seria ainda maior se fosse o objetivo em todos os recursos operacionais das empresas. A missão zero demonstra um sinal de que podemos ter alta eficiência na utilização de recursos.
Porém, uma reflexão interessante nesse caso é pensar na frase do arquiteto William McDonough, que “ser menos ruim não é ser bom, é ser ruim, só que menos”.
“Perseguir a missão zero é uma visão estranha para uma Revolução Industrial, como se parasse intencionalmente no limiar de algo muito mais transformador. Afinal, se a sua fábrica consegue produzir toda a energia e água limpa que utiliza, por que não checar se poderia produzir mais? Se consegue eliminar todos os materiais tóxicos do seu processo de produção, por que não introduzir no seu lugar materiais que melhorem a saúde?”
É claro que não são questões simples, mas no lugar de “fazer menos mal”, as empresas podem ter como objetivo “fazer mais bem”, reabastecendo o planeta no lugar de degenerá-lo de forma mais lenta., o que nos leva ao estágio 5.
5. Ser generoso e regenerativo
“Por que apenas não pegar nada quando é possível também dar alguma coisa?”
É dessa pergunta que surge o último estágio da transição: ser generoso e criar um empreendimento regenerativo por concepção.
“Mais do que uma ação numa lista de coisas a fazer, trata-se de uma forma de estar no mundo que adota a gestão da biosfera e reconhece que temos a responsabilidade de deixar o mundo vivo num estado melhor do que o encontramos.”
Para isso precisamos criar empresas cuja atividade central ajude a restabelecer os ciclos naturais e reconhecer que também somos parte do todo. Aprender a não só deixar de emitir, mas capturar o carbono e armazená-lo nos solos agrícolas, por exemplo, tomando a natureza como modelo.
Imagem: Livro Economia Donut, Kate Raworth. Zahar. Edição do Kindle.
Acreditamos que as empresas não mudam da noite para o dia e que não existe um estágio certo ou errado para se estar agora, apesar de considerarmos o estágio 5 o ideal para a transformação que desejamos promover.
Por outro lado, Kate Raworth diz que não há necessidade – e nem tempo – de fazer essa transição passo a passo, se já sabemos onde queremos chegar. Ou seja, podemos evoluir de forma não linear, migrando do estágio 1 para o 5.
Seguimos na crença de que um movimento de transição deve ser iniciado, e o primeiro passo é ter evoluído do estágio 1 e estar preparado para evoluir constantemente.
“Para onde se vai é tão importante quanto onde se está agora.”
Referência das citações do texto: Raworth, Kate. Economia Donut (pp. 232-236). Zahar. Edição do Kindle.
Costumamos dizer que um dos inúmeros desafios de empreender é saber equilibrar as ações de curto prazo e a visão de longo prazo. Por conta da urgência das tarefas, no dia a dia é comum que os empreendedores priorizem os resultados de curto prazo, e por isso ter um planejamento estratégico é tão importante.
Este é um tema central no Quintessa em todos os programas de Aceleração que realizamos com negócios de impacto, e temos uma categoria aqui no blog com diversos conteúdos sobre Planejamento Estratégico.
Este texto reúne as principais falas do Webinar “Planejamento Estratégico para Impulsionar o Crescimento – O que aprendemos com o case da Acordo Certo”, que você também pode assistir na íntegra abaixo:
Participaram deste webinar: Eduardo Gouveia, mentor do Quintessa, investidor e conselheiro de startups, Fabiana Goulart, gestora do Quintessa e Dilson Sá, fundador e CEO da Acordo Certo. A fintech que desenvolveu uma tecnologia proprietária para melhorar a recuperação de crédito de consumidores inadimplentes chegou, em 2020, a 1 milhão de dívidas negociadas, triplicou o seu time e foi adquirida pela Boa Vista, uma das maiores empresas de recuperação de crédito.
Um bom planejamento estratégico tem 2 principais objetivos: é uma forma da empresa conseguir pensar no longo prazo e entender o que é prioridade; e é também uma forma de garantir esse alinhamento com todo o time, de que todos estejam seguindo na mesma direção.
Nos programas de aceleração do Quintessa, primeiro fazemos um diagnóstico para entender como a empresa está organizada nas suas frentes de gestão: analisamos o financeiro, gestão de pessoas, máquina de vendas, etc.
Quando entramos na Acordo Certo, nos deparamos com uma startup com um potencial gigantesco, que estava crescendo em um ritmo expressivo. De um mês para o outro o número de lideranças tinha dobrado, e muitas responsabilidades e mudanças estavam acontecendo.
Sabemos que uma premissa de sucesso para qualquer startup é atrair talentos-chave, e a Acordo Certo estava fazendo isso com muita facilidade. No entanto, contratar gente boa significa contratar gente com opinião própria, e nesse contexto de rápido crescimento, ficou muito nítida a necessidade de trazer mais robustez para o planejamento estratégico, garantindo que todos estavam caminhando para um mesmo norte.
Fizemos uma revisão de propósito, e utilizamos o OKR para delimitar quais seriam os objetivos para o próximo ciclo que nos aproximariam dessa visão.
A maioria dos empreendedores têm a impressão que planejamento estratégico é coisa de empresa grande. Afinal, essa impressão é correta? Empresas em estágio inicial não necessitam de um bom planejamento? O que muda para empresas em estágio inicial?
Eduardo Gouveia: Planejamento estratégico é sobre definir rumos e caminhos e alinhar todo mundo. Independente do tamanho e porte da empresa, você precisa ter norte, visão, missão e fazer todo mundo apontar para o mesmo lugar. Conforme a empresa vai crescendo, isso fica mais difícil e este “norte” vai se fragmentando.
Existem diferentes formas de fazer, e o principal benefício é olhar o longo prazo e direcionar todos para o mesmo caminho. Isso não significa que é uma rota fixa, é um apontamento e um olhar para onde você deve ir, e é normal que mude ao longo do tempo conforme o crescimento, e você vai fazendo revisões. Não importa o tamanho da empresa.
Já fiz planos em grandes empresas que deram errado. Além disso, muitas empresas grandes contratam uma consultoria que entrega um book de 150 páginas e fica guardado, nunca mais se olha. Isso não é fazer um planejamento estratégico.
Ter uma visão de longo prazo e entregar resultados no curto prazo é um desafio enorme. Mas o mais importante não é chegar, é ter a jornada definida e caminhar por ela. Importa que você olhe, entenda, alinhe com toda a liderança, comece a contratar pessoas com skills corretos, com base no que foi definido e realmente juntar todo mundo para caminhar nessa visão.
Um ponto importante do planejamento é que dá um reforço na cultura. Fazer junto com as pessoas, definindo símbolos e processos para seguir em frente. Hoje participo de boards de empresas grandes e sou investidor anjo em 8 startups, e a função da revisão estratégica é importante nas duas esferas, de 20 a 6000 pessoas. A essência que é o importante.
Dilson, antes da Acordo Certo, você já havia participado da criação de diversos outros empreendimentos. O que mudou, para você como empreendedor, ter um tempo dedicado para falar sobre estratégia e visão de futuro da empresa?
Dilson: Aqui na Acordo Certo desde o início montamos uma tese para o negócio e tínhamos uma estratégia muito bem definida na cabeça. A diferença do que a gente tinha lá no começo para o que foi feito com o Quintessa, foi em relação ao tamanho.
Antes era muito mais fácil comunicar o que a gente queria fazer, estávamos em 8/10 pessoas. Então o poder de decisão estava muito na minha mão e dos meus sócios, sem outros líderes tomando decisões. Quando você traz pessoas boas, traz essas pessoas para tomarem boas decisões, mas pode ser que estejam desalinhadas com a estratégia definida.
Estratégia também é saber falar não. Muitas oportunidades aparecem, e é onde acontecem os trade offs que você vai buscar no curto prazo e acaba perdendo a visão do longo prazo. Tivemos a experiência de saber falar os nãos, mas naquela época era muito mais fácil de fazer isso.
A gente se preocupou desde o começo em já criar o conceito de missão, visão e valores para criar nossa cultura desde pequenos, e começamos a execução. Tínhamos uma estratégia mas longe do formato que é agora. Depois que a empresa cresceu, a forma de comunicar e engajar todo mundo mudou de figura. Esse foi o caminho que seguimos e tivemos a sorte de ter o Quintessa nesse caminho para entender a forma de colocar no papel e comunicar para a empresa inteira.
Gouveia: Eu gosto do termo revisão estratégica, e não planejamento, porque muda e você vai revisando ela rapidamente. É um exercício de alocação de recursos: se eu tenho um recurso limitado, uma série de projetos e caminhos, preciso analisar onde colocar e não colocar dinheiro. A revisão estratégica tem que vir junto com a alocação de recursos. Tem que ter muita sabedoria em saber o que não vai fazer e ser fiel a isso.
A Acordo Certo já possuia missão, visão e valores todos definidos, mas o Gouveia investiu tempo para convencer o Dilson do quão importante seria revisitar. Por que isso?
Gouveia: Para realinhar todo mundo. A Acordo Certo é uma empresa linda, sou apaixonado pelo propósito da empresa, que é restaurar a auto estima e o poder de compra de uma pessoa, estando sempre do lado do mais fraco em uma negociação de dívida. Ela tem um propósito muito forte como essência. Isso é algo que precisava ser preservado com o crescimento da empresa.
Não foi complicado convencer o Dilson, ele rapidamente entendeu que era importante. Não foi um processo estrutural, pois já estava muito bem montado desde o nascedouro da Acordo Certo. A essência, o propósito e o porquê da companhia vêm da origem. A intenção foi: vamos parar e revisitar tudo isso pra ver se daqui pra frente continuamos com o que foi construído até agora.
Não necessariamente o que te leva até onde você está é o que vai te levar para onde você quer ir agora.
Tem uma função super importante que é alinhamento e comunicação. Quando a empresa vai crescendo, vai se fragmentando e trazendo pessoas com experiências diferentes. Então a revisão é uma forma de unir todo mundo. A principal consequência do trabalho foi juntar as pessoas e dizer: daqui a gente parte de novo.
Daqui a pouco teremos que sentar novamente, a empresa está crescendo mais e pode ter que se reconfigurar novamente pelo movimento de mercado [a Acordo Certo foi adquirida pela Boa Vista]. Então precisaremos refletir: “a essência é essa e os valores são esses, tudo o que definimos 2 anos atrás está valendo ainda para onde queremos chegar?” Junta todo mundo, envolve, comunica, engaja e segue.
Os empreendedores entenderam claramente a importância de parar e revisar. O Quintessa teve um papel essencial de organizar, aglutinar, com uma metodologia e a Fabiana como gestora coordenando o trabalho, e foi um trabalho feito a várias mãos. Eu reputo como um dos grandes trabalhos que fiz de planejamento estratégico. Um momento muito mágico foi a divulgação, ao ver o senso de pertencimento e orgulho do time inteiro.
Dilson: O que foi muito bacana na revisão é que quando você traz todo mundo pra reconstruir, você traz o senso de pertencimento: estamos construindo juntos. É diferente de criar alguma coisa e comunicar, mas sim a liderança participar e sentir que está construindo. Isso muda o jogo e as pessoas se engajam muito mais, inclusive a forma com que a liderança passa para o time é diferente.
Como foi compartilhar com o time, que tipo de sensação isso causou nas pessoas? E como isso reverberou no negócio?
Dilson: Já tínhamos desenhado os principais objetivos e o Gouveia trouxe a ideia de transformar isso em símbolos. O time de marketing pensou nesses símbolos e preparou uma experiência, entregando uma caixa na casa de todas as pessoas, para abrir somente no momento do lançamento, gerando certo suspense, chamamos de Unboxing do Futuro. Compramos um voucher no iFood para cada um dos colaboradores comprar uma cerveja e celebrar. Um dos símbolos para cada KR do OKR. Foi demais ver a reação das pessoas olhando os símbolos, que são coisas que vão usar no dia a dia: camisa, carteira, adesivos, para poder amarrar a estratégia com o dia a dia a partir da divulgação. Reverberou muito bem, todo mundo ficou super engajado.
Ao final tínhamos de uma forma lúdica e leve toda a cultura, o plano, a revisão estratégica e OKRs definidos.
Como manter esse planejamento estratégico vivo? Quais são os ritos importantes para manter o planejamento estratégico vivo e o chapéu de longo prazo ali presente no dia a dia?
Dilson: Tem que ter muita disciplina, que tem que vir da liderança.
Olhando para o processo, depois de criar toda a estratégia, tínhamos que criar os mecanismos para acompanhar o que estava acontecendo e a liderança conseguir cascatear para o time. O modelo que o Quintessa criou para dividir as metas em dois semestres foi muito bom. Estamos nessa fase agora de acompanhamento, temos uma bússola com todas as metas bem definidas, bem amarradas com os objetivos principais. Ao longo do caminho vamos pilotando com o que talvez tenha que tirar porque faltou recurso.
Estamos com um roadmap super bem definido e a liderança está alinhada. Mesmo com tudo isso temos uma série de desafios, porque saímos de 30 para 100 pessoas no meio da pandemia, com todo mundo trabalhando 100% remoto. Imaginem a dificuldade de comunicar e manter o engajamento… Não sei o que seria da gente se não tivéssemos feito isso. Dá bastante trabalho, o segredo é ser disciplinado e acompanhar o que foi desenhado.
Gouveia, a partir da sua visão como investidor-anjo, como um bom planejamento estratégico dialoga com a segurança na hora de alocar o recurso?
Gouveia: Quando a startup já tem um plano definido é muito mais fácil, porque você já consegue ter uma conversa mais estratégica, de longo prazo. Geralmente não se tem.
É fundamental olhar para o time e saber se eles têm brilho no olho e vontade de empreender. Isso é muito perceptível. Tem que ter muita vontade para empreender, trabalhar muito e ser muito dedicado. Quando você tem um time com vontade, uma boa dor para resolver, um bom propósito e execução bem feita, junto com um norte estratégico, começo a olhar com muito carinho esse negócio.
Com um planejamento montado e uma direção certa, ajuda muito a ter uma discussão de negócio.
Perguntas finais:
Houve alguma estratégia definida para atrair os talentos certos para a Acordo Certo?
Dilson: Sim. Isso é uma das coisas com a qual me preocupei desde o princípio. Eu trabalhei bastante em banco e ambiente corporativo, nunca havia sido CEO. Eu participava da operação mas não tomava decisões. Quando assumi a Acordo Certo, estava acostumado com uma cultura competitiva, um ambiente ruim, e queria que aqui fosse diferente. Que as pessoas acordem de manhã felizes por estarem em um ambiente incrível, colaborativo e por um propósito. Então comecei a criar essa cultura. Depois, nos preocupamos em dar um pouco de conforto, ter um escritório bacana, com cara de startup, temos videogame, cervejeiras, coisas que ajudam a atrair os talentos.
Mas o ponto principal e o mais importante na minha opinião, foi ter criado o nosso processo de atração de talentos. Criamos através de uma dinâmica o arquétipo ideal que queremos ter aqui dentro: quem é o profissional que queremos, independente dos hard skills e do conhecimento técnico, mas o que ele pode trazer como pessoa pra dentro da empresa.
O processo começa no hunting, as pessoas que nos ajudam a buscar os profissionais já olham pra esse arquétipo. O gestor faz uma avaliação técnica e trazemos pessoas de outra área para uma entrevista final e entender se o candidato está no arquétipo, e também se a Acordo Certo é o lugar para ele estar, abrindo para perguntas. Com isso conseguimos ser assertivos, nosso turnover é baixo e temos tido sucesso.
Qual foi o tempo de dedicação do CEO para o planejamento estratégico?
Não sei quantificar em horas mas foi bem intenso. O processo inicial levou 2 meses, foram várias reuniões e depois da construção muitas reuniões para poder colocar a disciplina em prática. No total foram cerca de 5 meses e tive que me dedicar bastante.
Quais as dicas para quem for fazer o planejamento estratégico ou OKR pela primeira vez?
Gouveia: Eu acho que ter a decisão de fazer, olhar e sentar já é uma grande decisão. Ter uma metodologia é fundamental para não se perder no processo.
A atuação do(a) CEO também é fundamental. É uma coisa que mexe com a empresa inteira e tem que ser, de cima para baixo. A participação massiva do grupo também é fundamental para ter o senso de pertencimento: aquele trabalho é nosso, não foi alguém que fez e trouxe.
Eu resumiria em ter uma metodologia, com envolvimento das pessoas, comunicação aberta e com atenção genuína para o processo. O Dilson teve isso como prioridade na agenda dele.
Quais os indicadores fizeram mais sentido no início da jornada da Acordo Certo?
No começo foi importante pegar poucos indicadores e deixar isso como uma gestão a vista, pra todo mundo ver o que está acontecendo. Medimos 5, sendo eles a receita e os indicadores do nosso funil de conversão – quantas pessoas estamos atraindo para o site, nº de cadastros, acordos fechados e pagamentos feitos. Criamos um dashboard e deixamos em tempo real nas TVs da empresa, o time ficou engajado com a evolução.
Como é feita a gestão do planejamento: qual a frequência de reuniões e quais participantes?
Tenho reuniões semanais com a liderança – 9 líderes – em que abordo quinzenalmente o tema dos KPIs que temos que atingir de forma individual. Mensalmente temos uma reunião relacionada aos KRs, envolvendo todas as lideranças responsáveis por aqueles resultados.
Em algum momento do planejamento estratégico a atuação das áreas teve que ser revista?
Dilson: Não a atuação em si, mas como elas interagem. Com o crescimento da empresa e o home-office, acabamos criando silos, em que cada área olha somente para o seu quadrado. Foi importante criar times multidisciplinares para atuarem juntos em projetos e acabar com o conceito de áreas.
Gouveia: A empresa vai crescendo e as estruturas hierárquicas vão acontecendo. As culturas locais de cada área vão surgindo e é importante o papel da liderança nesse processo, que é juntar todos com rituais e fazer equipes multi áreas com metas compartilhadas, direcionando todos para o mesmo lugar. É preciso garantir que a cultura seja preservada. O(a) CEO deveria mudar de título para: presidente da cultura, em que o papel deveria ser 90% cuidar da visão, do longo prazo, propósito e pessoas.
Como a empresa se articula num ambiente de recessão econômica? Como o OKR se aplica nesse caso?
Dilson: Nós temos as métricas de OKR que são básicas, por exemplo este ano a meta de conversão despencou (dos acordos feitos, quantos foram pagos). O OKR é fundamental para sabermos o que está acontecendo no cenário, ele nos mostra isso e a partir daí precisamos começar a traçar outras estratégias.
O OKR dá uma meta, mas também dá flexibilidade e autonomia para os times irem corrigindo as rotas. Se o caminho tradicional não está gerando essa conversão esperada, podemos explorar outros caminhos. Ele garante que todo mundo que tem responsabilidade sobre aquele objetivo está reunido e com responsabilidade para revisar, conversar e propor outras maneiras de chegar naquelas metas definidas.
O Braskem Labs é um case de sucesso que tangibiliza a visão de que é possível unir inovação aberta e novos negócios com sustentabilidade e impacto positivo. O programa de inovação aberta da Braskem está na sua sétima edição e faz parte da estratégia de Desenvolvimento Sustentável da empresa, se relacionando e fazendo negócios com startups que geram impacto positivo por meio da química e/ou do plástico.
O Quintessa é parceiro da Braskem desde 2019 na realização do programa. Neste material, compartilhamos a estrutura, os aprendizados e os resultados que fazem do Braskem Labs uma das referências em iniciativas de inovação aberta e impacto positivo. Faça download do material abaixo.
Conduzir a seleção de negócios e empreendedores aqui no Quintessa me fez perceber que muito se fala sobre a jornada de validação de um negócio, mas pouco se fala sobre o que faz um negócio estar ou não validado no mercado. Em que momento você está preparado para simplesmente replicar o que está fazendo para ganhar tração comercial e quando é a hora de dar alguns passos para trás e rever premissas que já estavam dadas como verdades absolutas?
Viver o período de validação é uma das tarefas menos triviais da jornada empreendedora. É um processo tortuoso, de muitas idas e vindas e que exige uma lucidez dos empreendedores que, muitas vezes, é ofuscada pela paixão pela solução perfeita.
Quero começar falando sobre isso: o bom e velho clichê “paixão pelo problema e não pela solução”.
Aqui na área de seleção de negócios é comum eu me deparar com empreendedores que confundem a falta de clareza das premissas do modelo de negócio com gargalos comerciais. Explico: em algumas conversas que fiz por aqui, o(a) empreendedor(a) dizia que o problema estava em crescer vendas mas, na verdade, o desafio era anterior.
Não existia clareza de questões básicas do modelo como a dor a ser atendida ou mesmo segmentação de mercado e, portanto, a solução não endereçava uma proposta de valor relevante e, consequentemente, não era comercializada. É essencial praticar uma escuta atenta às necessidades do cliente e estar conectado a elas. É dali que vão sair as respostas para muitas perguntas que estão na mesa.
Não existe demérito nenhum em estar vivendo uma etapa de validação. Pelo contrário: processos de validação negligenciados podem surtir efeitos a longo prazo no negócio. Algumas dessas consequências podem passar por furos na modelagem financeira, erros na priorização de desenvolvimento de produto e, até mesmo, entraves em captações de investimento.
E eu tenho certeza que você não quer experimentar os voos de galinha, subindo e descendo muito rápido, sem linearidade e consistência no longo prazo.
Quantos “sim” você recebeu?
Elogios, convites para entrevistas, palestras e tapinha nas costas não pagam as contas do negócio. Enquanto a solução não começar a ser monetizada, não dá para dizer que ela foi validada. Talvez você tenha validado a intenção do seu cliente pagar por ela. Mas entre a intenção e o “colocar a mão no bolso” existe um abismo que muitas vezes os empreendedores se esquecem.
Aproveite os momentos de escuta para fazer algumas vendas investigativas. Depois de conversar com 10 ou 15 clientes correspondentes a uma mesma segmentação, provavelmente você já vai começar a notar alguns padrões nas respostas que ajudam a firmar as premissas do seu modelo de negócio, como por exemplo, a compreensão da problemática, configuração da solução, modelagem de cobrança e parceiros chave para viabilizar tudo isso. A pergunta que eu faço é: quantos (potenciais) clientes já disseram “sim” para essas suas premissas?
Cuidado com as perdas de tempo disfarçadas de oportunidade
Saber dizer “não” é uma das etapas da validação também. Já conheci negócios com faturamento na casa dos 6 dígitos que chegaram nesse patamar vendendo vários contratos pontuais, atendendo a demandas muito específicas e pouco replicáveis. Caso os contratos fossem rompidos e eles precisassem buscar novos clientes, não existiria um foco explícito, dado que atendiam a demandas muito diferentes.
Se deparar com clientes que trazem demandas específicas é comum durante o processo de validação. É importante ter frieza para entender se essa é uma demanda muito particular desse cliente ou se é uma demanda comum no mercado que vale a pena ser endereçada, uma vez que outros clientes pagarão por ela.
Atender a demandas pontuais é perigoso e custa caro para os empreendedores. Focar em uma demanda que não é replicável em outros potenciais clientes significa dissipar energia e conhecimento, aspectos preciosos para quem poderia estar focando naquilo que, de fato, trará sustentabilidade para o negócio a longo prazo.
O faturamento pode dizer alguma coisa
Nesses últimos anos analisando os negócios de impacto, comecei a perceber que existem alguns padrões de faturamento que trazem bons indícios do estágio de validação de um negócio.
Empresas com faturamento de até ~R$500k/ano geralmente estão vivendo dilemas de modelo de negócio. Perguntas que costumam estar na mesa são: qual a persona para qual eu vendo? Por qual porta de entrada devo entrar no meu cliente? Qual bolso dentro do meu cliente vai pagar pela minha solução (ex.: MKT? Tecnologia? RH?)? Como eu gero diferencial competitivo perante meus concorrentes e demonstro isso de forma clara na minha proposta de valor?
Empresas com faturamento entre ~R$500k/ano e ~R$1Mi/ano já começam a viver dilemas da validação comercial. Ou seja, são negócios que já entenderam suas as premissas básicas e agora o desafio é empacotar tudo isso em uma máquina de vendas que gere cadência comercial. Perguntas comuns nesta etapa são: qual o meu ciclo comercial? Quais os canais de aquisição de cliente? Como desenhar o meu funil? Quais as métricas de conversão? Qual o tempo médio de aquisição de clientes? Está dentro do tempo médio do mercado?
Mas, antes de seguir, um disclaimer: sempre tomo muito cuidado para não generalizar. Cada mercado exige uma dinâmica diferente de validação. Sabemos que, por exemplo, o mercado de saúde requer que a v1 da solução já chegue mais pronta, com menos cara de MVP, dado que estamos falando de monitoramento de vidas e isso implica em um risco a ser gerenciado para quem vende e para quem contrata. No mercado de educação, para quem vende para escolas, sabemos que existe sazonalidade e que isso torna o ciclo de vendas mais longo. Enfim, nem sempre esse padrão se aplica a todos.
O equilíbrio entre o que o mercado quer e a visão de futuro dos sócios
Nem sempre o que o mercado quer está alinhado com as motivações dos empreendedores a longo prazo.
Uma história para ilustrar. Há algum tempo conheci uns empreendedores que tinham um negócio voltado para o público baixa renda, mas que, à medida que foram realizando os testes, perceberam que a solução era facilmente substituída por outra que, apesar de ter uma proposta de valor menos completa, era gratuita e não onerava o bolso do cliente. Por outro lado, pessoas de alta renda estavam dispostas a investir naquela solução.
A motivação dos empreendedores estava na possibilidade de entregar um serviço de alta qualidade para um público que, na visão deles, estava desatendido. Migrar a solução para um perfil de cliente que já tem acesso a soluções parecidas no mercado e que a geração de impacto social seria menos relevante não foi um caminho que motivou os fundadores. E foi assim que eles abandonaram o barco.
Um movimento, ao meu ver, admirável e que demonstra 2 pontos muitos importantes: (1) intencionalidade de impacto na figura dos sócios e (2) lucidez para entender que o business que estava sendo criado não era para ser empreendido por eles e, portanto, decidiram parar.
O seu planejamento vai dar errado
Essa é a única certeza que temos. Eu, particularmente, não me apego a projeções de longo prazo que algumas startups em validação me apresentam. Sinceramente, elas me dizem muito pouco e a chance de os números estarem errados é de quase 100%.
Não estou ignorando a necessidade de se criar uma visão de futuro e entender como o modelo se sustenta a longo prazo. Mas, para mim, o que conta é muito mais o quanto os empreendedores já gastaram de “sola de sapato” para validar o negócio junto aos clientes, do que ler raciocínios perfeitos traduzidos em números que não vão se concretizar.
Nesta trilha de conteúdos do Quintessa sobre Validação trazemos dicas de como fazer isso na prática.
Não é um processo em linha reta e não existem todas as respostas
É fato que existem algumas metodologias e ferramentas que facilitam esse processo. Mas por aqui, costumamos dizer que a beleza se dá na junção da arte com a ciência. Mais importante do que ter a ferramenta em mãos, é saber aplicá-la tendo a sensibilidade de entender que cada mercado é um mercado, com ciclos de validação diferentes e que não existe receita de bolo.
Busque parceiros isentos que possam te acompanhar nessa jornada. Já ouvi de alguns ex-acelerados do Quintessa que ter tido o acompanhamento imparcial de uma pessoa no dia a dia, acompanhando as reuniões comerciais, apoiando nas escutas e vendas investigativas foi essencial para que o exercício de priorização fosse bem feito, respeitando o desejo dos fundadores e a demanda do mercado.
Antes de falar que o desafio é escalar, faça um breve questionamento sobre o quanto a modelagem do negócio está firme. Se eu te desse R$1 milhão, você saberia gerir esse recurso para extrair o máximo de resultados possíveis dele?
Seja sincero(a) nessa reflexão ou então experimentará os voos de galinha.
Para quem gostou, recomendo a leitura do texto sobre como foi a condução da jornada de validação da Techbalance, um dos cases do Quintessa. Recomendo também que conheça os nossos programas e que caso queira conversar mais sobre isso eu e o time de seleção estamos aqui para te apoiar!
Nova edição da Plataforma Negócios pelo Futuro tem foco em soluções de startups que impulsionam a adoção de práticas ambientais, sociais e de governança nas empresas
Está no ar uma nova edição da Plataforma Negócios Pelo Futuro, iniciativa do Quintessa que conecta marcas (empresas, institutos e fundações) aos negócios de impacto para que, juntos, protagonizem a construção de uma nova realidade possível.
Cada vez mais se fala no termo ESG, uma tendência que veio para ficar. Existem diferentes abordagens do termo, como na adequação de critérios de investimento, na criação de novos produtos e serviços, na revisão de projetos de filantropia corporativa, e na adoção de práticas na operação da empresa.
A tendência crescente do conceito ESG tem mobilizado grandes empresas na adoção de melhores práticas ambientais, sociais e de governança e a aceleradora vê na inovação aberta e na conexão com as startups de impacto um caminho eficaz para que as empresas cumpram estes compromissos.
Na segunda edição da Plataforma Negócios pelo Futuro, o Quintessa vai conectar grandes empresas e soluções inovadoras de startups de impacto, para que, por meio de parcerias e contratações de suas soluções, impulsionem a adoção de práticas ESG na sua operação.
As startups trarão soluções para os principais desafios das empresas nos pilares: Ambiental (como gestão de resíduos, eficiência energética, redução de emissão de carbono e eficiência hídrica); Social (como promoção de diversidade e inclusão no time, promoção de saúde e educação aos colaboradores e fornecedores); e Governança (como gestão de indicadores de sustentabilidade, transparência e combate à corrupção).
Esta segunda edição, denominada “ESG na Prática”, é realizada em parceria com a Alvarez & Marsal, via BizHub.
As empresas podem fazer parte por meio de três categorias: participante, apoiadora e patrocinadora. A aceleradora está agora focada em convidar empresas para estas duas últimas.
As apoiadoras e patrocinadoras participarão da definição dos desafios prioritários dentro dos três pilares, da seleção das startups e dos três Eventos, compostos por apresentações de pitchs das startups, banca, e realização de speed dating com os empreendedores das startups, em encontros individuais para conexão direta, de forma que firmem parcerias e gerem valor mútuo. Além disso, terão sua marca posicionada durante toda a divulgação dos Eventos.
A iniciativa acontecerá entre Abril e Agosto deste ano, sendo uma oportunidade para quem deseja ingressar na temática ou complementar a atuação de seus programas de inovação aberta já existentes.
“Há 12 anos trabalhamos junto às startups de impacto, tendo hoje uma rede de mais de 4 mil que já identificamos e nos relacionamos – tendo acelerado e implementado pilotos com centenas delas. Neste momento do mercado, é nosso papel facilitarmos a conexão entre estes dois atores e oferecermos nossas metodologias e expertise para potencializar esse processo. Essa é uma ação que une diversas marcas em uma mesma iniciativa, sendo complementar aos Programas em Parceria proprietários que desenvolvemos com Braskem, CPFL, Facebook, entre outros, sempre focados em inovação aberta para geração de negócios e impacto positivo”, diz Anna de Souza Aranha, diretora do Quintessa.
Para quem está se introduzindo no assunto, vale conferir este texto recente que o Quintessa publicou sobre como startups de impacto podem impulsionar a agenda de sustentabilidade e práticas ESG nas grandes empresas.
Na primeira edição da Plataforma, o foco foi impulsionar soluções dos negócios de impacto que colaboravam diretamente para a redução dos danos causados pela COVID-19. Foram mobilizados R$ 650 mil junto à Península e Provence Capital, dois destacados family offices, para apoiar a implementação de soluções em geração de emprego, microcrédito e moradia de três negócios de impacto: Parças Development School, Programa Vivenda e Fundo Periferia Empreendedora.
Para participar ou ser uma empresa apoiadora da iniciativa, acesse mais informações em www.negociospelofuturo.com.br.
Há 12 anos o Quintessa trabalha por uma nova forma de fazer negócios – uma forma que concilia gerar resultado financeiro e impacto socioambiental positivo, uma forma que entende que empresas podem (e devem) ser relevantes na solução dos desafios sociais e ambientais centrais do nosso país, que empresas podem ter uma gestão consciente e humana.
Felizmente, nas últimas décadas, diversos conceitos chegaram para tangibilizar essa visão e movimentos de mercado geraram pressão para que o tempo para que se concretizasse se tornasse mais próximo.
Evoluímos de uma visão de trade off entre gerar resultado financeiro e impacto socioambiental, que via o impacto como custo. Aprendemos que podemos gerar resultado financeiro a partir da geração de impacto positivo. O setor 2.5 e os negócios de impacto são uma ótima tradução desta visão: ao crescer, geram mais impacto – em setores como geração de energia limpa, soluções de logística reversa, educação, saúde, empregabilidade, e tantos outros.
Falando das grandes empresas, esse alinhamento entre as duas esferas não é tão óbvio. Ainda assim, por que ignorar essa visão não é mais uma opção?
Elenco aqui três formas de enxergar o porquê mudar.
Mudar pelo medo
Empresas são organismos vivos e sabemos que os que sobrevivem não são os mais fortes, mas aqueles que melhor se adaptam às mudanças. Uma das formas de entender o motivo de mudar é por uma questão de sobrevivência – e o medo de perder.
De um lado, medo de perder consumidores. O estudo global Edelman Earned Brand (2018) revelou que os consumidores orientados por causa já são maioria em todas as faixas etárias e de renda: 69% dos brasileiros compram com base no posicionamento das empresas sobre questões sociais. Já a pesquisa da Ipsos aponta que 77% dos entrevistados acreditam que o mercado de hoje espera que as empresas contribuam mais para as transformações da sociedade.
De outro lado, medo de perder colaboradores e potenciais talentos. Os millennials tendem a ficar menos tempo no mesmo trabalho e buscam propósito e fit cultural com a empresa. Uma pesquisa da PwC revela que existe nos millennials uma necessidade em perceber que estão envolvidos em algo maior do que o lucro apenas. E a geração Z, nascida entre 95 e 2010, também segue a mesma busca por propósito e realização profissional.
Por último, medo de perder investidores. Um grande marco são as cartas de Larry Fink (exemplo de 2019 e 2021), chairman e CEO da Black Rock, que possui trilhões de dólares sob gestão, e que nos últimos anos vem alertando para a urgência do tema ambiental e a responsabilidade das empresas no tema de sustentabilidade. Neste mesmo sentido, a Goldman Sachs, em 2020, anunciou que só irá estruturar IPOs de empresas com mulheres no conselho. Essa pressão já chegou no mercado financeiro e gestoras brasileiras, onde vemos a XP movimentando este debate (vale conhecer este estudo e ver as palestras do Expert XP).
Como disse Peter Drucker, “a inovação sempre significa um risco. Qualquer atividade econômica é de alto risco e não inovar é muito mais arriscado do que construir o futuro.”
Mudar pela oportunidade de ganhar
Outra forma de entender porque mudar é pela oportunidade.
Em 2013, Raj Sisodia, um dos fundadores do Capitalismo Consciente fez um estudo revelador: empresas que praticam o “capitalismo consciente” performam 10x melhor. Os aspectos analisados foram propósito, remuneração, qualidade do serviço ao consumidor, investimento na comunidade e impacto no meio ambiente. Segundo ele, estas empresas têm melhores resultados porque tratam melhor os seus stakeholders: seus fornecedores ficam satisfeitos em fazer negócios, colaboradores são mais engajados, produtivos e propensos a permanecer, são melhor recebidas nas suas comunidades e os consumidores são mais leais e satisfeitos.
Gosto muito da reflexão que decorre desse estudo, pois ele tira a discussão sobre “se” práticas empresariais mais humanas dão retorno positivo. O foco fica no “quando” e volta a pergunta a quem está questionando: qual o seu prazo para atingir esse resultado? Se tivermos um pensamento apenas de curto prazo, talvez a resposta seja de que o retorno não é considerável. Se conseguimos pensar mais a médio e longo prazo, ele não apenas existe, como é 10x maior. Os dados reforçam o que a crença popular já afirmava: quanto menor seu prazo, maiores são as chances de você se submeter a fazer algo errado para fazer dinheiro rápido.
No Brasil, o estudo “Empresas Humanizadas” revelou dados que complementam esta visão. Conduzido pelo Instituto Capitalismo Consciente em 2019, foram ouvidas 1.115 empresas de todos os portes e segmentos. O resultado foi que as empresas com propósito têm um nível de satisfação dos colaboradores 225% superior do que a média das 500 maiores companhias e um índice de satisfação de clientes (NPS) 248% superior. Além disso, o Retorno Sobre o Patrimônio (ROE) das companhias consideradas humanizadas se mostrou 6 vezes maior do que a média das 500 maiores do país.
Este estudo da McKinsey, de 2019, traz uma informação similar. Ele elenca cinco caminhos pelo qual as práticas ESG geram valor: crescimento de receita, redução de custos, intervenções legais e regulatórias, aumento de produtividade e otimização de ativos e investimentos.
Este texto que escrevi recentemente traz exemplos tangíveis sobre como esta agenda pode impulsionar novos negócios para as empresas. Um exemplo: ao contratar a solução da Hand Talk para o site da sua empresa, você pode enxergar até como uma ação de responsabilidade social e inclusão de surdos, mas você também pode enxergar como uma ação para ampliar seu mercado para milhões de consumidores que têm a Libras (Língua Brasileira de Sinais) como sua língua oficial.
Quando falamos em diversidade, um aspecto dentro deste novo olhar para os negócios, os resultados também são positivos. Este estudo da McKinsey mostra que as empresas que apostam na diversidade no seu quadro de funcionários tendem a ter um aumento de até 21% no lucro quando há diversidade de gênero e 35% quando há diversidade racial.
Há conceitos que apoiam esta visão. Michael Porter, em 2011, escreveu o artigo para a Harvard Business Review “Criando Valor Compartilhado”. Valor compartilhado é definido como políticas e práticas operacionais que aumentam a competitividade de uma empresa e, ao mesmo tempo, promovem as condições econômicas e sociais das comunidades onde atua. São iniciativas que unem os desafios sociais e ambientais, os ativos da empresa e oportunidades de mercado. Por exemplo, uma empresa que identifica uma necessidade da população de baixa renda e cria um produto ou serviço para suprir essa necessidade, pratica o valor compartilhado.
Outro termo, cunhado em 2020 no Fórum Econômico Mundial em Davos, é de capitalismo de stakeholders. Na contramão do capitalismo de shareholders, o capitalismo de stakeholders defende que a tomada de decisão olhando para colaboradores, consumidores, fornecedores, comunidades locais “E” acionistas é mais estratégica para o sucesso no longo prazo das empresas do que somente focar na maximização do lucro para os acionistas.
Um exemplo tangível que conhecemos de perto por aqui é o programa CPFL na Comunidade, que propõe uma nova forma da empresa se relacionar com seus clientes de baixa renda. Buscamos e implementamos soluções de negócios de impacto focadas em educação financeira e geração de renda dentro da temática de eficiência energética em comunidades em que a CPFL atua, visando uma melhoria do seu relacionamento com os clientes e também na potencial redução da inadimplência da sua operação.
Gostaria de mencionar dois artigos que complementam esta visão: este, da Regina Magalhães, e este, do Ricardo Voltolini.
Mudar pela necessidade e senso de responsabilidade
Se propor a adotar práticas ESG é (ou deveria ser) muito além de fazer um checklist de uma lista de exigências. Deveria ser parte de uma mudança maior, uma forma de enxergar, pensar, agir mais respeitosa, menos egoísta, que prioriza o cuidado com as pessoas e o ambiente ao nosso redor. Uma vez ouvi em uma palestra que antes dos 17 ODSs está o ODS 0, de ampliação de consciência, que viabiliza que os demais aconteçam, o que fez muito sentido para mim.
Não é possível uma empresa prosperar enquanto o seu entorno está desmoronando. Mesmo pensando de forma individualista, a falta de educação afeta a falta de capacidade de atrair bons talentos, colaboradores doentes afeta a produtividade, falta de insumos naturais (como água) afeta o acesso a matérias primas para produção – entre tantos outros exemplos.
Por que não agimos no curto prazo a favor do que queremos a longo prazo?
Acho que o cenário de absoluto caos que vivemos hoje é indisfarçável e explícito, mas vale trazer dados para embasar. O Brasil, em 2019, ao mesmo tempo em que ocupou a posição de 9ª maior economia do mundo, ocupou a 9ª posição de país mais desigual do mundo (Índice Gini – do Banco Mundial & IBGE). Nossa realidade é preocupante: falta acesso à educação de qualidade, saúde de qualidade, saneamento básico… Entre tantos outros desafios.
Se as empresas possuem dezenas, centenas, milhares de vidas, de pessoas, sob sua gestão e poder de alcance, como colaboradores, fornecedores, consumidores – como ignorar seu potencial de ação e responsabilidade? Qual pode ser o papel das empresas em um Brasil em que 11 milhões de pessoas ainda são analfabetas, em que menos da metade da população (48,8%) concluiu a educação básica (até ensino médio completo) ou em que somente 35% das crianças de 0 a 3 anos estão matriculadas em creches? (Dados do IBGE, 2019).
Na área da saúde, vemos uma crise de saúde pública em meio à pandemia, impactando em diferentes áreas, como aumento nos índices de desemprego, violência doméstica e dificuldades em relação à saúde mental. O Brasil já é o país com a maior taxa de ansiedade no mundo inteiro, segundo a OMS, e recentemente começamos a ver o engajamento de empresas nesta temática, o que faz muito sentido, afinal, onde passamos a maior parte do nosso tempo?
Não só é uma oportunidade para as empresas se envolverem, mas o momento requer que nenhum dos atores da sociedade se exima do seu papel e responsabilidade.
Em Abril de 2020, antes do termo cair em uso (e logo em desuso), lançamos no Quintessa o Movimento “Novo normal”. Finalizo o texto de hoje reproduzindo trechos do manifesto que escrevemos na época.
Sempre preferi a abordagem da oportunidade, por ser mais palatável e convidativa, mas é tempo de conseguirmos enxergar a questão sobre estas duas outras óticas apresentadas aqui.
Estamos vivendo uma crise de escala global.
Pessoas estão morrendo, regiões estão vendo seu sistema de saúde colapsar, milhões de negócios e de empregos estão desaparecendo. Certamente falamos de um período que ficará na memória de todos nós. Mas qual lembrança desejamos ter sobre o que fizemos durante essa crise?
Este contexto nos trouxe para um modo de vida no mínimo diferente, que tem gerado incômodos, angústias, tristeza. E todos os dias esperamos notícias que indiquem uma perspectiva de quando o mundo irá “voltar ao normal”.
Mas o que é o normal, afinal? Para qual normal desejamos voltar?
Parece normal que 20% da população brasileira não tenha acesso à água para lavar as mãos? Que o acesso à saúde e educação de qualidade seja restrito a poucos? É normal que milhões de pessoas sintam fome, enquanto há tanta comida sendo desperdiçada? Que acompanhemos o aquecimento do planeta e a devastação das florestas sem alterar os meios de produção?
Não queremos voltar ao antigo entendimento de “normal”.
Ao achar normal não se importar com o outro e com o planeta, buscar o lucro a qualquer custo ou ter uma atitude passiva diante dos desafios do nosso país.
Por muito tempo, classificamos como “normal” o que acreditamos ser errado e como “diferente” o que acreditamos ser certo.
Que tal chamarmos de “normal” o que desejamos a partir de agora?
Temos a oportunidade de repensarmos a nossa forma de agir e propormos retornar a um novo significado de normal.
O novo normal pode ser agirmos de forma integrada entre os setores e acreditarmos que a decisão individual pode fazer toda a diferença para o coletivo.
O novo normal pode ser nos reconectarmos com o nosso propósito e missão, valorizando o “como” se faz e gerindo negócios com base na parceria, na confiança e na transparência.
O novo normal pode ser colocarmos as pessoas no centro das nossas decisões, cuidando do nosso time, de quem nos relacionamos e de quem faz parte da nossa cadeia de valor.
O novo normal pode ser uma realidade mais justa, digna, com qualidade de vida para as pessoas e mais respeito ao meio ambiente.
Qual você deseja que seja #ONovoNormal? Como pode começar a construí-lo agora?
O texto de hoje completa uma tríade de conteúdos sobre inovação aberta e startups de impacto: falamos sobre a lente de novos negócios, sustentabilidade e hoje, falaremos sobre filantropia.
Até agora simplifiquei a comunicação, falando em startups de impacto, mas para o conteúdo de hoje vale conceituarmos o termo “negócios de impacto”: eles “são empreendimentos que têm a intenção clara de endereçar um problema socioambiental por meio de sua atividade principal (seja seu produto/serviço e/ou sua forma de operação). Atuam de acordo com a lógica de mercado, com um modelo de negócio que busca retornos financeiros, e se comprometem a medir o impacto que geram” (Aliança pelos Investimentos e Negócios de Impacto, 2019).
O ecossistema de negócios de impacto é também chamado de setor 2.5: uma referência à união entre características do segundo setor, de empresas privadas e marcado pelo foco em gerar lucro, e do terceiro setor, de organizações sem fins lucrativos com foco em gerar impacto socioambiental positivo.
Vou destacar três vertentes nas quais acredito que a relação entre recursos de filantropia e negócios de impacto tem muito potencial.
Negócios de impacto como ‘fim’
Venture philanthropy: filantropia para desenvolvimento de pipeline de investimento
Nestes tantos anos de Quintessa, já mapeamos e nos relacionamos com mais de 4 mil negócios de impacto. O que percebemos no dia a dia é refletido pelo número que o Mapa produzido pela Pipe Social traz: 73% dos negócios de impacto mapeados faturam menos que R$ 100 mil por ano ou ainda não faturam.
Quando a Pipe realizou o Scoring de Impacto, um dos principais desafios identificados foi a “falta de oportunidade de investimento de alta qualidade com bons históricos (track record)”.
Quando lançamos a nova edição do GUIA 2.5, produzido pelo Quintessa, na pergunta aberta que fizemos sobre qual tipo de auxílio externo gostariam de receber, diversas organizações (aceleradoras, incubadoras, etc.) responderam: trazer capital de filantropia para o setor para financiar as acelerações e captar mais recursos para atender mais empreendedores. Não à toa o título da matéria da Reset sobre o evento de lançamento do GUIA foi: “Ecossistema de impacto cresce no país — mas ainda precisa atrair a Faria Lima”.
Assim, se temos capital voltado para investimentos de impacto aguardando negócios maduros para ser alocado e temos negócios iniciais precisando de suporte para amadurecerem, qual tipo de capital pode destravar essa equação, viabilizando este suporte?
Foi de forma sincrônica que conheci o conceito deventure philanthropye reconheci o que já fazíamos no Quintessa há anos.
Segundo a EVPA, “a Venture Philanthropy trabalha para fortalecer as organizações sociais, fornecendo-lhes recursos financeiros e apoio não financeiro, a fim de aumentar seu impacto social. A metodologia é baseada na aplicação de princípios de capital de risco, incluindo investimento a longo prazo e apoio prático a certos elementos de economia social”. As principais características incluem: Financiamento sob medida (escolhendo os instrumentos financeiros mais adequados a fim de apoiar a organização – grant, dívida, equity e instrumentos financeiros híbridos); Apoio organizacional (serviços de apoio com valor agregado a fim de fortalecer a resiliência organizacional e a sustentabilidade financeira); Medição e gerenciamento de impacto (medição e gestão do processo de criação de impacto social, a fim de maximizar e potencializar impacto).
Um grande case que pode servir de exemplo é da In3Citi com a startup de impacto Nina, feito em colaboração com o Quintessa (descrito neste material). A In3Citi utilizou-se de recurso filantrópico para viabilizar a aceleração da Nina, o que fez com que a startup estivesse mais qualificada e madura para receber posteriormente um investimento em equity, o qual além de visar retorno em termos de impacto, visava também retorno financeiro. A parceria deu tão certo que já estamos em nosso quarto caso juntos: Eco Panplas, HY Sustentável e Solos.
Além de qualificar o pipeline de investimentos, é uma ação que gera impacto na ponta (no caso da Nina, cidades seguras para mulheres e para todos) e ao ecossistema, atuando no gap que pontuei acima.
Essa estratégia é descrita neste caso muito didático: “Investing for Impact: Ordinary Work for Extraordinary People”. Até o negócio se tornar lucrativo, a Unicus recebeu apoio de doações (grants) e posteriormente recebeu investimento em equity (participação acionária), sempre com apoio não financeiro de forma complementar:
Apesar de não ser um assunto muito comentado, isso é um tanto comum: a Vitalk, que realizamos a aceleração em 2017 e ajudamos a captar 8 milhões de reais do bolso de Venture Capital (com investidores como a Valor Capital) posteriormente, havia, nos seus anos iniciais, desenvolvido seus produtos com suporte de doações, como contam aqui.
Assim, o recurso da filantropia pode ser um grande aliado do recurso que busca retorno financeiro, o venture capital, criando um pipeline qualificado. A filantropia pode oferecer um recurso paciente e um espaço de experimentação que permite lidar com risco, para que depois venham outros “bolsos”.
Filantropia estratégica: filantropia para desenvolvimento de pipeline de parceiros de negócio
Um mesmo viés pode ser adotado para olharmos para as empresas. Aqui vou utilizar o conceito de Filantropia Estratégica, segundo este artigo: “a filantropia estratégica é caracterizada quando uma firma busca empreender esforços sinérgicos utilizando os recursos corporativos para resolver problemas sociais que estejam em consonância com os valores centrais e a missão da empresa. (…) Isso significa dizer que estão buscando atingir os objetivos de negócios também a partir das ações de filantropia”.
Assim, empresas e organizações podem utilizar da filantropia como uma forma de gerar impacto positivo e também se relacionarem com novos parceiros de negócio, gerando valor à sua atividade core, consumidores e outros stakeholders.
Um exemplo é o case que realizamos com a BP, na qual, junto à Palladium, aceleramos a Beequal, um negócio que oferece espaço terapêutico para pais de crianças com desafios de desenvolvimento. Ter realizado a aceleração gerou impacto positivo na ponta, beneficiando pais e crianças, bem como qualificou um potencial parceiro para a BP no relacionamento com seus clientes.
Um outro exemplo de parceria possível seria de uma empresa que trabalha com artigos de moda e viabilizasse a aceleração de negócios como a Rede Asta ou a Já Entendi, que poderiam capacitar mulheres de baixa renda costureiras que produzem artigos para sua coleção.
Por último, ressaltando o que disse acima, da filantropia como um recurso paciente e que permite lidar com risco, realizamos com o Instituto Vedacit o primeiro Mapa Cidades Sustentáveis, identificando ONGs e negócios que impacto que atuavam na temática – uma ação que ajuda a embasar o planejamento estratégico da empresa, no viés de inovação aberta e responsabilidade social corporativa.
Negócios de impacto como ‘meio’
Filantropia para contratar soluções que geram impacto positivo de forma qualificada, perene e escalável
Negócios de impacto também podem fazer parte de uma atuação filantrópica enxergando-os como meio – me explico: olhando as soluções que eles podem implementar e gerar impacto na ponta.
Uma ação que realizamos neste sentido foi a primeira edição da Plataforma Negócios pelo Futuro, com foco em soluções para o contexto de pandemia gerada pelo COVID-19. Ainda que os negócios selecionados pudessem ser analisados como potenciais investimentos, no caso, o capital mobilizado veio do bolso da filantropia estratégica, contratando as soluções dos negócios para que elas fossem oferecidas gratuitamente para os beneficiários na ponta, como relatado nesta matéria.
Os negócios de impacto possuem soluções já prontas, qualificadas, com potencial de escala e sustentabilidade financeira – há um poder de multiplicação ao apoiá-los, pois eles poderão continuar gerando impacto para outras centenas de pessoas a partir do recurso alocado.
Por exemplo, dentro de uma estratégia de responsabilidade social de uma empresa para desenvolver a comunidade do entorno de sua sede, pode fazer todo sentido implementar a solução de um negócio como a Barkus para oferecer educação financeira, da Litro de Luz para dar acesso à iluminação pública, do Moradigna para oferecer mais salubridade às casas.
Vale mencionar que a boa prática é sempre partir de uma escuta ativa, do entendimento das demandas locais, e também que esta ação poderia estar ainda integrada à uma ação de mentoria dos executivos, na estratégia de voluntariado corporativo.
Cabem aqui duas observações. Uma é para não cairmos no pensamento de que o setor 2.5 é melhor do que o Terceiro Setor ou na visão de que um deve substituir o outro – acreditamos na visão de complementaridade, vendo os negócios de impacto, assim como as ONGs, como potenciais parceiros para implementação de projetos que gerem impacto positivo na ponta.
A segunda observação é que por mais que estejamos falando de recursos de doação, muitas vezes essas relações se materializam na ponta por meio da emissão de uma nota fiscal – contratando a solução dos negócios e baseando a prestação de contas no impacto gerado, não na forma como o recurso foi alocado internamente.
Há tantos outros caminhos possíveis:
Uma empresa que trabalha com construção pode investir recursos filantrópicos no desenvolvimento de um bairro e na causa de cidades sustentáveis, beneficiando a cidade externamente, mas gerando valor ao negócio por meio da valorização imobiliária.
Uma empresa que deseja atuar com a causa da educação pode investir recursos filantrópicos “dentro de casa”, beneficiando seus colaboradores e comunidade do entorno com soluções educacionais de negócios de impacto de educação e preparo técnico – e não apenas doando para projetos que não se relacionem com a sua operação.
Negócios de impacto como Prosas, Simbiose, Editora Mol e Arredondar, podem facilitar a empresa no direcionamento de benefícios fiscais e na mobilização de doações para causas.
Uma organização sem fins lucrativos, como é o caso da Fundação Lemann, pode viabilizar o desenvolvimento de edtechse a implementação de suas soluções como uma forma de melhorar a aprendizagem de estudantes de escolas públicas brasileiras, com recursos filantrópicos, como está acontecendo em nosso programa em parceria.
Atuando de forma consistente, alinhada ao negócio, a filantropia estratégica pode também dar base à estratégia ESG da grande empresa. No início do texto falei como três abordagens distintas, mas a realidade é que o valor está na visão sistêmica, vendo negócio, sustentabilidade e filantropia como ações integradas de uma mesma estratégia, como foi muito bem pontuado neste podcast do GIFE.
Os negócios de impacto, dentro deste viés de serem “2.5” (dois e meio), navegam entre estes distintos bolsos, do 2.1 ao 2.9. Muitas vezes recebem investimento de venture capital, priorizando o viés for profit, por mais que gerem impacto positivo. Por outras vezes, recebem recursos de filantropia, priorizando o for impact, por mais que gerem retorno financeiro.
Espero que o texto tenha trazido clareza sobre o assunto, que vale para estratégias de filantropia de empresas e de pessoas físicas. Tendo lucidez sobre a enormidade dos desafios sociais e ambientais que temos ndo país, esse tipo de ação não só faz sentido em termos de negócio, como é extremamente necessária para que tenhamos uma realidade mais justa, equânime e de qualidade para todos.
Nos últimos anos venho me dedicando à frente de Programas em Parceria do Quintessa, trabalhando junto a grandes empresas, institutos e fundações, e investidores no relacionamento com startups de impacto. Acompanhar o processo de evolução do mercado, seguido pelo boom da inovação aberta e do termo ESG, tem gerado grandes aprendizados.
É incrível acompanhar o processo de forma prática e também influenciar ele por meio de programas que tangibilizam o valor da união entre esses atores do mercado e que navegam na régua do 2.1 ao 2.9, do venture philanthropy ao venture capital, de acordo com o foco de cada parceiro.
Agora em 2021 começamos a compartilhar estes aprendizados de forma ampla, inaugurando com este primeiro texto que escrevi e que fala do potencial da inovação aberta focada em impacto positivo, pela lente de novos negócios.
Neste artigo quero compartilhar o valor pela lente de sustentabilidade, uma área que por muitos anos foi vista de forma vertical e alheia ao negócio, mas que, felizmente, tem sido cada vez mais vista de forma transversal e integrada – refletindo o como a empresa atua e o que oferece de fato aos seus clientes e à sociedade.
A verdade é que, do lado dos empreendedores, as startups de impacto sempre estiveram integradas às grandes empresas, vendo estas como potenciais clientes e parceiros de negócios para aquelas que têm seu modelo de negócio B2B.
A novidade talvez esteja agora do lado dos executivos, que estão percebendo que trabalhar junto às startups de impacto pode ser um caminho eficaz, rápido e eficiente para trazer soluções para sua operação e colocar em prática seus compromissos assumidos.
A criação de soluções internas pode fazer muito sentido, mas se aliar a empreendedores que estão se dedicando para resolver esses desafios há anos, com soluções já testadas e aprimoradas, com certeza pode agregar muito neste processo – seja cocriando soluções conjuntas ou simplesmente implementando suas soluções já prontas.
Quando desenhamos nossos programas junto aos nossos parceiros, muitas vezes o ponto de partida é: Quais são suas metas de sustentabilidade atuais? Quais os compromissos já assumidos para adoção de práticas ESG?
Eixo ambiental
Quando falamos de gestão de resíduos e logística reversa, já aceleramos startups como Boomera, Instituto Muda, SO+MA, Recicleiros, Gaia/Viraser, GreenMining, BRPolen, Arco Resíduos, Molecoola, Ecopanlas, Solos e Biocicla, com a qual implementamos sua solução via CPFL na Comunidade, dando uma destinação correta ao uniforme de colaboradores da companhia. Cada uma delas é especializada em um perfil de empresa, tipo de resíduo, momento de coleta e tipo de solução distintos – trazendo soluções que se complementam e, de forma integrada, atuam de forma relevante no desafio ambiental que enfrentamos nesta agenda e dão suporte para que a PNRS (Política Nacional de Resíduos Sólidos) seja cumprida.
O mesmo se aplica quando falamos de utilização de fontes de energia renovável, eficiência energética e eficiência hídrica – como a ShareWater, que realiza projetos de estações de tratamento de água, esgoto ou efluentes, visando tanto o reúso, quanto a adequação da qualidade da água para descarte em redes de coleta ou cursos d’água.
Há tantos outros exemplos de startups que atuam na redução do desperdício ou mesmo na substituição por fontes de matéria prima renovável, como é o caso da MeuCopoEco, da Já Fui Mandioca e da Tamoios, que atuam na redução do desperdício de itens feitos de plástico com abordagens inovadoras. Outro desafio comum, com diversas soluções existentes, é o de redução na emissão de carbono, com startups como Emoving, Courri e Recigases, e preservação/recuperação da biodiversidade, como PlantVerd e Nucleário.
Por último, uma simples forma de começar a agir é incluindo novos fornecedores para ações que a empresa já realiza, como a provisão de alimentos – a Fruta Imperfeita, Local.e e FazU trazem soluções que reduzem o desperdício e valorizam sua cadeia de produção – ou seja, a empresa pode simplesmente continuar comprando frutas, vegetais e produtos alimentícios como sempre fez, mas já estará gerando mais impacto positivo em termos sociais e ambientais do que se trabalhasse com outros fornecedores tradicionais.
Eixo social
Dentro do eixo social, a diversidade de exemplos é também incrível. Há abordagens possíveis olhando para colaboradores, clientes, fornecedores, comunidade no entorno da empresa, desenvolvimento territorial… Aqui vou tocar em três aspectos apenas.
Inúmeras startups trazem soluções para se ampliar a diversidade e inclusão entre os colaboradores, como é o caso da Parças, que ajuda na inclusão de pessoas egressas do sistema prisional para trabalharem como desenvolvedores em áreas de tecnologia, ou mesmo da Maturi, que aborda a diversidade na questão geracional. Dada a criticidade do assunto, há tantas outras que trazem a abordagem pela questão racial, de gênero, de origem socioeconômica ou mesmo na questão de PcD, como a Hand Talk.
Outras tantas startups, que também fazem parte do mercado de healthtechs, trazem soluções de alta qualidade para atuar no eixo de promoção de saúde física e mental dos colaboradores, como o Pé de Feijão e outras que mencionei aqui.
Por último, ações de promoção de educação e capacitação dos colaboradores podem ser muito beneficiadas por soluções de startups de impacto, como Já Entendi, Tamboro e Talent Academy.
Eixo governança
Tenho que ser sincera que, dentro dos três eixos, este é o menos habitado por soluções de startups que já mapeamos – o que faz muito sentido para mim. Muitas das práticas corretas de governança vêm de ações internas, políticas internas e decisões que vêm da própria companhia, não fazendo tanto sentido plugar soluções externas para alavancar esta pauta.
Ainda assim, vale mencionar a existência de soluções nas agendas de combate à corrupção, transparência, avaliações e certificações externas, como é o caso de duas organizações que já aceleramos e atuam com isso – Move e Sistema B.
É só o começo e você pode fazer parte
Dado que temos uma frente de atuação no Quintessa que se dedica exatamente a isso, pode ter parecido insensato da minha parte ter mencionado tantas startups em um único texto – mas meu objetivo aqui é explicitar o potencial deste universo! Nos últimos anos, mapeamos e criamos uma rede de mais de 4 mil startups, dentro da qual já aceleramos diretamente mais de 200 delas.
Vejo as startups de impacto, os negócios de impacto, como grandes aliados das grandes empresas que desejam rever e melhorar suas práticas de negócio. Em breve lançaremos a segunda edição da Plataforma Negócios pelo Futuro, denominada ESG na Prática, na qual traremos este universo, de forma prática, para grandes empresas.
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