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  • Como famílias empresárias podem atuar com negócios de impacto

    Como famílias empresárias podem atuar com negócios de impacto

    E por que seu engajamento pode ser fundamental para o avanço do setor

    Os family offices, estruturas que administram o patrimônio de famílias empresárias e pessoas físicas de alta renda, já se aproximaram do ecossistema de empreendedorismo e das startups e são hoje uma alternativa para empreendedores que buscam investimento de venture capital. 

    Agora, começam a se aproximar também do ecossistema de impacto. O report da INEO de 2020 mostrou que as famílias empresárias têm se mostrado cada vez mais engajadas nas temáticas de filantropia, ESG e investimentos de impacto, impulsionadas pelas movimentações do mercado e pela visão das novas gerações que assumem a gestão.

    47% das famílias entrevistadas pretendem alocar entre 1 e 10% de seu portfólio em investimentos de impacto, e 12% pretende alocar de 11 a 50%. Além disso, 26% aumentou seu envolvimento com filantropia na pandemia.

    Por outro lado, a pesquisa aponta também os desafios em transformar esse engajamento em prática e investimento de fato: mais de 70% das famílias não conhecem o impacto social e ambiental dos ativos que investem, olhando apenas o retorno financeiro, e 35% dos entrevistados ainda não começaram a estudar o tema.

    O cenário é típico de transição: há intenção de avanço na atuação da temática, mas ainda é o momento de compreender como isso pode acontecer na prática. O lado bom disso é que, não havendo um único caminho correto possível, há diversas maneiras de se engajar e promover esse avanço.

    Enxergamos como essencial o engajamento desse ator dentro do ecossistema de impacto. Nos últimos anos, vimos o engajamento de empresas e governo nele, mas sabemos que estes segmentos tendem a ser direcionados por metas de curto prazo. As famílias empresárias, com maior autonomia sobre a alocação de seu patrimônio e o olhar para o legado positivo que as gerações geram, podem trazer um capital estruturante e de longo prazo para compor o setor.

    Além disso, essas famílias costumam poder aportar não apenas recursos, mas apoios não financeiros de alto valor, como conhecimento de negócios (para mentorias) e conexões qualificadas com o mercado, entre outros.

    Como então as famílias empresárias podem incrementar e aprimorar sua participação no ecossistema de impacto? 

    Já faz alguns anos que nos relacionamos com investidores ‘pessoa física’, famílias e family offices, principalmente com um olhar de investimento anjo nas startups de impacto. Recentemente, as possibilidades têm se expandido. 

    Por um bom tempo optamos por não olhar para o bolso da filantropia, pois nossa grande batalha era mostrar que negócios de impacto poderiam gerar retorno financeiro positivo. De fato, conseguimos consolidar isso, com vários negócios de impacto da nossa rede que estão sendo investidos e adquiridos por grandes fundos e empresas, como a Boomera e a Ambipar, Courri com a Americanas, entre outros cases. (Caso não conheça o conceito de negócios de impacto, conheça aqui).

    A questão é que se estes negócios não tivessem alcançado um estágio maduro como empresa, isso nunca teria acontecido e é no apoio a esses negócios que o capital filantrópico faz muito sentido e pode ser um ponto de partida para a atuação das famílias. Um capital filantrópico paciente e estruturante para viabilizar o desenvolvimento dos negócios de impacto, mais aderente ao risco e precedente ao bolso de venture capital (VC).

    Vale ressaltar que a grande maioria das famílias sempre atuou com impacto na linha da filantropia, realizando ações e doações pontuais ou até recorrentes para diversas organizações do terceiro setor. O que queremos apresentar é a inovação como uma lente para a filantropia, com o objetivo de ampliar o impacto dessa doação de forma mais perene, sustentável e com potencial de multiplicação, por meio dos negócios de impacto. 

    Nosso entendimento é que uma atuação não substitui a outra e são complementares. Dentro do espectro do capital, há os diversos “tons de cinza” a serem preenchidos, desde a filantropia mais tradicional, o venture philanthropy, o investimento anjo, o investimento de VC para estágios iniciais, o private equity, e assim em diante. Para cada tipo de capital, há um escopo específico de negócios de impacto e projetos que se adequa, sendo a atuação com esses diversos bolsos uma estratégia de diversificação de portfólio e abrangência de atuação das famílias.

    Um case muito interessante a ser estudado é de Puerto Asis Investiments, na Argentina. Tendo os 17 ODS como base (Objetivos de Desenvolvimento Sustentável, formulados pela ONU em 2015), são uma plataforma de investimentos com propósito que opera através de diferentes estratégias em um espectro contínuo de capital. 

    As variações dentro do espectro analisam aspectos como:

    • Retorno financeiro: retorno de mercado x “Impact first” x sem retorno financeiro
    • Nível de risco 
    • Foco de impacto: mitigação de impacto negativo x potencialização de externalidades positivas x contribuição para solução de desafios sociais e ambientais

    Entre a variação desses aspectos, as respostas variam entre:

    • Mandatos de investimento: private equity x venture capital x filantropia
    • Estágio das investidas: empresas maduras x startups x projetos
    • Estratégias: investimento responsável x investimento sustentável x investimento de impacto x venture philanthropy x investimento social x bens públicos 

    Neste texto que publicamos anteriormente você pode se aprofundar mais sobre os tipos de capital. Há ainda o viés de estruturações “blended”, que mesclam distintos tipos de capital em uma mesma operação, mas no qual não nos aprofundaremos aqui.

    Como isso acontece na prática?

    Aqui focaremos no conceito de Venture Philanthropy, que, de forma simplificada, pode oferecer capital filantrópico e apoio não financeiro para o negócio de impacto amadurecer a ponto de se tornar um investimento futuro. Falamos mais sobre esse conceito aqui, que pode ser aplicado tanto pelas famílias quanto por fundos de investimento.

    Replicando o conceito: “Venture Philanthropy trabalha para fortalecer as organizações sociais, fornecendo-lhes recursos financeiros e apoio não financeiro, a fim de aumentar seu impacto social. A metodologia é baseada na aplicação de princípios de capital de risco, incluindo investimento a longo prazo e apoio prático. As principais características incluem: Financiamento sob medida (escolhendo os instrumentos financeiros mais adequados a fim de apoiar a organização – grant, dívida, equity e instrumentos financeiros híbridos); Apoio organizacional (serviços de apoio com valor agregado a fim de fortalecer a resiliência organizacional e a sustentabilidade financeira); Medição e gerenciamento de impacto (medição e gestão do processo de criação de impacto social, a fim de maximizar e potencializar impacto)”. 

    Aqui no Quintessa já realizamos algumas iniciativas diferentes junto a investidores e famílias:
    • Family offices: Plataforma Negócios pelo Futuro

    Em 2020 executamos a iniciativa da Plataforma Negócios pelo Futuro com dois family offices, no objetivo de ampliar a oferta de soluções de negócios de impacto que pudessem contribuir com soluções no contexto de pandemia. A Provence Capital e a Península investiram, de seu bolso de filantropia, R$ 650 mil em três startups de impacto, sendo parte do valor destinado à contratação de seus serviços, para que pudessem ser oferecidos à população e gerassem impacto positivo aos beneficiários na ponta, e parte à aceleração e acompanhamento dos negócios pelo Quintessa. 

    Um dos negócios foi a Parças Developers School, que forma e emprega egressos do sistema prisional na área de tecnologia. Além de receberem um capital filantrópico para oferecer o curso a mais alunos (e inclusive usaram parte do dinheiro para comprar cestas básicas a estes jovens), receberam uma aceleração de 8 meses do nosso time para estruturar a gestão e o modelo de negócio, o que permitiu que ao fim do processo, o Nubank investisse na startup. Desde então o impacto só vem aumentando e mostra como o capital filantrópico não só apoiou os beneficiários como viabilizou a aceleração do negócio, que, já mais maduro, pôde acessar o recurso de investimento e ganhar escala, multiplicando o impacto gerado de forma perene.

    • Pessoas físicas: Sponsorship Quintessa

    Em 2018 criamos o Sponsorship Quintessa, programa em que investidores financiaram uma aceleração do Quintessa para algumas startups de impacto. O objetivo foi a geração de pipeline, impulsionando o crescimento do negócio e preparando-os para um investimento ao final da aceleração – além do que já mencionamos sobre conhecer melhor os empreendedores para mitigar riscos na futura sociedade, o que fez muita diferença ao final do processo. 

    • Famílias e pessoas físicas: Jornada de Venture Philanthropy

    Este programa foi criado em 2021 para pessoas físicas e famílias empresárias, em forma de uma jornada de 8 a 15 meses abrangendo três objetivos: gerar impacto positivo (seja pela atividade fim dos negócios, seja por promover o desenvolvimento do ecossistema), gerar aprendizado prático e vivencial em investimento de impacto, e gerar pipeline qualificado para potencial investimento posterior.

    Os participantes são o Instituto Helda Gerdau e Associados do ICE.

    Além de apoiar financeiramente o desenvolvimento de startups de impacto positivo por meio de uma aceleração do Quintessa para os negócios, incluímos momentos de capacitação, mentoria, conexões de valor e networking. Uma das vantagens nesse formato é promover também a troca entre as famílias e os investidores, que compartilham seus aprendizados e reflexões sobre a atuação na temática.

    Seguindo o formato que realizamos na Jornada, entendemos que pessoas físicas de alta renda (investidores) e famílias empresárias/family offices podem atuar com negócios de impacto em três principais objetivos:
    • Desenvolvimento do ecossistema de impacto

    Quando falamos dos negócios de impacto, segundo o levantamento do Mapa de Negócios de Impacto do Brasil, 70% deles não tem faturamento ou faturam menos de 100 mil ao ano, estando a maior parte deles em estágio inicial. 

    Além disso, quando lançamos o GUIA 2.5, ficou nítida também a necessidade de apoio por parte das aceleradoras, que sozinhas na responsabilidade financeira de promover o apoio aos empreendedores, não conseguem fomentar o desenvolvimento de todo o ecossistema. 

    Com cada vez mais capital de risco chegando no ecossistema, focado em investimento de impacto, o pipeline de negócios qualificados não tem aumentado na mesma proporção para poderem receber esses aportes, havendo um gap de capital não alocado por falta de pipeline de negócios maduros que possam receber ele. É necessário então um capital mais paciente que possa apoiar no desenvolvimento dos negócios até atingirem um nível de maturidade para receber investimentos.

    Sendo assim, a doação por parte das famílias para apoiar o desenvolvimento do ecossistema de impacto tem um poder de multiplicação muito forte: ao apoiar um negócio de impacto no início, ao ele entregar seus produtos/serviços e crescer, ele impacta positivamente milhares de pessoas. Assim, o impacto se dá não apenas pelo desenvolvimento do ecossistema, mas também pela geração de impacto positivo na ponta, aos beneficiários.

    • Aprendizado prático

    Apoiar os empreendedores de impacto é uma forma de experimentar e vivenciar o ecossistema de impacto na ponta. Consumir conteúdo, participar de eventos e palestras é importante, mas atuar diretamente no dia a dia empreendedor, entender seus desafios e conhecer seus beneficiários é uma forma de aprender e refletir sobre quais são as reais necessidades de apoio e como cada um deseja participar do ecossistema para potencializar essa geração de impacto. Há diversos “tons de cinza” dentro do setor 2.5 e aprender na prática sobre a diferença entre cada negócio, de estágios diferentes, é a melhor forma para se preparar para gerir bem seus vários tipos de capital.

    • Formar pipeline de investimento

    O terceiro objetivo é formar um pipeline qualificado de startups de impacto e poder ‘trocar de bolso’, investindo por meio de capital de risco. Além disso, é uma oportunidade de se relacionar com os fundadores, entender sinergias e alinhamento de valores para uma futura sociedade. É com o bolso da filantropia que viabiliza a aceleração dessas startups e a imersão nesse relacionamento que se pode encontrar bons potenciais investimentos antes que eles cheguem ao mainstream do mercado de investimentos e mitigar o risco de uma decisão de alocação baseada apenas em reuniões e apresentações. Assim, pode-se ver não como uma “doação a fundo perdido”, mas como um investimento paciente e de longo prazo que garante uma futura boa alocação do bolso de VC.

    Por fim, é importante dizer que esse tipo de recurso é mais adequado para apoiar o ecossistema e os negócios em estágio inicial, mas já são muitas as startups de impacto madura em rodadas mais avançadas de investimento de risco.

    O grande papel do bolso do venture philanthropy pode ser poder priorizar o tipo de ajuda que aquele negócio precisa, injetar capital adequado e apoio não-financeiro, para poder destravar outros tipos de investimento.

    Uma família empresária ou um family office tem suas metas e compromissos em garantir a segurança e continuidade daquele patrimônio, mas cada vez mais surge também a preocupação com o tipo de legado que gostaria de deixar para as próximas gerações. Nesse sentido, acreditamos que ao aplicar a lente de inovação nas ações de filantropia, ela pode ser uma grande aliada do investimento de risco em negócios de impacto, gerando benefícios para as pessoas e o planeta desde o início da jornada.

    O Quintessa apoia famílias, investidores, institutos e empresas a começarem ou aprimorarem a agenda de inovação com impacto positivo. Se este conteúdo fez sentido para você e gostaria de entender melhor como podemos apoiar sua família ou organização nesta agenda,  deixe uma mensagem e entraremos em contato.


    Para se aprofundar:

  • Fusões com negócios de impacto revelam maturidade das startups e avanço de novos negócios integrados à ESG

    Fusões com negócios de impacto revelam maturidade das startups e avanço de novos negócios integrados à ESG

    No primeiro semestre deste ano, o ecossistema brasileiro de startups realizou 134 M&As (fusões e aquisições), e os investimentos de empresas nas startups têm crescido. Companhias como o Magalu, que adquiriu 22 startups nos últimos 18 meses, mostram como o investimento ou a compra desse tipo de empresa é uma estratégia cada vez mais presente para acelerar a inovação nas grandes corporações, seja para oferta de novos produtos e serviços, aumento de eficiência e celeridade na solução de desafios ou para entrada em novos mercados, entre outros motivos.

    Com a relevância crescente do tema ESG, os investimentos, fusões e aquisições movimentaram o campo das startups de impacto positivo. 

    Além disso, a movimentação também é impulsionada pela ampliação da prática de inovação aberta e pelo fato das startups estarem integradas à agenda de novos negócios das corporações, complementando e trazendo inovação para seu portfólio de produtos e serviços. 

    Vimos recentemente a startup Eduqo ser 100% adquirida pela Arco Educação por R$ 30 milhões, após quadruplicar de tamanho na pandemia com seu sistema digital de gestão de aprendizagem personalizada. A Arco já havia adquirido em 2020 a startup de impacto Nave à Vela, que leva a cultura maker e o currículo de inovação e desenvolvimento de competências socioemocionais para as escolas, mas não teve o valor divulgado. 

    As duas startups foram aceleradas pelo Quintessa, aceleradora pioneira no ecossistema de impacto. O Quintessa também revelou outros casos, como o da Boomera, que é referência em gestão de resíduos e economia circular, e que teve 50% adquiridos pela Ambipar em junho deste ano. A Ambipar não abriu o valor investido, mas noticiou grande sinergia com o trabalho de transformação dos resíduos plásticos pós-consumo em matéria-prima e com a rede de mais de 500 cooperativas de catadores e 8 mil cooperados da startup.

    Ainda no segmento de economia circular, temos o caso da GrowPack, que desenvolveu uma tecnologia para embalagens biodegradáveis feitas a partir de resíduos agrícolas, e que recebeu aporte da Ambev como capital semente e compromisso de comprar seus produtos em grande quantidade, trazendo tração comercial e escala na esteira das metas de sustentabilidade da gigante de bebidas.

    No meio financeiro, não só as fintechs estão nos holofotes. O Nubank anunciou um aporte na {Parças}, startup que ensina programação para ex-detentos e pessoas em situação de extrema vulnerabilidade social com o objetivo de inclusão no mercado de trabalho. Parte dos compromissos com diversidade do banco digital, a expectativa da startup é de que em 15 anos todas as penitenciárias brasileiras sejam uma célula de transformação e qualificação profissional.

    No mundo das healthtechs, a Notre Dame anunciou um investimento de R$ 10 milhões na NeuralMed, startup que oferece soluções para otimizar o tempo de atendimento e a assertividade das decisões médicas por meio de Inteligência Artificial. Temos ainda o caso da Techbalance, startup que desenvolve soluções para a prevenção, cuidado e acompanhamento de risco de quedas e lesões, que recebeu R$ 2 milhões da Shift, empresa especializada em tecnologia para medicina diagnóstica e preventiva. 

    É certo que os investimentos e aquisições envolvendo startups de impacto tiveram um boom no último ano, “Mas, já havia um movimento acontecendo por conta da ampliação da prática da inovação aberta e pelo amadurecimento da visão das empresas para a sustentabilidade e para novos negócios mais inovadores e conectados ao futuro”_, aponta Anna de Souza Aranha, diretora do Quintessa. “Em 2018, a E-moving, startup de aluguel de bicicletas elétricas, recebeu aporte da Movida, trazendo para o portfólio da empresa de aluguéis de carros uma solução sustentável, e em 2019, a Courri, que é pioneira na logística urbana com bicicletas, foi adquirida pelo grupo B2W (Lojas Americanas), trazendo uma solução mais eficiente e limpa para sua operação, por exemplo”.

    Esse movimento mostra que as startups estão atingindo um bom nível de maturidade, explica Anna. “Para receber investimento, elas precisam estar preparadas para um processo de diligência e avaliação. O que temos visto não são casos isolados, e sim um movimento relevante do mercado, que está reconhecendo a parceria com as startups de impacto como uma grande oportunidade de negócio”, afirma.

    O Quintessa já mapeou mais de 4 mil startups de impacto no Brasil e tem se mostrado um celeiro dos grandes cases do setor no Brasil. Das startups mencionadas nos casos recentes de M&As e investimentos, apenas a GrowPack não faz parte do portfólio da aceleradora, já a Ambev, investidora da startup, é parceira do Quintessa no programa de aceleração corporativa.

    Para Anna, há diversos caminhos para se implementar de forma unificada as agendas de inovação e sustentabilidade, e o histórico já mostra que a conexão com startups de impacto por meio de inovação aberta, programas de aceleração, contratação de suas soluções, investimentos e aquisições têm trazido grandes resultados, promovendo inovação, novos negócios e acelerando as metas e compromissos em ESG das empresas. 

    “Com o avanço das agendas de inovação, novos negócios e ESG dentro das grandes empresas, a tendência é que os M&As de impacto também cresçam. Por isso, é importante preparar os empreendedores dos negócios de impacto para isso, como temos feito nos últimos anos, e facilitar e qualificar sua conexão com as grandes companhias que vem trabalhando na transformação para a nova realidade que desejamos construir”, conclui a executiva.

  • O que a Terraformation nos ensina sobre investimento em cleantechs

    O que a Terraformation nos ensina sobre investimento em cleantechs

    Rodada de USD 30 MM de uma startup de impacto ambiental desafia critérios clássicos de investimento em startups

    Venture Capital (VC) é considerado um business estatístico: de 200 startups que são financiadas pelos principais VCs do mundo, apenas 15 delas geram quase todo o retorno econômico desses fundos, aponta levantamento do CFI. Esta modalidade de investimento consiste na compra de equity (participação acionária) de empresas emergentes. Ao virar sócio, a aposta é a valorização das ações e sua realização em uma possível saída (vendendo essa participação para outro investidor ou via IPO).

    Por estar inserido em um contexto de tanto risco, a tese de investimento da maioria dos fundos de VC tende a seguir alguns parâmetros de mercado. Esses parâmetros delimitam o risco que os investidores estão confortáveis em comprar: captable (composição acionária dos sócios) coerente com a rodada, time de fundadores com experiência, mercado com tamanho suficientemente grande e potencial de escala são algumas das premissas clássicas de investimento.

    Assim, não é novidade que a maioria dos investidores de risco priorizam startups que são digitalmente escaláveis.

    Quanto mais rápido a empresa crescer, maior sua valorização em um determinado período. Não é apenas sobre priorizar modelos inovadores com propostas de valor sólidas. É também sobre garantir que a startup cresça exponencialmente utilizando o mínimo de ativos possíveis neste ganho de escala.

    À primeira vista, pode-se enxergar estes critérios de investimento de risco com muita sinergia com as startups de impacto. Elas possuem soluções que resolvem tanto demandas de mercado como problemas socioambientais críticos para a sociedade, assim, expandir a operação de maneira rápida significa dar potência a soluções de problemas reais de forma eficiente. Seguindo esta lógica, escalar a operação da empresa significa aumentar o impacto gerado.

    No entanto, apesar desta tese ser verdade para uma parcela das startups de impacto, nem todo problema crítico que estamos vivendo pode ser solucionado apenas por soluções digitalmente escaláveis. Ao colocar esse critério como premissa, abre-se mão de um grande volume de potenciais cases. Por exemplo, startups que trazem soluções robustas para superar desafios complexos (o que leva a um tempo de crescimento menos acelerado e em geral, a abordagens mais profundas e menos escaláveis).

    A grande maioria de startups de impacto ambiental se propõe a enfrentar desafios complexos. Em muito dos casos, contam com uma operação de economia real: problemas como acesso à energia renovável, eficiência na reciclagem ou tratamento de resíduos muitas vezes precisam ser resolvidos por operações que demandam investimentos em painéis solares, frotas logísticas e estações de tratamento, ou seja, são estratégias de investimento intensivas em ativos. Não por isso deixam de trazer elementos de inovação para solucionar problemas reais ou de ter menor capacidade de resolvê-los em escala.

    É neste cenário que a notícia do primeiro round da Terraformation causa um misto de curiosidade para o mercado e esperança para empreendedores comprometidos com a pauta ambiental. Fundada pelo ex-CEO da Reddit, Yishan Wong, a Terraformation visa ajudar as organizações a compensar suas próprias emissões de carbono. Auxiliando no financiamento, planejamento de projetos, consultoria e desenvolvimento de tecnologia, a meta da empresa é restaurar três bilhões de acres de ecossistemas florestais nativos globais.

    Este é um trecho da coluna de Anna de Souza Aranha, diretora do Quintessa, no Um Só Planeta. Este texto foi escrito em co-autoria com Fabiana Goulart.

    LEIA O TEXTO COMPLETO NO UM SÓ PLANETA

  • Investimentos ESG e de Impacto: qual a diferença?

    Investimentos ESG e de Impacto: qual a diferença?

    ESG e investimentos de impacto têm ganhado espaço nos últimos anos e meses, mas apesar de terem um princípio em comum, é importante esclarecer que são conceitos distintos. 

    Os dois conceitos partem do mesmo princípio – de que não basta apenas gerar retorno financeiro, mas é preciso considerar o efeito gerado pelo investimento. Ambos estão dentro de uma camada mais ampla de investimentos responsáveis.

    Diferenciando os dois conceitos

    Os investimentos que levam em conta a análise dos fatores ESG têm um olhar mais focado no “como” a empresa opera, se tem práticas nos aspectos ambiental (E), social (S) e governança (G) que geram impacto positivo ou negativo. 

    Os investimentos de impacto tem foco no “por que” e “o que” a empresa faz, ou seja, se o seu core business (sua atividade principal) resolve desafios sociais e ambientais.

    Enquanto investimentos ESG têm uma abordagem para identificar riscos não-financeiros que podem afetar o valor do ativo, sendo parte de um processo de análise, os investimentos de impacto dizem sobre o tipo de investimento que o(a) gestor(a) está buscando e sua intencionalidade.

    Fazendo uma analogia simples: ao fazer um investimento ESG, eu posso aportar recursos em uma empresa que vende um iogurte comum, mas com práticas adequadas em termos  sociais, ambientais e de governança – por exemplo, com uma correta destinação dos resíduos da produção e uma justa remuneração dos produtores de sua cadeia produtiva. Ao fazer um investimento de impacto, seria preciso escolher, por exemplo, uma empresa que tem foco em mudar o cenário de subnutrição, com um iogurte reforçado com vitaminas e um preço acessível à população que enfrenta a subnutrição – tendo em seu core business o foco em resolver um desafio social e ambiental.

    Podemos dizer que o ESG é um “guarda-chuva” mais amplo.

    O investimento com foco em ESG, além do retorno financeiro, busca também, em primeira instância, mitigar riscos ambientais, sociais e de governança para proteger valor, ou ainda, adotar práticas positivas nestes três âmbitos, para aumentar seu valor. 

    Os investimentos de impacto possuem um foco distinto, pois têm a intenção e o foco em soluções para os desafios sociais e ambientais, por meio das atividades core das empresas investidas.

    investimento de impacto
    Fonte da imagem: Aliança pelos Investimentos e Negócios de Impacto – https://aliancapeloimpacto.org.br/

    A expectativa de retorno sobre os investimentos de impacto varia bastante de acordo com o perfil dos investidores, e podem ser mais ou menos competitivas, como vemos nos três quadros da imagem acima. 

    Segundo o relatório ‘Investimento de Impacto na América Latina’, elaborado a cada dois anos pela Aspen Network of Development Entrepreneurs (Ande), dos 28 investidores respondentes, quase metade espera taxas alinhadas às de mercado, enquanto uma parcela menor aceita taxas um pouco inferiores. Os 11 investidores, que respondem por menos de US$ 100 milhões, fazem alocação com intenção de preservar capital. 

    Fonte da imagem: Aspen Network of Development Entrepreneurs (Ande) – Investimentos de Impacto na América Latina Tendências 2018 & 2019

    O que são os investimentos ESG

    Os investimentos ESG (ASG, em português) são aqueles que consideram os fatores ambientais, sociais e de governança na análise e no processo de tomada de decisão. Com uma análise mais ampla se comparada à dos investimentos tradicionais, é frequentemente utilizada como uma forma de se melhorar o desempenho financeiro.

    Segundo o CFA Institute, cada letra refere-se a:

    E – Ambiental (Environmental, em inglês) | Medida da conservação do mundo natural, que inclui os esforços relacionados às mudanças climáticas, emissões de gases de efeito estufa, poluição, biodiversidade, gestão de resíduos e efluentes, etc.

    S – Social | Medida da consideração das pessoas e sua relação com a empresa, como satisfação do consumidor, engajamento dos funcionários, diversidade, relação com comunidades, proteção de dados, relações de trabalho, etc.

    G – Governança | Medida dos padrões de gestão de uma empresa que tratam da composição do conselho de administração, estrutura dos comitês de auditoria e fiscal, processos para evitar corrupção, ouvidoria, etc.

    O termo foi cunhado em 2005, no Estudo chamado “Quem se importa vence.” realizado pelo Pacto Global.

    O ESG não é um produto ou classe de ativos, é um critério de análise e um novo olhar na decisão por um investimento.

    Existe a separação em investimentos que são “mitigadores de risco”, impactando a análise e diligência na decisão de investimento, e outros que são focados em “oportunidades positivas”, buscando proativamente o progresso dentro dos três pilares. 

    Cada vez mais há dados que mostram que os investimentos focados em oportunidades de progresso são mais rentáveis a longo prazo, por correlações, por exemplo, entre a busca da redução das emissões de carbono e a redução de custos com energia, entre uma maior diversidade entre o time e uma maior produtividade, retenção e engajamento deste time, e mesmo entre uma maior geração de valor e fidelização dos clientes.

    Cada vez mais vemos grandes empresas emitindo dívidas vinculadas a metas de descarbonização, com a identificação como ESG. São exemplos as captações da Sicredi e da Fazenda da Toca, e mesmo fundos que se identificam desta maneira, como o da Plural Asset. Ao mesmo tempo, é comum a discussão sobre a adequação ou não dessa identificação, como o caso da dívida emitida pela Via, o que convoca ao cuidado neste tipo de análise.

    O que são os investimentos de impacto

    Os investimentos de impacto são aqueles que têm a intencionalidade clara de gerar impacto social e/ou ambiental de forma mensurável, além do retorno financeiro (GIIN – Global Impact Investors Network). 

    O termo surgiu em 2010, no relatório do JP Morgan “Impact Investments: an emergent asset class”, que incluiu a lente dos impactos sociais e ambientais positivos além do retorno financeiro.

    Os investimentos de impacto são então os investimentos feitos em negócios e soluções empreendedoras com intencionalidade clara de resolver um desafio social ou ambiental, como a melhoria da educação, acesso à saúde, gestão de resíduos, fontes de energia renovável, entre outros, ao mesmo tempo que geram retorno financeiro – os chamados negócios de impacto. 

    Os 17 Objetivos do Desenvolvimento Sustentável (ODS), os quais estão por trás da Agenda 2030, são comumente usados como base para fundamentação sobre a relevância do desafio que se busca superar.

    No conceito sistematizado pela Aliança pelos Investimentos e Negócios de Impacto, negócios de impacto são “empreendimentos que endereçam problemas socioambientais por meio de sua atividade principal e atuam de acordo com a lógica de mercado, com um modelo de negócio que busca retorno financeiro” e possuem essas quatro características principais:

    – Intencionalidade de resolução de um problema social e/ou ambiental;

    – Solução de impacto é a atividade principal do negócio;

    – Busca de retorno financeiro, operando pela lógica de mercado;

    – Compromisso com monitoramento do impacto gerado.

    Pelo foco explícito na geração de impacto, muitas vezes os investidores se distanciam desses negócios por enxergá-los próximos ao terceiro setor e ações de filantropia. O que diferencia os negócios de impacto das ONGs é a busca de retorno financeiro e a geração de impacto atrelada à geração de receita pela venda de produtos e serviços, além da possibilidade de poderem distribuir dividendos, o que os torna capazes de oferecer retorno aos investidores com os mesmos parâmetros de mercado de startups tradicionais, por exemplo.

    Qual o cenário dos investimentos de impacto no Brasil?

    No final de 2019 os investimentos de impacto no Brasil somavam US$ 785 milhões, mais que o dobro de dois anos antes (US$ 343 milhões).

    O GUIA 2.5, realizado pelo Quintessa, já mapeou 19 iniciativas de investimento em negócios de impacto no ecossistema brasileiro. Além das iniciativas que trabalham com a modalidade de investimento de risco (Venture Capital), temos também iniciativas de empréstimos com foco em impacto.

    Fonte: guiadoisemeio.com.br

    As organizações de desenvolvimento dos negócios, como aceleradoras e incubadoras, têm papel fundamental para desenvolver e preparar os negócios para crescer e estarem maduros para receber os investimentos de risco, qualificando esse pipeline.

    Quem está investindo em ESG e impacto?

    As grandes gestoras de investimento têm liderado a “pressão” nas empresas por adequações e adoção de melhores práticas ambientais, sociais e de governança. Temos importantes declarações de Larry Fink, da BlackRock, ou da Goldman Sachs, que não fará o IPO de empresas sem a participação de mulheres no conselho. 

    Por outro lado, a participação da sociedade e a decisão “mais consciente” de onde alocar os seus recursos também está crescendo. Não é mais novidade a mudança na tomada de consciência das pessoas, especialmente as novas gerações, sobre as questões sociais e ambientais. Não só em busca de incentivar e consumir de empresas ‘responsáveis’, existe um crescente interesse em alinhar também seus investimentos a seus valores pessoais. 

    Em uma pesquisa de 2014, somente 47% das pessoas acima de 69 anos acreditavam que é possível obter retornos financeiros ao investir em negócios de impacto. Já para os millennials, esse número salta para 73% (US Trust Insights on Wealth and Worth, 2014).

    O mercado já tem se movimentado para atender esse público, como a notícia recente da Fama Investimentos, que reduziu a aplicação mínima no fundo de ESG para mil reais. Segundo a gestora, a tese dialoga com o público mais jovem, com menor poder aquisitivo, mas que tem buscado esse alinhamento. Outro exemplo é a frente de empréstimo coletivo da Sitawi, com tíquetes iniciais acessíveis.

    Temos observado o mesmo interesse por parte dos family offices. Existe cada vez mais o desejo de se alinhar e aplicar os valores da família nas suas decisões de investimento, deixando um legado mais consistente de seus recursos.

    Para trazer uma ordem de grandeza, segundo o JP Morgan, os investimentos ESG ultrapassaram US$ 45 trilhões em 2020 (90% na Europa e Estados Unidos), enquanto isso, o relatório de 2019 da GIIN estimou que o mercado de investimentos de impacto está em US$ 502 bilhões. Debates e visões do mercado também são animadoras e otimistas quanto ao potencial de rentabilidade dos investimentos ESG e de impacto.

    A tendência é de cada vez mais crescimento, visibilidade e capital para a solução dos nossos maiores desafios sociais e ambientais. Visto por muitos como a “nova moda”, nós acreditamos que ela não é passageira, e que no futuro próximo, o que é visto hoje como ‘investimento tradicional’ será visto como exceção.

    Assim, é importante que você esteja preparado(a) para identificar, analisar e investir nestes diferentes tipos de investimento, os quais vemos como complementares.


    Sugestões de leituras complementares: