opinião – Paula Leite https://homolog.quintessa.org.br My WordPress Blog Thu, 10 Feb 2022 17:31:47 +0000 pt-BR hourly 1 https://wordpress.org/?v=6.8.2 Como famílias empresárias podem atuar com negócios de impacto https://homolog.quintessa.org.br/2022/02/10/familias-empresarias-family-offices-negocios-de-impacto/ Thu, 10 Feb 2022 17:31:47 +0000 http://blog.quintessa.org.br/?p=1002 E por que seu engajamento pode ser fundamental para o avanço do setor

Os family offices, estruturas que administram o patrimônio de famílias empresárias e pessoas físicas de alta renda, já se aproximaram do ecossistema de empreendedorismo e das startups e são hoje uma alternativa para empreendedores que buscam investimento de venture capital. 

Agora, começam a se aproximar também do ecossistema de impacto. O report da INEO de 2020 mostrou que as famílias empresárias têm se mostrado cada vez mais engajadas nas temáticas de filantropia, ESG e investimentos de impacto, impulsionadas pelas movimentações do mercado e pela visão das novas gerações que assumem a gestão.

47% das famílias entrevistadas pretendem alocar entre 1 e 10% de seu portfólio em investimentos de impacto, e 12% pretende alocar de 11 a 50%. Além disso, 26% aumentou seu envolvimento com filantropia na pandemia.

Por outro lado, a pesquisa aponta também os desafios em transformar esse engajamento em prática e investimento de fato: mais de 70% das famílias não conhecem o impacto social e ambiental dos ativos que investem, olhando apenas o retorno financeiro, e 35% dos entrevistados ainda não começaram a estudar o tema.

O cenário é típico de transição: há intenção de avanço na atuação da temática, mas ainda é o momento de compreender como isso pode acontecer na prática. O lado bom disso é que, não havendo um único caminho correto possível, há diversas maneiras de se engajar e promover esse avanço.

Enxergamos como essencial o engajamento desse ator dentro do ecossistema de impacto. Nos últimos anos, vimos o engajamento de empresas e governo nele, mas sabemos que estes segmentos tendem a ser direcionados por metas de curto prazo. As famílias empresárias, com maior autonomia sobre a alocação de seu patrimônio e o olhar para o legado positivo que as gerações geram, podem trazer um capital estruturante e de longo prazo para compor o setor.

Além disso, essas famílias costumam poder aportar não apenas recursos, mas apoios não financeiros de alto valor, como conhecimento de negócios (para mentorias) e conexões qualificadas com o mercado, entre outros.

Como então as famílias empresárias podem incrementar e aprimorar sua participação no ecossistema de impacto? 

Já faz alguns anos que nos relacionamos com investidores ‘pessoa física’, famílias e family offices, principalmente com um olhar de investimento anjo nas startups de impacto. Recentemente, as possibilidades têm se expandido. 

Por um bom tempo optamos por não olhar para o bolso da filantropia, pois nossa grande batalha era mostrar que negócios de impacto poderiam gerar retorno financeiro positivo. De fato, conseguimos consolidar isso, com vários negócios de impacto da nossa rede que estão sendo investidos e adquiridos por grandes fundos e empresas, como a Boomera e a Ambipar, Courri com a Americanas, entre outros cases. (Caso não conheça o conceito de negócios de impacto, conheça aqui).

A questão é que se estes negócios não tivessem alcançado um estágio maduro como empresa, isso nunca teria acontecido e é no apoio a esses negócios que o capital filantrópico faz muito sentido e pode ser um ponto de partida para a atuação das famílias. Um capital filantrópico paciente e estruturante para viabilizar o desenvolvimento dos negócios de impacto, mais aderente ao risco e precedente ao bolso de venture capital (VC).

Vale ressaltar que a grande maioria das famílias sempre atuou com impacto na linha da filantropia, realizando ações e doações pontuais ou até recorrentes para diversas organizações do terceiro setor. O que queremos apresentar é a inovação como uma lente para a filantropia, com o objetivo de ampliar o impacto dessa doação de forma mais perene, sustentável e com potencial de multiplicação, por meio dos negócios de impacto. 

Nosso entendimento é que uma atuação não substitui a outra e são complementares. Dentro do espectro do capital, há os diversos “tons de cinza” a serem preenchidos, desde a filantropia mais tradicional, o venture philanthropy, o investimento anjo, o investimento de VC para estágios iniciais, o private equity, e assim em diante. Para cada tipo de capital, há um escopo específico de negócios de impacto e projetos que se adequa, sendo a atuação com esses diversos bolsos uma estratégia de diversificação de portfólio e abrangência de atuação das famílias.

Um case muito interessante a ser estudado é de Puerto Asis Investiments, na Argentina. Tendo os 17 ODS como base (Objetivos de Desenvolvimento Sustentável, formulados pela ONU em 2015), são uma plataforma de investimentos com propósito que opera através de diferentes estratégias em um espectro contínuo de capital. 

As variações dentro do espectro analisam aspectos como:

  • Retorno financeiro: retorno de mercado x “Impact first” x sem retorno financeiro
  • Nível de risco 
  • Foco de impacto: mitigação de impacto negativo x potencialização de externalidades positivas x contribuição para solução de desafios sociais e ambientais

Entre a variação desses aspectos, as respostas variam entre:

  • Mandatos de investimento: private equity x venture capital x filantropia
  • Estágio das investidas: empresas maduras x startups x projetos
  • Estratégias: investimento responsável x investimento sustentável x investimento de impacto x venture philanthropy x investimento social x bens públicos 

Neste texto que publicamos anteriormente você pode se aprofundar mais sobre os tipos de capital. Há ainda o viés de estruturações “blended”, que mesclam distintos tipos de capital em uma mesma operação, mas no qual não nos aprofundaremos aqui.

Como isso acontece na prática?

Aqui focaremos no conceito de Venture Philanthropy, que, de forma simplificada, pode oferecer capital filantrópico e apoio não financeiro para o negócio de impacto amadurecer a ponto de se tornar um investimento futuro. Falamos mais sobre esse conceito aqui, que pode ser aplicado tanto pelas famílias quanto por fundos de investimento.

Replicando o conceito: “Venture Philanthropy trabalha para fortalecer as organizações sociais, fornecendo-lhes recursos financeiros e apoio não financeiro, a fim de aumentar seu impacto social. A metodologia é baseada na aplicação de princípios de capital de risco, incluindo investimento a longo prazo e apoio prático. As principais características incluem: Financiamento sob medida (escolhendo os instrumentos financeiros mais adequados a fim de apoiar a organização – grant, dívida, equity e instrumentos financeiros híbridos); Apoio organizacional (serviços de apoio com valor agregado a fim de fortalecer a resiliência organizacional e a sustentabilidade financeira); Medição e gerenciamento de impacto (medição e gestão do processo de criação de impacto social, a fim de maximizar e potencializar impacto)”. 

Aqui no Quintessa já realizamos algumas iniciativas diferentes junto a investidores e famílias:
  • Family offices: Plataforma Negócios pelo Futuro

Em 2020 executamos a iniciativa da Plataforma Negócios pelo Futuro com dois family offices, no objetivo de ampliar a oferta de soluções de negócios de impacto que pudessem contribuir com soluções no contexto de pandemia. A Provence Capital e a Península investiram, de seu bolso de filantropia, R$ 650 mil em três startups de impacto, sendo parte do valor destinado à contratação de seus serviços, para que pudessem ser oferecidos à população e gerassem impacto positivo aos beneficiários na ponta, e parte à aceleração e acompanhamento dos negócios pelo Quintessa. 

Um dos negócios foi a Parças Developers School, que forma e emprega egressos do sistema prisional na área de tecnologia. Além de receberem um capital filantrópico para oferecer o curso a mais alunos (e inclusive usaram parte do dinheiro para comprar cestas básicas a estes jovens), receberam uma aceleração de 8 meses do nosso time para estruturar a gestão e o modelo de negócio, o que permitiu que ao fim do processo, o Nubank investisse na startup. Desde então o impacto só vem aumentando e mostra como o capital filantrópico não só apoiou os beneficiários como viabilizou a aceleração do negócio, que, já mais maduro, pôde acessar o recurso de investimento e ganhar escala, multiplicando o impacto gerado de forma perene.

  • Pessoas físicas: Sponsorship Quintessa

Em 2018 criamos o Sponsorship Quintessa, programa em que investidores financiaram uma aceleração do Quintessa para algumas startups de impacto. O objetivo foi a geração de pipeline, impulsionando o crescimento do negócio e preparando-os para um investimento ao final da aceleração – além do que já mencionamos sobre conhecer melhor os empreendedores para mitigar riscos na futura sociedade, o que fez muita diferença ao final do processo. 

  • Famílias e pessoas físicas: Jornada de Venture Philanthropy

Este programa foi criado em 2021 para pessoas físicas e famílias empresárias, em forma de uma jornada de 8 a 15 meses abrangendo três objetivos: gerar impacto positivo (seja pela atividade fim dos negócios, seja por promover o desenvolvimento do ecossistema), gerar aprendizado prático e vivencial em investimento de impacto, e gerar pipeline qualificado para potencial investimento posterior.

Os participantes são o Instituto Helda Gerdau e Associados do ICE.

Além de apoiar financeiramente o desenvolvimento de startups de impacto positivo por meio de uma aceleração do Quintessa para os negócios, incluímos momentos de capacitação, mentoria, conexões de valor e networking. Uma das vantagens nesse formato é promover também a troca entre as famílias e os investidores, que compartilham seus aprendizados e reflexões sobre a atuação na temática.

Seguindo o formato que realizamos na Jornada, entendemos que pessoas físicas de alta renda (investidores) e famílias empresárias/family offices podem atuar com negócios de impacto em três principais objetivos:
  • Desenvolvimento do ecossistema de impacto

Quando falamos dos negócios de impacto, segundo o levantamento do Mapa de Negócios de Impacto do Brasil, 70% deles não tem faturamento ou faturam menos de 100 mil ao ano, estando a maior parte deles em estágio inicial. 

Além disso, quando lançamos o GUIA 2.5, ficou nítida também a necessidade de apoio por parte das aceleradoras, que sozinhas na responsabilidade financeira de promover o apoio aos empreendedores, não conseguem fomentar o desenvolvimento de todo o ecossistema. 

Com cada vez mais capital de risco chegando no ecossistema, focado em investimento de impacto, o pipeline de negócios qualificados não tem aumentado na mesma proporção para poderem receber esses aportes, havendo um gap de capital não alocado por falta de pipeline de negócios maduros que possam receber ele. É necessário então um capital mais paciente que possa apoiar no desenvolvimento dos negócios até atingirem um nível de maturidade para receber investimentos.

Sendo assim, a doação por parte das famílias para apoiar o desenvolvimento do ecossistema de impacto tem um poder de multiplicação muito forte: ao apoiar um negócio de impacto no início, ao ele entregar seus produtos/serviços e crescer, ele impacta positivamente milhares de pessoas. Assim, o impacto se dá não apenas pelo desenvolvimento do ecossistema, mas também pela geração de impacto positivo na ponta, aos beneficiários.

  • Aprendizado prático

Apoiar os empreendedores de impacto é uma forma de experimentar e vivenciar o ecossistema de impacto na ponta. Consumir conteúdo, participar de eventos e palestras é importante, mas atuar diretamente no dia a dia empreendedor, entender seus desafios e conhecer seus beneficiários é uma forma de aprender e refletir sobre quais são as reais necessidades de apoio e como cada um deseja participar do ecossistema para potencializar essa geração de impacto. Há diversos “tons de cinza” dentro do setor 2.5 e aprender na prática sobre a diferença entre cada negócio, de estágios diferentes, é a melhor forma para se preparar para gerir bem seus vários tipos de capital.

  • Formar pipeline de investimento

O terceiro objetivo é formar um pipeline qualificado de startups de impacto e poder ‘trocar de bolso’, investindo por meio de capital de risco. Além disso, é uma oportunidade de se relacionar com os fundadores, entender sinergias e alinhamento de valores para uma futura sociedade. É com o bolso da filantropia que viabiliza a aceleração dessas startups e a imersão nesse relacionamento que se pode encontrar bons potenciais investimentos antes que eles cheguem ao mainstream do mercado de investimentos e mitigar o risco de uma decisão de alocação baseada apenas em reuniões e apresentações. Assim, pode-se ver não como uma “doação a fundo perdido”, mas como um investimento paciente e de longo prazo que garante uma futura boa alocação do bolso de VC.

Por fim, é importante dizer que esse tipo de recurso é mais adequado para apoiar o ecossistema e os negócios em estágio inicial, mas já são muitas as startups de impacto madura em rodadas mais avançadas de investimento de risco.

O grande papel do bolso do venture philanthropy pode ser poder priorizar o tipo de ajuda que aquele negócio precisa, injetar capital adequado e apoio não-financeiro, para poder destravar outros tipos de investimento.

Uma família empresária ou um family office tem suas metas e compromissos em garantir a segurança e continuidade daquele patrimônio, mas cada vez mais surge também a preocupação com o tipo de legado que gostaria de deixar para as próximas gerações. Nesse sentido, acreditamos que ao aplicar a lente de inovação nas ações de filantropia, ela pode ser uma grande aliada do investimento de risco em negócios de impacto, gerando benefícios para as pessoas e o planeta desde o início da jornada.

O Quintessa apoia famílias, investidores, institutos e empresas a começarem ou aprimorarem a agenda de inovação com impacto positivo. Se este conteúdo fez sentido para você e gostaria de entender melhor como podemos apoiar sua família ou organização nesta agenda,  deixe uma mensagem e entraremos em contato.


Para se aprofundar:

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Reflexões sobre a agenda ESG nas grandes empresas https://homolog.quintessa.org.br/2022/01/13/reflexoes-sobre-a-agenda-esg-nas-grandes-empresas/ Thu, 13 Jan 2022 15:17:11 +0000 http://blog.quintessa.org.br/?p=993 Em 2021, conversamos com mais de 150 grandes empresas e pudemos entender como a agenda ESG está evoluindo dentro delas

Nos últimos anos, e especialmente em 2021, aqui no Quintessa, temos nos dedicado a trabalhar junto a grandes empresas, institutos, fundações, e investidores. Trabalhamos com esses atores nas agendas de inovação, empreendedorismo e impacto positivo, apoiando seu relacionamento com startups de impacto. Todas as semanas, nós conversamos com novas empresas, o que nos dá uma visão muito privilegiada para acompanhar o que está acontecendo no mercado em relação a ESG e inovação para sustentabilidade.

Entendemos junto às lideranças empresariais quais são os temas que estão guiando suas atuações, formas com que têm trabalhado e nível de maturidade de estruturação e cultura voltada para sustentabilidade corporativa. Nesse sentido, somos uma espécie de espectador ativo do crescimento de um mercado que, se tudo der certo (e estaremos trabalhando para isso), irá mudar os contornos do capitalismo como conhecemos hoje.

Em 2021, foram mais de 150 conversas com empresas que, em sua maior parte, têm grande porte em termos de faturamento, muitas delas listadas na bolsa. Os setores foram variados, indo da indústria a serviços, e de segmentos diferentes. Deste lugar que ocupamos, surgem muitas reflexões sobre o setor, e queremos compartilhar algumas que achamos mais valiosas sobre o que vimos no ano que passou.

Momento

Em meados de 2020, a temática ESG emergiu como pauta prioritária dentro das empresas. Aquelas que já priorizavam isso anteriormente se beneficiaram, tendo agilidade em reportar resultados e iniciativas e amortecendo a demanda por novos projetos dentro de áreas de sustentabilidade que já estavam organizadas, com orçamento e cultura empresarial desenvolvida. Para estas, o desafio não foi de criar, mas de avançar. Avançar principalmente em dois sentidos: conectando mais a sustentabilidade ao negócio, de forma integrada à estratégia da empresa em si, e conectando mais a sustentabilidade à área financeira, seja na emissão de títulos e dívidas, seja na integração com áreas de fusões e aquisições e Corporate Venture Capital.

Essas empresas foram exceção.

Parte significativa do mercado não tinha a agenda de sustentabilidade como prioridade, ainda que já pudesse tê-la formalmente em sua estrutura, e começou a se movimentar para abarcar isso na estratégia. O começo foi muito puxado por anúncios e compromissos, muitos deles voltados para a redução e neutralização de emissões relacionadas às mudanças climáticas.

Entendemos que os compromissos fazem parte do caminho, mas desde que anunciados junto com um plano de como a empresa pretende alcançá-los, ou podemos cair em um mero greenwashing. E vale explicitar que grandes empresas não mudam da noite para o dia, e, em alguns casos, precisamos de mais tempo para poder dizer o que é ou não greenwashing, no sentido de enxergar a consistência no tempo.

Este é um trecho da coluna de Anna de Souza Aranha, diretora do Quintessa, no Um Só Planeta. Este texto foi escrito em co-autoria com João Ceridono.

LEIA O TEXTO COMPLETO NO UM SÓ PLANETA 

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Fusões com negócios de impacto revelam maturidade das startups e avanço de novos negócios integrados à ESG https://homolog.quintessa.org.br/2021/11/08/fusoes-com-negocios-de-impacto-revelam-maturidade-das-startups-e-avanco-de-novos-negocios-integrados-a-esg/ Mon, 08 Nov 2021 19:56:53 +0000 http://blog.quintessa.org.br/?p=927 No primeiro semestre deste ano, o ecossistema brasileiro de startups realizou 134 M&As (fusões e aquisições), e os investimentos de empresas nas startups têm crescido. Companhias como o Magalu, que adquiriu 22 startups nos últimos 18 meses, mostram como o investimento ou a compra desse tipo de empresa é uma estratégia cada vez mais presente para acelerar a inovação nas grandes corporações, seja para oferta de novos produtos e serviços, aumento de eficiência e celeridade na solução de desafios ou para entrada em novos mercados, entre outros motivos.

Com a relevância crescente do tema ESG, os investimentos, fusões e aquisições movimentaram o campo das startups de impacto positivo. 

Além disso, a movimentação também é impulsionada pela ampliação da prática de inovação aberta e pelo fato das startups estarem integradas à agenda de novos negócios das corporações, complementando e trazendo inovação para seu portfólio de produtos e serviços. 

Vimos recentemente a startup Eduqo ser 100% adquirida pela Arco Educação por R$ 30 milhões, após quadruplicar de tamanho na pandemia com seu sistema digital de gestão de aprendizagem personalizada. A Arco já havia adquirido em 2020 a startup de impacto Nave à Vela, que leva a cultura maker e o currículo de inovação e desenvolvimento de competências socioemocionais para as escolas, mas não teve o valor divulgado. 

As duas startups foram aceleradas pelo Quintessa, aceleradora pioneira no ecossistema de impacto. O Quintessa também revelou outros casos, como o da Boomera, que é referência em gestão de resíduos e economia circular, e que teve 50% adquiridos pela Ambipar em junho deste ano. A Ambipar não abriu o valor investido, mas noticiou grande sinergia com o trabalho de transformação dos resíduos plásticos pós-consumo em matéria-prima e com a rede de mais de 500 cooperativas de catadores e 8 mil cooperados da startup.

Ainda no segmento de economia circular, temos o caso da GrowPack, que desenvolveu uma tecnologia para embalagens biodegradáveis feitas a partir de resíduos agrícolas, e que recebeu aporte da Ambev como capital semente e compromisso de comprar seus produtos em grande quantidade, trazendo tração comercial e escala na esteira das metas de sustentabilidade da gigante de bebidas.

No meio financeiro, não só as fintechs estão nos holofotes. O Nubank anunciou um aporte na {Parças}, startup que ensina programação para ex-detentos e pessoas em situação de extrema vulnerabilidade social com o objetivo de inclusão no mercado de trabalho. Parte dos compromissos com diversidade do banco digital, a expectativa da startup é de que em 15 anos todas as penitenciárias brasileiras sejam uma célula de transformação e qualificação profissional.

No mundo das healthtechs, a Notre Dame anunciou um investimento de R$ 10 milhões na NeuralMed, startup que oferece soluções para otimizar o tempo de atendimento e a assertividade das decisões médicas por meio de Inteligência Artificial. Temos ainda o caso da Techbalance, startup que desenvolve soluções para a prevenção, cuidado e acompanhamento de risco de quedas e lesões, que recebeu R$ 2 milhões da Shift, empresa especializada em tecnologia para medicina diagnóstica e preventiva. 

É certo que os investimentos e aquisições envolvendo startups de impacto tiveram um boom no último ano, “Mas, já havia um movimento acontecendo por conta da ampliação da prática da inovação aberta e pelo amadurecimento da visão das empresas para a sustentabilidade e para novos negócios mais inovadores e conectados ao futuro”_, aponta Anna de Souza Aranha, diretora do Quintessa. “Em 2018, a E-moving, startup de aluguel de bicicletas elétricas, recebeu aporte da Movida, trazendo para o portfólio da empresa de aluguéis de carros uma solução sustentável, e em 2019, a Courri, que é pioneira na logística urbana com bicicletas, foi adquirida pelo grupo B2W (Lojas Americanas), trazendo uma solução mais eficiente e limpa para sua operação, por exemplo”.

Esse movimento mostra que as startups estão atingindo um bom nível de maturidade, explica Anna. “Para receber investimento, elas precisam estar preparadas para um processo de diligência e avaliação. O que temos visto não são casos isolados, e sim um movimento relevante do mercado, que está reconhecendo a parceria com as startups de impacto como uma grande oportunidade de negócio”, afirma.

O Quintessa já mapeou mais de 4 mil startups de impacto no Brasil e tem se mostrado um celeiro dos grandes cases do setor no Brasil. Das startups mencionadas nos casos recentes de M&As e investimentos, apenas a GrowPack não faz parte do portfólio da aceleradora, já a Ambev, investidora da startup, é parceira do Quintessa no programa de aceleração corporativa.

Para Anna, há diversos caminhos para se implementar de forma unificada as agendas de inovação e sustentabilidade, e o histórico já mostra que a conexão com startups de impacto por meio de inovação aberta, programas de aceleração, contratação de suas soluções, investimentos e aquisições têm trazido grandes resultados, promovendo inovação, novos negócios e acelerando as metas e compromissos em ESG das empresas. 

“Com o avanço das agendas de inovação, novos negócios e ESG dentro das grandes empresas, a tendência é que os M&As de impacto também cresçam. Por isso, é importante preparar os empreendedores dos negócios de impacto para isso, como temos feito nos últimos anos, e facilitar e qualificar sua conexão com as grandes companhias que vem trabalhando na transformação para a nova realidade que desejamos construir”, conclui a executiva.

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O que está faltando e por onde devemos avançar para trabalhar o S do ESG? https://homolog.quintessa.org.br/2021/08/16/o-que-esta-faltando-e-por-onde-devemos-avancar-para-trabalhar-o-s-do-esg/ Mon, 16 Aug 2021 19:11:30 +0000 http://blog.quintessa.org.br/?p=860 Além de tirá-lo da sombra do aspecto E, as empresas e fundos precisam debater o S sob os ângulos que mais importam para a melhoria da nossa sociedade

Para introduzir o assunto, vale começarmos com dados que orientam o nosso olhar sobre o S do ESG:

A imagem abaixo mostra a pirâmide de renda da população (antes da pandemia):

 — Foto: FGV Social a partir de microdados da PNADC e da PNAD/Covid

— Foto: FGV Social a partir de microdados da PNADC e da PNAD/Covid

Esses dados retratam um pouco do triste quadro social do Brasil, marcado por profundas desigualdades.

É claro que esse é um problema que, para ser resolvido, precisa de ações em diversas frentes, e por parte de vários atores: governo, empresas, fundos, ONGs, sindicatos, sociedade civil.

Entre empresas e fundos de investimentos, que são os espaços por onde o Quintessa mais circula no dia-a-dia, vemos, felizmente, um crescimento constante da importância da pauta ESG. No entanto, enquanto o aspecto Environment (Ambiental) é contemplado por inúmeros compromissos de net-zero e similares, as ações e metas para o aspecto Social, em grande parte, ficam em dois campos: (i) aumentar a diversidade no quadro de funcionários e (ii) ações de responsabilidade social.

Em relação ao ponto (i), que tem sido o mais amplamente trabalhado, temos profundo respeito por essa pauta, mas nos parece que ela não é suficientemente capaz de dar uma resposta efetiva em um prazo razoável para os indicadores urgentes que trouxemos no início do texto.

Em relação ao ponto (ii), apesar dessas ações serem essenciais para milhões de pessoas impactadas, elas não fazem com que as empresas gerem desenvolvimento social no seu core (atividade principal).

Em suma: na nossa opinião, se as empresas e fundos querem tratar o S com a seriedade que merece, e que precisamos como sociedade, o foco de ação tem que amadurecer.

Onde deveria, então, estar o foco das empresas e dos fundos ESG?

Vamos trazer algumas perguntas que podem parecer óbvias, mas que são complexas de serem trabalhadas, e que acreditamos serem importantes para levar à construção de um S mais maduro e integrado com o crescimento das empresas.

Este é um trecho da coluna de Anna de Souza Aranha, diretora do Quintessa, no Um Só Planeta. Este texto foi escrito em co-autoria com João Ceridono.

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Quem paga a conta do desenvolvimento de um pipeline de negócios de impacto maduro? https://homolog.quintessa.org.br/2021/07/16/quem-paga-a-conta-do-desenvolvimento-de-um-pipeline-de-negocios-de-impacto-maduro/ Fri, 16 Jul 2021 20:01:01 +0000 http://blog.quintessa.org.br/?p=853 Reflexões sobre caminhos para o amadurecimento do ecossistema

No final de 2019 os investimentos de impacto no Brasil somavam US$ 785 milhões, mais que o dobro de dois anos antes (US$ 343 milhões). Com a ascensão do ESG e o olhar dos investidores para o retorno além apenas do financeiro, a tendência é que ainda mais investimento de impacto seja direcionado para o setor (entenda neste outro texto a diferença de investimentos de impacto e ESG).

A dúvida que vem então é: teremos um volume de negócios maduros suficiente para alocar esse capital?

No Quintessa, temos uma base de mais de 4 mil negócios de impacto e vemos uma parcela relevante que chega até nós ainda não é elegível a entrar em nossos programas de aceleração por estar em um estágio muito inicial, sem conseguir especificar suas hipóteses de modelo de negócio (não é por acaso que nossos primeiros conteúdos foram direcionados para empreendedores em estágio de validação).

3º Mapa de Negócios de Impacto Social+Ambiental, realizado pela Pipe Labo em 2021, mostra que 69% dos negócios mapeados faturam menos de R$ 100 mil por ano ou ainda não faturam.

Outro estudo, também realizado pela Pipe, o Scoring de Impacto, identificou que um dos principais desafios para os investidores de impacto é a “falta de oportunidade de investimento de alta qualidade com bons históricos (track record)” — o que reforça o que enxergamos na prática.

Para deixar claro: estou falando aqui de volume. Não deixemos isso ofuscar a realidade de que sim, existem negócios de impacto maduros, qualificados e que estão acessando capital relevante. Alguns exemplos de Empreendedores Quintessa que podem ser mencionados publicamente: Courri adquirida pela B2W, Boomera investida pela Ambipar, Vitalk com captação de quase R$ 10MiHand Talk com captação de 2.5MiEmoving sendo investida pela Movida, entre outros (conheça aqui).

Trabalhando com as grandes empresas em programas de inovação aberta, na nossa frente de Programas em Parceria, vemos poucos programas direcionados a negócios de estágio de maturidade inicial, dado que isso pode representar risco (no Guia para Inovar com Impacto exploramos com mais detalhes esse elemento).

Assim, se temos capital voltado para investimentos de impacto aguardando negócios maduros e temos negócios iniciais precisando de suporte para amadurecerem fica a pergunta: qual ator deve investir no desenvolvimento de um pipeline de negócios de impacto maduro? Qual tipo de capital pode destravar essa equação, viabilizando este suporte?

No mundo empresarial, falamos sobre o desenvolvimento da cadeia de valor, da remuneração justa de todos os elos da cadeia — e se aplicássemos esse olhar para este assunto? Quem desenvolve a cadeia de valor para o mercado de venture capital brasileiro focado em investimento de impacto?

(Vale mencionar que dou aqui o foco no mercado de investimento e negócios de impacto, mas sabemos que é um desafio muito mais macro, também presente quando falamos de empreendedorismo no Brasil de forma mais ampla).

Este é um trecho da coluna de Anna de Souza Aranha, diretora do Quintessa, no Um Só Planeta.

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Podcast | Hidra Podcast com Anna de Souza Aranha https://homolog.quintessa.org.br/2021/06/09/hidra-podcast-com-anna-de-souza-aranha/ Wed, 09 Jun 2021 20:04:36 +0000 http://blog.quintessa.org.br/?p=791 Conversas com quem cria – e cresce – na incerteza

O Hidra Podcast, de Mariana Fonseca e Pedro Hércules, entrevistou a diretora do Quintessa, Anna de Souza Aranha.

O Hidra número 10 está no ar! E pra vestir a camisa da articulação de jogadas e assistências ninguém melhor que a Anna de Souza Aranha, diretora do Quintessa. O Quintessa é uma das principais aceleradoras de negócios de impacto social e ambiental do país, pelo qual já passaram diversos negócios que são referência para o setor. Eles também tem um programa de captação de investimentos para estes negócios e auxiliam grandes empresas a se aproximarem dos temas ESG (ou, ASG). A conversa foi muito rica e a gente tem certeza que vocês vão curtir. Aperta o play!

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Ouse dar potência à humanidade que existe em você https://homolog.quintessa.org.br/2021/06/03/ouse-dar-potencia-a-humanidade-que-existe-em-voce/ Thu, 03 Jun 2021 15:49:49 +0000 http://blog.quintessa.org.br/?p=781 O que a gente precisa é de gente humana, inconformada, corajosa — e disposta a agir

“ESG”, felizmente, chegou ao mainstream. Cada vez mais há recursos para fundos de investimento de impacto. Contornada por diversos conceitos distintos (como Empresas B, capitalismo consciente, capitalismo de stakeholders, negócios de impacto, entre outros), a ideia de que não basta se satisfazer apenas com o lucro e retorno financeiro gerado chegou.

A ideia de que é preciso olhar além – seja mitigando riscos, adotando práticas alinhadas aos aspectos sociais, ambientais e de governança, ou resolvendo desafios sociais e ambientais a partir da sua atividade principal – começou a furar a bolha. Mas, se ela ainda não chegou para você, por que olhar para ela?

Há três vertentes para racionalizar a resposta. A primeira: pela dor, medo de perder, constrangimento de regulamentações e exigências de consumidores, colaboradores e investidores. A segunda: pela conveniência, inteligência, oportunidade em ganhar ainda mais — fundamentada pelos estudos que demonstram o retorno de investimentos sustentáveis superior aos tradicionais. A terceira, pelo amor, pela convicção, pela consciência – que é a que vou explorar aqui, dada que as demais já foram embasadas antes.

Acho que além das argumentações racionais, às quais estamos viciados como sociedade, há um motivo maior e mais simples. Porque faz sentido. Porque é necessário. Porque se não, não estaremos vivos para podermos operar da forma como operávamos antes. A crise ambiental que vivemos é também uma crise social – seja porque nós somos uma das espécies afetadas por ela, seja porque somos a espécie que está causando ela.

Há algum tempo, como professora no MBA da FIAP, fiz com diversas turmas um exercício muito simples — estimulava a pessoa a refletir sobre seus valores pessoais, entender o quanto estavam alinhados às suas práticas diárias no trabalho e então propor novas práticas ou reforçar outras para poder garantir um maior alinhamento. Tendo visto mais de quase 200 respostas ao exercício, fiquei chocada em ver que elas todas iam para caminhos comuns.

Exemplifico: ouvir o cliente e vender algo que lhe fosse de fato útil, sem ter que vender algo que está vinculado à sua meta, mas que sabe que é ruim para o cliente.

Ter mais espaços de escuta com o time e poder compartilhar aprendizados com outros. Poder unir mais o lado pessoal e profissional, sendo mais transparente sobre o que pensa e sente no ambiente de trabalho. E tantas outras, mais ou menos sofisticadas, nessa linha.

Minha reflexão foi de que parecia que a resposta estava apenas em não atrapalhar as pessoas para que elas pudessem expressar seus valores e sua humanidade, o que já traziam naturalmente dentro de si, sem esbarrar em regras e políticas que impedissem isso.

Quando falamos sobre ESG, acho que há (ou deveria haver) essa mesma reflexão por trás. Podemos pensar de uma forma racional sobre o eixo de “diversidade”, mas não há uma abordagem mais natural, orgânica, humana, na qual podemos chegar nesse eixo simplesmente pensando “não parece estranho que alguns grupos de pessoas não consigam alcançar as mesmas oportunidades que chegam a outros, de forma mais equânime?”.

A mesma coisa para a questão ambiental. Podemos olhar para um eixo ambiental a partir de frames, métodos e políticas, mas também podemos chegar a uma ideia de ação refletindo “não parece justo que eu ajude a regenerar o ecossistema do qual estou extraindo água do lençol freático, pensando que a população local não deveria ser prejudicada pela minha empresa?”. Ou mesmo dentro do viés de “se eu posso beneficiar os pequenos fornecedores que atuam na minha cadeia de valor, convertendo isso em fidelização, produtividade ou qualidade do produto, não parece um desperdício não fazer isso?”.

Algumas ideias que às vezes consideramos geniais e fora da caixa são muitas vezes óbvias, apenas não vistas por termos nos viciado tanto a um certo modo de pensar, enxergar, fazer negócios, que ficam escondidas por trás de nossos pontos cegos.

Este é um trecho da coluna de Anna de Souza Aranha, diretora do Quintessa, no Um Só Planeta

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