Tag: sustentabilidade

  • Live | Empreendedorismo feminino e de impacto social

    Live | Empreendedorismo feminino e de impacto social

    Há 10 anos, quando Anna de Souza Aranha ingressou na aceleradora de impacto Quintessa, a maior parte dos empreendedores que participavam dos programas da instituição eram homens, brancos e de alta renda. Uma relação direta com quem tinha acesso à educação empreendedora, ao capital e rede de apoio para empreender. O cenário, diz ela, vem mudando. “Hoje tem algumas mulheres nos programas de aceleração próprios e de parceiros e também entre as mentoras, diferentemente do que era antes”, disse na Live do Valor, mediada pela repórter Flávya Pereira. O desafio, ela diz, não está resolvido. “Quando a gente olha para programas que rodamos junto com parceiros, vemos que formar turmas equânimes, olhando para gênero, depende muito da indústria.” Mesmo com olhar atento e priorizando a qualidade dos projetos, nem sempre é possível equilibrar a quantidade de startups fundadas por homens e mulheres. “Isso é um incômodo.”

    A live contou também com Lina Useche, cofundadora e CEO da Aliança Empreendedora e  Camila Achutti, fundadora e CEO da Mastertech. Um olhar para o microeempreendedorismo de impacto social e para os desafios de ser mulher e empreender no cenário brasileiro e quais as dicas para quem está começando a sua jornada empreendedora são alguns dos temas tratados na live.

    Assista abaixo:

    Trecho de matéria publicada no Valor Econômico em 24/10/2021

  • Empresas e startups mostram que sustentabilidade é um bom negócio

    Empresas e startups mostram que sustentabilidade é um bom negócio

    Parcerias entre startups de impacto e grandes empresas mostram na prática como integrar sustentabilidade e resultados para o negócio

    Por mais que os temas de impacto socioambiental positivo e ESG estejam ganhando relevância e começando a ser vistos amplamente entre os executivos, percebemos que para muitos ainda é difícil tangibilizar a visão de que ações de impacto positivo e sustentabilidade não devem ser enxergadas como custo e podem ser fonte de novos negócios.

    Na última semana, a Reserva anunciou uma parceria com a Equal, um negócio de impacto especializado em roupas adaptadas para pessoas com deficiência. A Reserva lançou uma linha de roupas adaptadas para esse público, que inclui, por exemplo, ímãs no lugar de botões e zíper na lateral das calças.

    Além da iniciativa promover a inclusão, trazendo liberdade e autonomia para as pessoas com deficiência, a Reserva também amplia o seu mercado, pois milhões de novas pessoas agora irão consumir seus produtos. No Brasil, 45 milhões de pessoas possuem algum tipo de deficiência, o que representa quase 25% de toda a população. Há outros exemplos nesta linha, como a Freeda, que aceleramos este ano e traz peças para pessoas com deficiência ou mobilidade reduzida, como idosos com Alzheimer.

    O mesmo vale para o Magazine Luiza e a Azul, que ao contratarem a Hand Talk, startup de impacto com uma tecnologia que traduz o português para a Língua Brasileira de Sinais (Libras), passaram a ter um site acessível para as mais de 10 milhões de pessoas com algum tipo de deficiência auditiva no Brasil.

    Muitas vezes, o que chamamos de minorias são na realidade maiorias minorizadas. Trata-se de um amplo mercado, com milhões de potenciais clientes que hoje são mal atendidos pelo mercado.

    É o caso quando pensamos em mulheres, pessoas pretas, pessoas de baixa renda. Passar a enxergar esses grupos como potenciais clientes e criar soluções relevantes para eles pode revelar novos mercados ainda não ocupados.

    No Quintessa, temos vivenciado há 12 anos a integração estratégica entre impacto e resultado financeiro e acreditamos que a conexão com as startups de impacto é um caminho rápido e eficaz para criar iniciativas com esse objetivo. A boa notícia é que as empresas já começaram a apostar nas parcerias com startups e não faltam exemplos, como os citados acima, para inspirar demais empresas a fazerem o mesmo.

    Enxergamos quatro principais objetivos para as empresas se conectarem a startups de impacto: integrar impacto positivo à agenda de inovação e novos negócios; trazer as startups para implementar práticas ESG e alcançar metas de sustentabilidade; apoiar startups de impacto nas ações de filantropia, e realizar investimentos, fusões e aquisições.

    Este é um trecho da coluna de Anna de Souza Aranha, diretora do Quintessa, no Um Só Planeta. Este texto foi escrito em co-autoria com Mariana Valle.

  • O que a Terraformation nos ensina sobre investimento em cleantechs

    O que a Terraformation nos ensina sobre investimento em cleantechs

    Rodada de USD 30 MM de uma startup de impacto ambiental desafia critérios clássicos de investimento em startups

    Venture Capital (VC) é considerado um business estatístico: de 200 startups que são financiadas pelos principais VCs do mundo, apenas 15 delas geram quase todo o retorno econômico desses fundos, aponta levantamento do CFI. Esta modalidade de investimento consiste na compra de equity (participação acionária) de empresas emergentes. Ao virar sócio, a aposta é a valorização das ações e sua realização em uma possível saída (vendendo essa participação para outro investidor ou via IPO).

    Por estar inserido em um contexto de tanto risco, a tese de investimento da maioria dos fundos de VC tende a seguir alguns parâmetros de mercado. Esses parâmetros delimitam o risco que os investidores estão confortáveis em comprar: captable (composição acionária dos sócios) coerente com a rodada, time de fundadores com experiência, mercado com tamanho suficientemente grande e potencial de escala são algumas das premissas clássicas de investimento.

    Assim, não é novidade que a maioria dos investidores de risco priorizam startups que são digitalmente escaláveis.

    Quanto mais rápido a empresa crescer, maior sua valorização em um determinado período. Não é apenas sobre priorizar modelos inovadores com propostas de valor sólidas. É também sobre garantir que a startup cresça exponencialmente utilizando o mínimo de ativos possíveis neste ganho de escala.

    À primeira vista, pode-se enxergar estes critérios de investimento de risco com muita sinergia com as startups de impacto. Elas possuem soluções que resolvem tanto demandas de mercado como problemas socioambientais críticos para a sociedade, assim, expandir a operação de maneira rápida significa dar potência a soluções de problemas reais de forma eficiente. Seguindo esta lógica, escalar a operação da empresa significa aumentar o impacto gerado.

    No entanto, apesar desta tese ser verdade para uma parcela das startups de impacto, nem todo problema crítico que estamos vivendo pode ser solucionado apenas por soluções digitalmente escaláveis. Ao colocar esse critério como premissa, abre-se mão de um grande volume de potenciais cases. Por exemplo, startups que trazem soluções robustas para superar desafios complexos (o que leva a um tempo de crescimento menos acelerado e em geral, a abordagens mais profundas e menos escaláveis).

    A grande maioria de startups de impacto ambiental se propõe a enfrentar desafios complexos. Em muito dos casos, contam com uma operação de economia real: problemas como acesso à energia renovável, eficiência na reciclagem ou tratamento de resíduos muitas vezes precisam ser resolvidos por operações que demandam investimentos em painéis solares, frotas logísticas e estações de tratamento, ou seja, são estratégias de investimento intensivas em ativos. Não por isso deixam de trazer elementos de inovação para solucionar problemas reais ou de ter menor capacidade de resolvê-los em escala.

    É neste cenário que a notícia do primeiro round da Terraformation causa um misto de curiosidade para o mercado e esperança para empreendedores comprometidos com a pauta ambiental. Fundada pelo ex-CEO da Reddit, Yishan Wong, a Terraformation visa ajudar as organizações a compensar suas próprias emissões de carbono. Auxiliando no financiamento, planejamento de projetos, consultoria e desenvolvimento de tecnologia, a meta da empresa é restaurar três bilhões de acres de ecossistemas florestais nativos globais.

    Este é um trecho da coluna de Anna de Souza Aranha, diretora do Quintessa, no Um Só Planeta. Este texto foi escrito em co-autoria com Fabiana Goulart.

    LEIA O TEXTO COMPLETO NO UM SÓ PLANETA

  • Diálogos Quintessa | Entrevista com Carolina Pecorari, da Ambev

    Diálogos Quintessa | Entrevista com Carolina Pecorari, da Ambev

    Na terceira edição do Diálogos Quintessa, convidamos Carolina Pecorari, diretora de Sustentabilidade e ESG da Ambev para a América Latina. Falamos sobre as metas de sustentabilidade da Ambev, o processo de definição delas e o papel da inovação aberta e das iniciativas internas para alcançá-las, além de como a sustentabilidade está distribuída em toda a companhia.

    Você pode acessar a entrevista na íntegra em formato de áudio e vídeo, ou na leitura do texto abaixo.

    Como foi a sua trajetória na Ambev e quais suas principais responsabilidades hoje?

    Cheguei na Ambev em 2013 a convite de um amigo, com um frio na barriga de sair do escritório de advocacia em que trabalhava. Comecei como especialista sênior no jurídico corporativo, na área de fusões e aquisições, com o dia a dia societário e contratos. Depois de dois anos nessa área fiz o investimento da Ambev na Cervejaria Wals, e criamos a ZX Ventures, que na época era o braço de inovação da Ambev para fazer testes. Com essa entrega me tornei sócia da Ambev e assumi a gerência regional jurídica SP-SUL, saindo completamente da minha zona de conforto e do que estava acostumada a fazer. Depois fui convidada para uma vaga de Gerente Jurídico e de Relações Corporativas, em que fiquei por quatro anos com muito amadurecimento, crescimento e desafios. Durante esse período tive o meu primeiro filho, e quando ele estava com um ano e meio comecei a me questionar: o que estou fazendo para o mundo que o meu filho vai viver? A famosa busca por propósito. 

    Este momento, em 2018, coincidiu com o anúncio das metas de Sustentabilidade para 2025 da Ambev, em que percebi que para buscar esse propósito não precisaria sair da empresa, poderia fazer uma mudança de área. Já tinha alguns amigos que trabalhavam na área de Sustentabilidade e meus chefes na época sabiam o que eu estava buscando, então comecei a conversar com algumas pessoas, e naquele momento o antigo diretor de Sustentabilidade estava de saída. Só que eu estava grávida de dois meses da minha segunda filha, pensando se já contava ou não (costumo contar após o terceiro mês), e quando conversei com o Rodrigo, meu atual chefe, VP de Sustentabilidade e Suprimentos já estava com cinco meses de gestação, então perguntei sobre isso, que em poucos meses sairia de licença maternidade. Foi muito bacana porque eu testei o ‘walk the talk’, se a companhia estava mesmo comprometida com o que vinha falando, e ele reagiu muito bem, de que não havia problema nenhum, que eu sairia de licença e quando voltasse faríamos as grandes entregas. Voltei da licença no começo da pandemia e já teve bastante coisa que entregamos e que teve bastante reconhecimento.

    Quando eu comecei, a área era Sustentabilidade e Tecnologia para compras, a medida que foi crescendo, assumi empreendedorismo, relacionamento com fornecedores e CVC. No início do ano tiramos a parte de tecnologia da minha responsabilidade porque os assuntos estavam muito grandes e as agendas incompatíveis. Então esses são meus principais desafios hoje.

    06:00 | Quais são as metas de sustentabilidade da Ambev e como foi o processo para a definição delas?

    A sustentabilidade na companhia vem de longa data, antes de sermos Ambev, quando éramos Brahma e Antarctica. Nosso ex-CEO, Carlos Brito, sempre disse que “a sustentabilidade não faz parte do nosso negócio, ela é o nosso negócio”. Então sempre tivemos metas internas com olhar pra dentro de casa, relacionadas à descarbonização, eficiência hídrica, eficiência energética e redução de resíduos. Ao longo do tempo fomos amadurecendo e tendo mais consciência de que a gente fazia parte de um ecossistema muito maior, não só dentro da nossa empresa, nos nossos muros e com nossos funcionários. Começamos a olhar desde o agricultor que planta a cevada, a mandioca e outras matérias primas, passando pelos nossos funcionários, pelos pontos de venda e até os milhões de consumidores, e começamos a perceber que tudo que a gente fazia impactava também e temos esse papel de agir e impactar positivamente, transformando de forma positiva o ecossistema. Em 2018, quando anunciamos nossas metas para 2025, incluímos também o ecossistema. Fomos uma das primeiras empresas a incluir, por exemplo, metas de carbono pensando também na nossa cadeia de valor.

    Nossas metas para 2025 estão divididas em cinco metas globais, sendo uma delas o Empreendedorismo, que incluímos aqui no Brasil, e quatro ambientais:

    • Água: ter 100% das comunidades em áreas de alto estresse hídrico em que operamos com melhoria na qualidade e disponibilidade da água de forma mensurável
    • Agricultura sustentável: ter 100% dos agricultores com os quais nos relacionamos devidamente treinados, conectados e com estrutura financeira para desenvolver o plantio de forma mais sustentável
    • Mudanças climáticas: 100% de nossas operações operando com energia renovável e 25% de redução de emissão de carbono em toda a cadeia (escopos 1, 2 e 3, nossas próprias operações, energia comprada, embalagem, agricultura e logística)
    • Economia circular: 100% das embalagens dos produtos retornáveis ou com conteúdo majoritariamente reciclado
    • Empreendedorismo: 100% dos pequenos e médios empreendedores capacitados e criando valor para o ecossistema com inclusão, inovação e colaboração 

    As metas são grandes guias para nós, mas não nos limitamos a elas. Se enxergamos oportunidades que podemos ir além do que definimos lá atrás e, melhor ainda, que podem beneficiar mais parceiros do nosso ecossistema, lançamos e corremos atrás para alcançar esse novo desafio. Dois grandes exemplos disso, são: o compromisso do plástico, que anunciamos no início deste ano, cujo objetivo é eliminar a poluição plástica das nossas embalagens até 2025, seja através da redução e/ou substituição do uso do plástico nas embalagens, seja usando somente conteúdo reciclado, seja usando novas tecnologias tanto para tornar o plástico reciclável, quanto para biodegradação do plástico sem prejuízo ao meio ambiente, sempre com apoio de parceiros, que incluem fornecedores, cooperativas de reciclagem, startups e universidades. Já reduzimos em um terço a quantidade de plástico usada nas nossas embalagens. Outro grande exemplo foi a solução de estender a iniciativa de abastecer nossas operações com energia solar para os pontos de venda parceiros, como mencionei antes. Temos uma parceria com a startup Lemon, em que apresentamos para os nossos pontos de venda parceiros e eles se conectam a energia renovável, reduzindo o custo de energia de forma sustentável.

    11:20 | Você mencionou que a partir das quatro metas globais, incluíram uma quinta que é Brasileira. Como foi esse processo de “tropicalizar” as metas? Isso aconteceu em outros países também? 

    A gente trabalha muito perto do global, temos reuniões frequentes com eles, que sempre falam que a América Latina é uma inspiração. Pra gente foi muito natural, porque quando lançamos as nossas metas, já tínhamos nossos programas de aumentar a base de fornecedores locais, mais próximos das nossas operações, com a plataforma By Local. Temos um trabalho forte de relacionamento com feiras, procuramos melhorar o relacionamento com os fornecedores, praticando bastante a escuta ativa. Mais recentemente também olhamos para a questão de aumentar a diversidade racial e de gênero nos nossos fornecedores. E também em 2018 lançamos a versão brasileira da Aceleradora 100+, que foi lançada uma versão global e nós criamos aqui também, procurando inovação e soluções de startups para nos ajudarem a atingir nossas metas.

    Percebemos também que tínhamos muitas boas práticas dentro de casa, como eficiência hídrica e elétrica, e começamos a compartilhar isso com a nossa cadeia de valor. Para isso temos um site em que as empresas podem preencher um questionário que é gratuito para identificar o que elas podem fazer para melhorar a forma como usam a água e energia. Outra iniciativa é o VOA Empreendedores, que são aulas de gestão, queremos compartilhar conhecimento de forma gratuita para a comunidade e para os pequenos e médios empreendedores. 

    15:00 | As metas têm tudo a ver com a sobrevivência do negócio a longo prazo, por exemplo, quando falamos da água e agricultura, são insumos importantes para os produtos da Ambev. A definição delas adotou essa lente?

    Nossas metas foram definidas considerando a nossa matriz de materialidade, que nada mais é do que uma ferramenta utilizada para elencar as prioridades de diversas áreas dentro de ESG sobre a percepção dos stakeholders (consumidores, investidores, funcionários, por exemplo) de temas atuais, que impactam nosso negócio e que são prioritários para nós.

    Por isso, ao formar a matriz ela fica alinhada com o nosso negócio. A água é 95% do nosso produto, não tem como não ser importante pra nós. Ao longo do tempo vimos nosso papel no ecossistema e, como comentei, não poderíamos falar somente de metas pra dentro de casa e começamos a considerar a cadeia de valor como um todo.

    17:20 | O quanto a sustentabilidade está influenciando as práticas da operação ou tem influenciado também o portfólio de produtos, diversificando o foco em bebidas alcóolicas?

    Além da sustentabilidade ser há muito tempo parte da nossa história, do nosso dia a dia, é muito natural as pessoas já olharem com esse viés. Todo mundo tem bastante autonomia e as áreas se relacionam muito bem, de forma colaborativa, então as ideias podem partir tanto do time de sustentabilidade, quanto do time de inovação, de marketing. Sempre com um olhar muito forte para o consumidor, que está cada vez mais exigente e olhando para a sustentabilidade, temos visto a demanda aumentando e pesquisas provando isso. E assim vamos trabalhando as diferentes frentes, como a conexão do consumidor com a saudabilidade.

    O que gosto de falar sobre a Ambev é que não é só o time de sustentabilidade que pensa em sustentabilidade, ela está espalhada para todo mundo. Temos várias pessoas criando iniciativas e que de repente contam para nós o resultado do que têm feito, é uma coisa recorrente que já está acontecendo. Inclusive, não foi difícil trazer novas metas, porque todo mundo já faz o link, traz as propostas de acordo com o que o consumidor está ollhando.

    20:00 | Uma dor muito recorrente que ouço em conversas com executivos é sobre ampliar essa agenda para além da área de sustentabilidade, que você comentou que funciona muito bem. Como foi esse processo interno para terem esse resultado hoje?

    Isso sempre esteve no dia a dia de forma natural. Antes de 2018 as cervejarias e refrigeranteiras já tinham metas claras de sustentabilidade há muitos anos, então já há números relevantes, por exemplo a redução de gases de efeito estufa, que desde 2003 já reduzimos 63%. Então esse olhar é muito presente. Temos, por exemplo, uma iniciativa global que começa no dia mundial da água, dura dois meses, e termina na semana mundial do meio ambiente, em que todas as operações trazem novas soluções, ideias que desenvolveram ao longo desse período.

    Nosso time teve, sem dúvidas, um trabalho de conectar com as pessoas e mostrar o que estávamos fazendo e como isso pode conectar com cada marca. Nós estamos muito atualizados com o que outras empresas no mundo estão fazendo, trazendo essas soluções pra cá, e os funcionários também estão cada vez mais com esse olhar. Todo mundo fala do assunto em reuniões, de time, de sócios e convenções de vendas. 

    Saiu uma pesquisa da Mintel onde indica que 60% consumidores atribuem sustentabilidade à reciclagem, isso nos ajuda também com nossa meta de embalagem circular. Ainda, na mesma pesquisa, indicou que 49% dos brasileiros associam alimentação saudável com sustentabilidade. Muitas pesquisas estão mostrando que o consumidor está mais consciente, então nos baseamos nisso para entregar o que o consumidor está querendo. Não tem como, é assim, e você está sendo cego se não fizer conexão com o assunto no que você está criando no dia a dia.

    É até difícil falar como isso começou, porque é de forma natural. Por exemplo, quando eu comecei a questionar sobre meu propósito e o que estava fazendo, eu era de outra área, de certa forma separada da Ambev, e mesmo assim para mim era muito presente o que estávamos anunciando de metas e o que havíamos conquistado até então, e isso vale pra todos os funcionários de todas as áreas. 

    25:50 | Antes de falar de inovação aberta, gostaria de saber quais outras soluções internas têm sido importantes para o alcance da meta?

    Sempre houve esse desafio entre as cervejarias e refrigeranteiras, que é um desafio global, que tem início no dia mundial da água, eles trabalham ao longo do tempo em soluções. No ano passado, por exemplo, que estávamos em casa, falamos de soluções mais pessoais, do dia a dia em casa, como reutilização de água, destinação de resíduos e outros. Fizemos posts no instagram com hashtags, foi um engajamento interno com práticas que aprenderam dentro da empresa. Isso é só um exemplo do que incentivamos dentro das operações, para eficiência no consumo de água e energia. Hoje fomos benchmark em produção de cerveja com menos hectolitros de água.

    Tem ainda a questão da diversidade e inclusão. Eu tenho quase nove anos de companhia e vi muito essa evolução, é muito bacana ver isso, viver e fazer parte. Eu não posso dizer que não precisei mudar porque já tinha essa cabeça, muito pelo contrário, somos todos nós que estamos evoluindo e aprendendo essa cultura. Estamos numa jornada de evolução da cultura da companhia e as pessoas estão mais abertas, ouvindo mais, com mais diversidade de gênero, racial e de pensamentos e ideias. 

    No ano passado lançamos compromissos em relação à equidade racial para nossa cadeia, fornecedores e funcionários, fazendo treinamentos também, com um comitê racial e métricas internas. Nós fomos muito questionados e fomos atrás de números para saber como estávamos e começamos a dar muito mais transparência de como estamos evoluindo nas diferentes frentes de sustentabilidade. No ponto de vista de governança, elegemos duas mulheres para o conselho de administração, e agora estamos com três. 

    Temos incentivado cada vez mais nossos funcionários a trazerem ideias que vão além do dia a dia deles, lançamos desafios, hackathons, aceleradora interna, e investimos nas melhores propostas. A pandemia nos mostrou muito a importância de trabalhar em conjunto, que conseguimos crescer mais e ter um impacto muito maior tanto dentro de casa quanto pra fora. 

    32:20 | Vocês chegam a vincular remuneração variável, de bônus, definidas a partir das metas de sustentabilidade?

    Temos diversas pessoas com as metas de sustentabilidade atreladas a bônus. Todos os funcionários têm metas, e por exemplo, na minha equipe todos têm metas de sustentabilidade. As diretorias diretamente envolvidas, por exemplo, packaging, têm metas relacionadas ao conteúdo reciclado e retornabilidade. De energia, tem contratação de energia renovável. A maioria dos VPs também têm metas na remuneração relacionadas à sustentabilidade, como de Gente e Gestão, para diversidade e inclusão. Nossos funcionários são também avaliados pelas entregas ‘a mais’, então por mais que não esteja escrito, as pessoas trazem coisas relacionadas a isso pela paixão também. A sustentabilidade está distribuída na companhia inteira, alguns porque faz parte da sua entrega, porque está escrito, e outros porque visualizam o ganho que uma iniciativa pode trazer a longo prazo. A gente não trabalha só por metas, e isso é muito importante.

    34:50 | Qual o papel das startups de impacto perante as metas de sustentabilidade? Quando perceberam que era preciso olhar pra isso e como foi construída a Aceleradora 100+?

    Quando lançamos as metas, em 2018, eram super ambiciosas, não são nada triviais. Percebemos que não somos sabedores de tudo, e levantamos a barra para chegar lá, mas sabemos que não vamos chegar sozinhos. Sabemos que tem muitas startups com ideias inovadoras que conseguem tirar do papel muito mais rápido que a gente. Quando fizemos a ZX Ventures foi um pouco disso, para separar um pouco o negócio, porque se a gente quiser virar esse ‘transatlântico’ pra fazer um MVP que pode não dar certo, estamos tirando o foco do que sabemos que é o nosso dia a dia. 

    Hoje conseguimos fazer isso com muito mais clareza. Eu diria que a forma como atuamos ao longo da pandemia, de mudar para fabricar álcool em gel, colocar o time para construir um hospital, foi resultado desse aprendizado e amadurecimento ao longo dos anos. Então faz parte reconhecer que outras pessoas, empreendedores, focados naquela solução, conseguem tirar do papel, fazer um teste pequeno junto ao nosso conhecimento. 

    A Aceleradora traz muito isso, e tenho super orgulho, porque é uma troca. Do mesmo jeito que a startup está trazendo uma solução para testar na nossa operação, a gente troca com gestão, com uma rede riquíssima de contatos. Inclusive as startups que aceleramos estão fazendo negócio entre elas, formando pontes por meio do programa e aumentando o impacto.

    38:00 | Quais têm sido os desafios e aprendizados desses primeiros anos da Aceleradora 100+, que já está na terceira edição e este ano vai acontecer em parceria com o Quintessa e a PPA?

    O que estamos apresentando nesta terceira edição é resultado do que aprendemos nas duas primeiras. Na segunda fomos impactados pela pandemia mas conseguimos trabalhar super bem. Ouvimos bastante as startups, e desta vez estamos tentando selecionar startups muito próximas sob o ponto de vista de maturidade, para que os encontros em grupo (intensive learning) sejam interessantes para todos, havendo mais engajamento.

    Vimos também a importância de um engajamento, proximidade e comprometimento dos nossos sponsors internos, que são os funcionários que vão acompanhar as startups, e nós que coordenamos o programa acompanharmos isso e termos métricas como NPS dos sponsors. Precisamos fazer ao longo do programa para ajustar rápido, e não somente descobrir ao final do programa que não teve fit do mentor ou sponsor com a startup, perdendo uma oportunidade.

    Outros aprendizados foram ouvir de coração aberto o que as startups têm para nos falar, dores que estão sentindo, e que podemos conectar com outras pessoas que podem apoiar. A qualidade e engajamento do time das startups é importante, fomos colocando isso no formulário: se são pessoas de fato comprometidas ou estão se dedicando a outras iniciativas também. Se é ainda uma ideia, ou se já está amadurecida para podermos dar tração.

    A gente quer receber inscrições, queremos conhecer, nos conectar e se não for selecionado para a aceleradora, pode caber em outra oportunidade que temos aqui dentro, ou fazer pilotos, independente da aceleração. A aceleradora foi uma grande pioneira dentro da Ambev nessa conexão e nos trouxe muitos aprendizados que estamos aplicando em outros programas e oportunidades.

    42:00 | Vocês têm iniciativas em parceria não só com as startups, mas com cooperativas e outros atores. Quais outras iniciativas de inovação aberta destacaria nesse sentido e a importância dessas parcerias para a Ambev?

    A aceleradora acabou sendo um chamariz, cada vez mais temos recebido ideias, seja via e-mail, Linkedin, ou conhecidos. Por exemplo, pessoas estudando tipos de bioplásticos para nos apresentar. O compromisso do plástico também foi um grande chamariz para empreendedores, empresas e universidades querendo testar soluções conosco.

    No início do ano rodamos um programa de inovação aberta focado em embalagem circular e consumo responsável, que acabou indo além e trouxe ideias de cidadãos comuns de todo o Brasil para serem testadas e receber mentorias. E como prova de que a sustentabilidade está espalhada pela companhia, foi uma iniciativa do time de marketing. Uma vez que fazemos, os outros se movimentam para fazer acontecer.

    Com as nossas conexões, estamos trazendo a Pepsi, DSM, Google, Unilever para participar do Pitch Day da Aceleradora, e também dá a oportunidade para as startups fazerem negócios com todos eles.

    A porta de entrada não é só a aceleradora. No nosso compromisso de diversidade racial na cadeia de valor, estamos apresentando para os compradores das regionais os produtos e serviços que eles costumam contratar que sejam de fornecedores com diversidade racial. Então temos startups, pequenos empreendedores, universitários, fazendo essas apresentações internamente para diferentes áreas da companhia.

    45:00 | Para finalizar, quais dicas daria para executivos e empresas que estão iniciando agora na temática?

    O conceito do ESG é muito norteador, dá pra saber bem o que olhar. 

    É preciso eliminar a conclusão que existia de que ser sustentável é mais caro, isso não é verdade. Eventualmente, não necessariamente, pode exigir um investimento maior no início, mas que a longo prazo é muito mais sustentável ambiental, social e financeiramente. Foi-se o tempo em que todas as soluções mais sustentáveis eram mais caras.

    Outra dica é testar e saber que pode errar. Não fazer sozinho, fazer parcerias e aprender com quem está fazendo. Sustentabilidade não ‘poderia ser algo de valor’, ela necessariamente vai ser, e as empresas estão sendo e vão ser cada vez mais cobradas pelo que estão fazendo em relação a isso – no ambiental, social e governança.

    A governança é o que define tudo e os consumidores estão cada vez mais exigentes, querendo transparência, saber o lado bom e o lado ruim, o que não está dando certo. Isso é uma quebra de paradigmas, um exercício que estamos fazendo, de falar o que deu errado e o que aprendemos, acabando com essa política de que todo mundo é perfeito e não erramos em nada, estamos todos na mesma jornada. E para quem está começando, já começar com esse pensamento.

    O Social, por exemplo, é pagar em dia e dentro da lei os seus funcionários, garantir a segurança dos funcionários na operação, é 70% dentro de casa e 15% para sua cadeia de valor e 15% para a comunidade que se relaciona. Tem muita coisa trivial que precisa ser feita em ESG, e eu fico à disposição para conversar!

  • Caminhos práticos para as empresas se aliarem às startups para reduzirem suas emissões

    Caminhos práticos para as empresas se aliarem às startups para reduzirem suas emissões

    Startups e corporações podem se juntar para fomentar inovação e sustentabilidade em diversas cadeias de valor

    As emissões de gases de efeito estufa vêm sendo amplamente entendidas como uma questão prioritária para o mercado. O crescimento de metas net-zero de grandes empresas, muitas vinculadas à bonds mais baratos, é apenas uma (e talvez a mais marcante) materialização disso.

    Para o Quintessa, que já está há mais de 11 anos trabalhando com soluções de mercado para superação dos nossos desafios sociais e ambientais junto a startups e grandes empresas, é ótimo ver o tema transcendendo espaços e indo além das tradicionais mesas com academia, governo e terceiro setor.

    Por já termos concordado, como sociedade, que esse é um dos temas prioritários para avançarmos, esse texto se foca em uma abordagem prática de como podemos atacar este desafio.

    Nós temos tido experiências muito positivas em ajudar grandes empresas a baterem suas metas de sustentabilidade através da inovação aberta. Esse é um caminho eficaz, rápido e menos arriscado de endereçar desafios, pois as startups já desenvolveram muitas das soluções, o que exime as grandes empresas de precisarem começar do zero.

    Assim, apresentamos aqui soluções de startups para o desafio da diminuição das emissões de carbono, e que podem ser válidas para distintos perfis de empresa.

    Logística

    No quesito eletrificação de frotas, startups como Voltz Origem vêm crescendo e mostrando que é viável produzir motocicletas elétricas nacionais. A E-Moving, startup acelerada pelo Quintessa, vem trabalhando com consumidores finais e empresas para difundir a bike elétrica como meio de transporte. Também para o last-mile, mas abrindo o flanco para maiores distâncias, a FNM está voltando, desta vez com caminhões elétricos.

    A Courri, também acelerada pelo Quintessa, colocou de pé um modelo logístico movido ao combustível mais limpo de todos: pedaladas. Em 2019, a B2W viu o movimento e adquiriu a startup.

    Startups em estágios mais embrionários, na fronteira do desenvolvimento de tecnologias em biocombustíveis e ganho de eficiência em baterias, também têm um papel relevante na temática de logística limpa.

    Uma observação importante para a opção de eletrificação de frotas se refere à matriz energética que está alimentando esses motores. No Brasil, 70% da matriz elétrica é limpa.

    Apesar de ser melhor que muitos outros países, ainda temos muito o que evoluir, o que leva ao assunto seguinte…

    Matriz energética

    Tornar a matriz mais limpa passa por ações de diversos atores e as grandes empresas têm um papel importante de indução e desenvolvimento destas soluções.

    A instalação de placas solares, que é normalmente a primeira iniciativa que vem à mente, pode ser feita com ajuda de startups como SolarGrid e a SolStar, e é um caminho cada vez mais vantajoso, à medida que a tecnologia por trás das placas evolui. O modelo de assinar placas, como o da Solar21 também tem apelo e é uma forma mais barata de começar.

    Outras fontes de energia, como o biogás produzido pela acelerada do Quintessa HY Sustentável também vem ganhando relevância, principalmente em cadeias alimentícias.

    Ademais, a migração da origem da energia elétrica da sua cadeia pode ser feita sem necessariamente a implantação de equipamentos nas instalações das empresas. Modelos de assinatura de créditos de energia limpa, como o da Lemon e da NewSun são saídas para se adotar em cadeias mais pulverizadas. Existem também grandes comercializadoras oferecendo energia limpa no mercado livre.

    Ganho em eficiência energética, uma pauta que é intimamente ligada ao retorno financeiro, uma vez que a economia de energia leva a menores gastos, também pode ser endereçado por startups, como a GreenAnt, que ajuda a mensurar perdas e ineficiências.

    Este é um trecho da coluna de Anna de Souza Aranha, diretora do Quintessa, no Um Só Planeta. Este texto foi escrito em co-autoria com João Ceridono.

  • Innovability: o que é e porque você deveria conhecer

    Innovability: o que é e porque você deveria conhecer

    Há anos, a inovação e a transformação digital vem sendo colocados como fatores decisivos para a sobrevivência das empresas no nosso tempo. Nos últimos 10 anos, o número de startups no Brasil cresceu 20 vezes, com um grande salto em 2018. Grandes empresas passaram a não só inovar internamente, mas se relacionar com esse ecossistema. Vimos o surgimento de hubs de inovação, plataformas digitais e co-workings patrocinados pelas grandes corporações. 

    Recentemente, tivemos uma mudança: apesar de um conceito e prática com décadas de existência, nos últimos dois anos a sustentabilidade passou a ser reconhecida como fator chave para a sobrevivência das empresas.

    Porém, muitos ainda não perceberam o valor em incorporar a sustentabilidade nos processos de inovação. Em muitas empresas ainda existe uma desconexão entre os compromissos de sustentabilidade com a criação de novos negócios e produtos. 

    Imagine, por exemplo, uma área de inovação trabalhando no lançamento de novos produtos em novas embalagens, enquanto a área de sustentabilidade está com o desafio de trabalhar em programas de logística reversa para as embalagens atuais da marca. Não faria sentido as duas áreas conceberem juntas um produto em embalagens mais sustentáveis, feitas com outros tipos de materiais, biodegradáveis ou de mais fácil reciclagem, por exemplo?

    É do potencial desta conexão que surge o termo Innovability, ou Inovabilidade. A palavra tangibiliza a crença de que a inovação e a sustentabilidade devem ser inseparáveis, não somente como áreas de negócio, mas como pilares estratégicos para toda a empresa.

    Em uma publicação da London School of Economics (LSE), os autores demonstram duas razões pelas quais estas agendas ainda estão desconectadas. A primeira é a falta de processos que realmente incluam a sustentabilidade na jornada de inovação desde os estágios iniciais. A sustentabilidade deve ser inserida desde os primeiros passos de uma inovação.

    A segunda razão é o gap entre as áreas de negócio e a área de sustentabilidade. Isso é reflexo de uma estrutura organizacional há muito tempo já estabelecida, com os dois times trabalhando por objetivos e metas muito distintas. É tempo de reestruturar as organizações para se adaptarem às novas demandas.

    Leia mais: Como empresas podem unir a geração de impacto positivo à estratégia de inovação e novos negócios

    A inovação aberta como aliada das metas de sustentabilidade e práticas ESG das grandes empresas

    O uso do termo Innovability não é sobre criar mais um conceito dentre tantos que já existem hoje, como ESG, valor compartilhado, Empresas B, capitalismo consciente… Mas sim sobre consolidar essa visão de que os dois processos são indissociáveis. 

    A Inovabilidade indica a capacidade de uma organização de inovar de forma sustentável e de alavancar a sustentabilidade como forma de inovação, novos negócios e diferenciação.

    O Quintessa acredita muito nesta visão estratégica, de ter a sustentabilidade como lente para enxergar novos negócios – bem como entender que processos de inovação, como a inovação aberta, podem ser muito eficazes para atingir os objetivos de sustentabilidade.

    Aqui no Brasil, além da nossa menção ao conceito em nossa publicação Guia para Inovar com Impacto, a referência que temos visto utilizando o conceito é Ricardo Voltolini, CEO da Ideia Sustentável, por quem conhecemos o termo.

    Na prática

    Uma empresa que se destaca e pauta este tema é a Enel, que criou um departamento de Innovability dentro da empresa, tornando as duas áreas indissociáveis. Desde 2014 a Enel faz da inovação e sustentabilidade seus pilares estratégicos por meio da inovação aberta, trazendo soluções de startups, universidades, pesquisadores, fornecedores, colaboradores e outras empresas.

    “Nós trabalhamos no innovability, um termo que combina os dois conceitos, e não somente em palavras, porque acreditamos que é impossível separá-los. Não podemos pensar em inovação sem ser sustentável, e vice-versa.” Ernesto Ciorra, Chief Innovability Officer da Enel.

    A iniciativa chamada de “Open Innovability” já envolveu mais de 100 países, com hubs em 32 deles, e 7 mil soluções propostas.

    Outras empresas que trabalham o conceito internamente são a EDP, também do ramo de energia, na crença de que “os desafios de mercado devem ser encarados sob uma perspectiva de reinvenção completa” e a Suzano, que se pauta na Inovabilidade para  “pensar fora da caixa e enxergar longe para lidar com os desafios do século 21”.

    Sem a utilização do conceito, mas enxergando as ações na prática, vale a menção à Vedacit, que unifica sob a liderança de Luis Guggenberger as áreas de Sustentabilidade, Inovação e Responsabilidade Social (Instituto), e o Braskem Labs, programa de inovação aberta da Braskem, que é originado e é até hoje gerido pela área de Desenvolvimento Sustentável.

    Leia também: Entrevista com Luis Guggenberger no Diálogos Quintessa

    Em tempos de grandes e rápidas mudanças, a inovação e a sustentabilidade passam a ser prioridade para qualquer empresa que deseja garantir sua relevância em um futuro próximo e devem andar juntas. 

    No Quintessa, acreditamos que a inovação é o caminho para alcançar soluções escaláveis para os desafios de sustentabilidade e ESG das grandes empresas, e que desafios de sustentabilidade podem ser oportunidades de inovação e diferenciação para as empresas. 

    As áreas e as pessoas já existem, a mudança é sobre introduzir uma nova lente e reorganizar os processos e estruturas para promover a Inovabilidade.

    Este tema faz parte do Guia para Inovar com Impacto, publicação inédita do Quintessa que apresenta um passo a passo para criar programas de inovação aberta que gerem valor para o negócio e impacto socioambiental positivo. Acesse o Guia completo aqui!


    Sugestões de leitura:

    How to embed sustainability into the innovation funnel – LSE Business Review

  • Gestão de resíduos: um panorama sobre negócios de impacto que endereçam esse desafio

    Gestão de resíduos: um panorama sobre negócios de impacto que endereçam esse desafio

    Análises e aprendizados sobre o pipeline de startups que atuam na temática

    3º Mapa de Negócios de Impacto lançado este ano pela Pipe Social contou com um estudo especial sobre negócios da área ambiental. Ao todo, foram 536 negócios mapeados alinhados à agenda ambiental, com atuação nos setores da agropecuária, florestas e uso do solo, indústria, logística e mobilidade, energia e biocombustíveis, água e saneamento e gestão de resíduos.

    Alguns dados merecem destaque sobre estas startups: 39% delas ainda não tiveram faturamento e 28% faturaram até R$100 mil em 2019. Em 45% delas, a necessidade por capital se mostra presente e dos que já receberam algum tipo de recurso, 68% acessaram um bolso filantrópico.

    Sob a perspectiva de impacto, 42% dos negócios mapeados estão voltados à gestão de resíduos, o que mostra que grande parte das greentechs estão de olho no “lixo” como negócio. E não é só no Mapa da Pipe Social que isso se comprova.

    Este é o 3º ano que o Quintessa é o parceiro do Braskem Labso programa de inovação aberta da Braskem que faz parte da estratégia de Desenvolvimento Sustentável da empresa – acelerando startups que geram impacto socioambiental positivo na cadeia do plástico e da química. Procuramos por negócios com foco em agronegócio, biotecnologia, construção e infra, economia circular, embalagens, mobilidade e química sustentável. O Labs conta com duas turmas: o Ignition, para negócios em estágio de validação do modelo de negócio, e o Scale, para negócios onde o desafio é estruturar a gestão e impulsionar o crescimento.

    Na edição deste ano recebemos aproximadamente 400 inscrições, sendo 25% dos negócios inscritos os de economia circular. Desses, menos da metade eram elegíveis para o programa do Scale, sendo direcionados para o Ignition, o que demonstra que, de fato, a maioria dos negócios desse setor está em estágio inicial de desenvolvimento.

    A Política Nacional de Resíduos Sólidos (PNRS) instituída em 2010 abriu uma série de oportunidades para empreendedores desenharem modelos de negócio que auxiliassem os geradores a cuidarem da destinação correta dos resíduos.

    O que por um lado parece oportuno demais, por outro faz com que o mercado se torne bastante habitado por soluções similares, o que costumamos chamar de “oceano vermelho”. Buscar por diferencial competitivo nesses casos é a base para garantir um posicionamento sólido no mercado.

    É interessante notar nas inscrições do Braskem Labs a quantidade de negócios focados em coleta e destinação correta de resíduos pós consumo por meio de benefícios para o consumidor final. Geralmente se configuram em modelos de recompensa para quem leva o seu resíduo separado (pet, vidro, alumínio etc) por meio de pontos ou outros benefícios. So+ma e Molecoola são dois ótimos exemplos que passaram no Braskem Labs em 2019 e 2020, respectivamente. Como eles, vários outros vêm surgindo.

    Outro exemplo são as empresas de rastreabilidade da cadeia de resíduos, como a Plataforma Verde ou a Circular Brain. Aqui estamos falando de plataformas de logística reversa que permitem a integração de todos os players da cadeia, bem como monitoramento deles, promovendo um aumento da entrada de resíduos no ecossistema.

    Além deles, há diversas outras startups que já aceleramos e que trazem soluções para a logística reversa, relacionamento e melhoria das cooperativas, como BoomeraInstituto MudaRecicleirosGaia/ViraserGreenMiningBRPolenArco ResíduosSolos Biocicla.

    Com tantas soluções habitando esse mercado, a pergunta que fica é: como se diferenciar nesse mercado? Sabemos que ele está se desenvolvendo e que talvez essa resposta também esteja. Mas já dá para reconhecer algumas pistas. Destacamos aqui algumas delas.

    Este é um trecho da coluna de Anna de Souza Aranha, diretora do Quintessa, no Um Só Planeta. Este texto foi escrito em co-autoria com Thaís Fontoura.

    LEIA O TEXTO COMPLETO NO UM SÓ PLANETA

  • Guia para inovar com impacto | Passo a passo para Inovar com Impacto

    Guia para inovar com impacto | Passo a passo para Inovar com Impacto

    Está no ar o “Guia para inovar com impacto”, uma publicação do Quintessa que apresenta um passo a passo para criar programas de inovação aberta que gerem valor para o negócio e impacto socioambiental positivo.

    Compartilhamos nossa metodologia para apoiar grandes empresas, institutos e fundações a avançarem nesta agenda, detalhando a abordagem dentro de três pilares: novos negócios, sustentabilidade e ESG, e filantropia corporativa e responsabilidade social.

    A publicação tem patrocínio da Aliança pelos Investimentos e Negócios de Impacto.

    Faça download aqui

  • Investimentos ESG e de Impacto: qual a diferença?

    Investimentos ESG e de Impacto: qual a diferença?

    ESG e investimentos de impacto têm ganhado espaço nos últimos anos e meses, mas apesar de terem um princípio em comum, é importante esclarecer que são conceitos distintos. 

    Os dois conceitos partem do mesmo princípio – de que não basta apenas gerar retorno financeiro, mas é preciso considerar o efeito gerado pelo investimento. Ambos estão dentro de uma camada mais ampla de investimentos responsáveis.

    Diferenciando os dois conceitos

    Os investimentos que levam em conta a análise dos fatores ESG têm um olhar mais focado no “como” a empresa opera, se tem práticas nos aspectos ambiental (E), social (S) e governança (G) que geram impacto positivo ou negativo. 

    Os investimentos de impacto tem foco no “por que” e “o que” a empresa faz, ou seja, se o seu core business (sua atividade principal) resolve desafios sociais e ambientais.

    Enquanto investimentos ESG têm uma abordagem para identificar riscos não-financeiros que podem afetar o valor do ativo, sendo parte de um processo de análise, os investimentos de impacto dizem sobre o tipo de investimento que o(a) gestor(a) está buscando e sua intencionalidade.

    Fazendo uma analogia simples: ao fazer um investimento ESG, eu posso aportar recursos em uma empresa que vende um iogurte comum, mas com práticas adequadas em termos  sociais, ambientais e de governança – por exemplo, com uma correta destinação dos resíduos da produção e uma justa remuneração dos produtores de sua cadeia produtiva. Ao fazer um investimento de impacto, seria preciso escolher, por exemplo, uma empresa que tem foco em mudar o cenário de subnutrição, com um iogurte reforçado com vitaminas e um preço acessível à população que enfrenta a subnutrição – tendo em seu core business o foco em resolver um desafio social e ambiental.

    Podemos dizer que o ESG é um “guarda-chuva” mais amplo.

    O investimento com foco em ESG, além do retorno financeiro, busca também, em primeira instância, mitigar riscos ambientais, sociais e de governança para proteger valor, ou ainda, adotar práticas positivas nestes três âmbitos, para aumentar seu valor. 

    Os investimentos de impacto possuem um foco distinto, pois têm a intenção e o foco em soluções para os desafios sociais e ambientais, por meio das atividades core das empresas investidas.

    investimento de impacto
    Fonte da imagem: Aliança pelos Investimentos e Negócios de Impacto – https://aliancapeloimpacto.org.br/

    A expectativa de retorno sobre os investimentos de impacto varia bastante de acordo com o perfil dos investidores, e podem ser mais ou menos competitivas, como vemos nos três quadros da imagem acima. 

    Segundo o relatório ‘Investimento de Impacto na América Latina’, elaborado a cada dois anos pela Aspen Network of Development Entrepreneurs (Ande), dos 28 investidores respondentes, quase metade espera taxas alinhadas às de mercado, enquanto uma parcela menor aceita taxas um pouco inferiores. Os 11 investidores, que respondem por menos de US$ 100 milhões, fazem alocação com intenção de preservar capital. 

    Fonte da imagem: Aspen Network of Development Entrepreneurs (Ande) – Investimentos de Impacto na América Latina Tendências 2018 & 2019

    O que são os investimentos ESG

    Os investimentos ESG (ASG, em português) são aqueles que consideram os fatores ambientais, sociais e de governança na análise e no processo de tomada de decisão. Com uma análise mais ampla se comparada à dos investimentos tradicionais, é frequentemente utilizada como uma forma de se melhorar o desempenho financeiro.

    Segundo o CFA Institute, cada letra refere-se a:

    E – Ambiental (Environmental, em inglês) | Medida da conservação do mundo natural, que inclui os esforços relacionados às mudanças climáticas, emissões de gases de efeito estufa, poluição, biodiversidade, gestão de resíduos e efluentes, etc.

    S – Social | Medida da consideração das pessoas e sua relação com a empresa, como satisfação do consumidor, engajamento dos funcionários, diversidade, relação com comunidades, proteção de dados, relações de trabalho, etc.

    G – Governança | Medida dos padrões de gestão de uma empresa que tratam da composição do conselho de administração, estrutura dos comitês de auditoria e fiscal, processos para evitar corrupção, ouvidoria, etc.

    O termo foi cunhado em 2005, no Estudo chamado “Quem se importa vence.” realizado pelo Pacto Global.

    O ESG não é um produto ou classe de ativos, é um critério de análise e um novo olhar na decisão por um investimento.

    Existe a separação em investimentos que são “mitigadores de risco”, impactando a análise e diligência na decisão de investimento, e outros que são focados em “oportunidades positivas”, buscando proativamente o progresso dentro dos três pilares. 

    Cada vez mais há dados que mostram que os investimentos focados em oportunidades de progresso são mais rentáveis a longo prazo, por correlações, por exemplo, entre a busca da redução das emissões de carbono e a redução de custos com energia, entre uma maior diversidade entre o time e uma maior produtividade, retenção e engajamento deste time, e mesmo entre uma maior geração de valor e fidelização dos clientes.

    Cada vez mais vemos grandes empresas emitindo dívidas vinculadas a metas de descarbonização, com a identificação como ESG. São exemplos as captações da Sicredi e da Fazenda da Toca, e mesmo fundos que se identificam desta maneira, como o da Plural Asset. Ao mesmo tempo, é comum a discussão sobre a adequação ou não dessa identificação, como o caso da dívida emitida pela Via, o que convoca ao cuidado neste tipo de análise.

    O que são os investimentos de impacto

    Os investimentos de impacto são aqueles que têm a intencionalidade clara de gerar impacto social e/ou ambiental de forma mensurável, além do retorno financeiro (GIIN – Global Impact Investors Network). 

    O termo surgiu em 2010, no relatório do JP Morgan “Impact Investments: an emergent asset class”, que incluiu a lente dos impactos sociais e ambientais positivos além do retorno financeiro.

    Os investimentos de impacto são então os investimentos feitos em negócios e soluções empreendedoras com intencionalidade clara de resolver um desafio social ou ambiental, como a melhoria da educação, acesso à saúde, gestão de resíduos, fontes de energia renovável, entre outros, ao mesmo tempo que geram retorno financeiro – os chamados negócios de impacto. 

    Os 17 Objetivos do Desenvolvimento Sustentável (ODS), os quais estão por trás da Agenda 2030, são comumente usados como base para fundamentação sobre a relevância do desafio que se busca superar.

    No conceito sistematizado pela Aliança pelos Investimentos e Negócios de Impacto, negócios de impacto são “empreendimentos que endereçam problemas socioambientais por meio de sua atividade principal e atuam de acordo com a lógica de mercado, com um modelo de negócio que busca retorno financeiro” e possuem essas quatro características principais:

    – Intencionalidade de resolução de um problema social e/ou ambiental;

    – Solução de impacto é a atividade principal do negócio;

    – Busca de retorno financeiro, operando pela lógica de mercado;

    – Compromisso com monitoramento do impacto gerado.

    Pelo foco explícito na geração de impacto, muitas vezes os investidores se distanciam desses negócios por enxergá-los próximos ao terceiro setor e ações de filantropia. O que diferencia os negócios de impacto das ONGs é a busca de retorno financeiro e a geração de impacto atrelada à geração de receita pela venda de produtos e serviços, além da possibilidade de poderem distribuir dividendos, o que os torna capazes de oferecer retorno aos investidores com os mesmos parâmetros de mercado de startups tradicionais, por exemplo.

    Qual o cenário dos investimentos de impacto no Brasil?

    No final de 2019 os investimentos de impacto no Brasil somavam US$ 785 milhões, mais que o dobro de dois anos antes (US$ 343 milhões).

    O GUIA 2.5, realizado pelo Quintessa, já mapeou 19 iniciativas de investimento em negócios de impacto no ecossistema brasileiro. Além das iniciativas que trabalham com a modalidade de investimento de risco (Venture Capital), temos também iniciativas de empréstimos com foco em impacto.

    Fonte: guiadoisemeio.com.br

    As organizações de desenvolvimento dos negócios, como aceleradoras e incubadoras, têm papel fundamental para desenvolver e preparar os negócios para crescer e estarem maduros para receber os investimentos de risco, qualificando esse pipeline.

    Quem está investindo em ESG e impacto?

    As grandes gestoras de investimento têm liderado a “pressão” nas empresas por adequações e adoção de melhores práticas ambientais, sociais e de governança. Temos importantes declarações de Larry Fink, da BlackRock, ou da Goldman Sachs, que não fará o IPO de empresas sem a participação de mulheres no conselho. 

    Por outro lado, a participação da sociedade e a decisão “mais consciente” de onde alocar os seus recursos também está crescendo. Não é mais novidade a mudança na tomada de consciência das pessoas, especialmente as novas gerações, sobre as questões sociais e ambientais. Não só em busca de incentivar e consumir de empresas ‘responsáveis’, existe um crescente interesse em alinhar também seus investimentos a seus valores pessoais. 

    Em uma pesquisa de 2014, somente 47% das pessoas acima de 69 anos acreditavam que é possível obter retornos financeiros ao investir em negócios de impacto. Já para os millennials, esse número salta para 73% (US Trust Insights on Wealth and Worth, 2014).

    O mercado já tem se movimentado para atender esse público, como a notícia recente da Fama Investimentos, que reduziu a aplicação mínima no fundo de ESG para mil reais. Segundo a gestora, a tese dialoga com o público mais jovem, com menor poder aquisitivo, mas que tem buscado esse alinhamento. Outro exemplo é a frente de empréstimo coletivo da Sitawi, com tíquetes iniciais acessíveis.

    Temos observado o mesmo interesse por parte dos family offices. Existe cada vez mais o desejo de se alinhar e aplicar os valores da família nas suas decisões de investimento, deixando um legado mais consistente de seus recursos.

    Para trazer uma ordem de grandeza, segundo o JP Morgan, os investimentos ESG ultrapassaram US$ 45 trilhões em 2020 (90% na Europa e Estados Unidos), enquanto isso, o relatório de 2019 da GIIN estimou que o mercado de investimentos de impacto está em US$ 502 bilhões. Debates e visões do mercado também são animadoras e otimistas quanto ao potencial de rentabilidade dos investimentos ESG e de impacto.

    A tendência é de cada vez mais crescimento, visibilidade e capital para a solução dos nossos maiores desafios sociais e ambientais. Visto por muitos como a “nova moda”, nós acreditamos que ela não é passageira, e que no futuro próximo, o que é visto hoje como ‘investimento tradicional’ será visto como exceção.

    Assim, é importante que você esteja preparado(a) para identificar, analisar e investir nestes diferentes tipos de investimento, os quais vemos como complementares.


    Sugestões de leituras complementares:

  • Economia Donut: a tese sobre os 5 estágios das empresas na transição para um modelo mais sustentável

    Não é de hoje a percepção e o alerta de que os modelos econômico, industrial e empresarial estão pressionando os limites sustentáveis do planeta. Há um movimento de muitas empresas e indivíduos em busca de alternativas e ações para reduzir o seu impacto negativo e gerar impacto positivo.

    São diversos modelos, agendas e pensamentos propostos para apoiar as empresas e toda a sociedade nessas ações, por exemplo a Agenda 2030 e os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável.

    Um dos modelos propostos para gerar transformação sistêmica envolvendo os diferentes setores rumo a um futuro sustentável é a Economia Donut. Criado pela economista inglesa Kate Raworth, o Donut propõe uma nova lógica para pensar a economia, que leva em conta a dignidade humana e os limites ecológicos do planeta.

    Na Economia Donut, o espaço seguro e justo para a humanidade deve se manter dentro da “rosquinha”, por isso o nome Donut. Indicadores abaixo disso mostram uma privação humana em áreas como educação, água, energia, igualdade de gênero (baseadas nos ODS), e quando os indicadores ultrapassam a parte exterior do Donut, significa que aquele país ou cidade avaliado estaria ultrapassando o teto ecológico que o planeta pode sustentar.

    Qual o papel das empresas nessa nova economia?

    Segundo a economista, quando as empresas tomam consciência de que precisam fazer parte da solução e adotar práticas mais sustentáveis, podem apresentar diferentes tipos de comportamento. 

    Ela apresentou o conceito para diversos líderes empresariais e recebeu respostas distintas sobre o que cada uma das empresas estaria fazendo para preservar o planeta e gerar desenvolvimento humano. 

    Kate entendeu que a variedade de respostas demonstra que empresas estão em diferentes momentos nessa transição de um modelo degenerativo para uma concepção regenerativa, e dividiu em 5 estágios, os quais chamou de “Lista de Tarefas das Corporações”:

    1. Não fazer nada
    2. Fazer o que compensa
    3. Fazer a parte que nos cabe
    4. Não provocar danos
    5. Ser generoso e regenerativo
    1. Não fazer nada

    Essa é a mais velha e simples resposta. 

    “Por que mudar o nosso modelo de negócios, raciocinam eles, quando ele vem dando forte retorno? Nossa responsabilidade é maximizar os lucros, de modo que, enquanto não forem introduzidos impostos ou cotas ambientais para alterar os incentivos que temos pela frente, continuaremos assim. O que estamos fazendo é (na maior parte) legal, e, se formos multados, tendemos a considerar isso um custo operacional.” 

    Durante muito tempo essa foi a postura que prevaleceu, tratando a sustentabilidade como um custo.

    Porém, não há mais tempo para pensar assim. Por exemplo, as mudanças climáticas já estão afetando os negócios. Empresas que dependem, por exemplo, de fornecedores agrícolas para fabricar roupas, alimentos, vinhos, refrigerantes ou cervejas, começam a perceber (inclusive no bolso) a consequência que o aumento da temperatura global está causando nas cadeias de abastecimento de seus produtos.

    Grande parte das empresas já reconhece que ‘não fazer nada’ deixou de ser uma estratégia inteligente e a resposta do estágio 2 se tornou mais comum. 

    Leia mais: Uma nova forma de negócios está aqui – e veio para ficar. Por que ignorá-la não é uma opção?

    2. Fazer o que compensa

    O segundo estágio diz respeito a adotar medidas ecoeficientes que reduzam custos ou promovam a marca. Por exemplo, a redução da utilização de água e energia na indústria são algumas medidas que tendem a reduzir custos.

    Em outras palavras, a empresa começa a contribuir com soluções, mas em uma abordagem utilitarista.

    “A Volkswagen ganhou notoriedade em 2015, quando se descobriu que havia introduzido deliberadamente uma modificação no software do sistema de injeção eletrônica de milhões de seus carros a diesel de forma a programar seus motores para funcionar no modo de baixa emissão de poluentes durante os testes regulatórios, reduzindo de maneira significativa os índices de emissões de óxido de nitrogênio e dióxido de carbono.”

    Nesse estágio, segundo a autora, também se encaixam os “produtos verdes”, cujo objetivo está na promoção da marca e diferenciação da concorrência, enquanto os demais produtos “não-verdes” continuam nas prateleiras normalmente. 

    Em muitos casos, as empresas oferecem esses produtos a preços mais altos e transferem a responsabilidade para o consumidor – em estar ou não “disposto”  a comprar os produtos mais ecológicos.

    A criação de alternativas mais sustentáveis é um começo, mas está longe de ser o que é realmente necessário. Isso quando os produtos são de fato mais sustentáveis e não somente uma ação de greenwashing, o que renderia um texto à parte.

    3. Fazer a parte que nos cabe

    Esse estágio começa a entrar em um maior nível de profundidade e diz respeito à fazer sua parte no que se refere à mudança para a sustentabilidade. As empresas que estão com essa abordagem reconhecem a escala da mudança necessária, por exemplo, com a redução total das emissões de gases do efeito estufa ou no uso de fertilizantes. Porém, apesar de reconhecer, têm uma abordagem de se responsabilizar apenas pela sua parte, não pelo todo.

    A autora traz o exemplo de um banco da África do Sul que se comprometeu a destinar “a parte que lhe cabia” de financiamento, cerca de 400 milhões de dólares por ano, para investimentos em iniciativas sociais e ambientais do país, provendo energia acessível e renovável, água e saneamento para a população. É uma iniciativa incrível, mas precisamos saber o que o restante do dinheiro do banco está financiando – se é, por exemplo, a indústria de combustíveis fósseis.

    “…como bem sabe qualquer um que já tenha ficado com a conta do restaurante na mão depois de todos já terem contribuído com as respectivas partes, a conta quase nunca bate. Quando somos nós mesmos que determinamos o que nos cabe fazer, nunca conseguimos fazer nada – como demonstraram governos no mundo todo com seus compromissos tristemente inadequados, determinados em nível nacional, de cortar as emissões de gases do efeito estufa.” 

    Essa é uma visão complexa, mas o que a autora quer dizer é que muitas vezes a mentalidade de “fazer a nossa parte” pode levar a querermos “ficar com a nossa parte”. 

    Explico: ao determinar os limites que o planeta pode sustentar, as empresas passam a enxergar como um bolo a ser distribuído. Se é possível emitir X toneladas de CO2, vou pegar a minha fatia. Mas qual é de fato o tamanho dela? Quanta água dos lençóis freáticos cada empresa pode utilizar?

    Essa ideia de que cada um fica com a sua parte pode levar a visão de que estamos competindo pelo “direito de poluir”. E sabemos que nós, seres humanos, quando disputamos recursos limitados, podemos ter a tendência a brigar por espaço, fazer lobby, mudar as regras do jogo e, nesse processo, corremos o risco de ultrapassar os limites.

    4. Não provocar danos

    O quarto comportamento das empresas traz uma mudança de perspectiva: não provocar danos, também conhecido como “missão zero”. Esse estágio diz respeito a conceber produtos, serviços, construções e negócios que tenham como objetivo um impacto ambiental zero.

    Um exemplo é a fábrica de laticínios da Nestlé no México, que tem um consumo zero de água. Toda a água que ela precisa para abastecer a indústria é suprida ao condensar o vapor produzido pelo leite.

    Os casos de água e energia são mais comuns, mas seria ainda maior se fosse o objetivo em todos os recursos operacionais das empresas. A missão zero demonstra um sinal de que podemos ter alta eficiência na utilização de recursos.

    Porém, uma reflexão interessante nesse caso é pensar na frase do arquiteto William McDonough, que “ser menos ruim não é ser bom, é ser ruim, só que menos”.

    “Perseguir a missão zero é uma visão estranha para uma Revolução Industrial, como se parasse intencionalmente no limiar de algo muito mais transformador. Afinal, se a sua fábrica consegue produzir toda a energia e água limpa que utiliza, por que não checar se poderia produzir mais? Se consegue eliminar todos os materiais tóxicos do seu processo de produção, por que não introduzir no seu lugar materiais que melhorem a saúde?”

    É claro que não são questões simples, mas no lugar de “fazer menos mal”, as empresas podem ter como objetivo “fazer mais bem”, reabastecendo o planeta no lugar de degenerá-lo de forma mais lenta., o que nos leva ao estágio 5. 

    5. Ser generoso e regenerativo

    “Por que apenas não pegar nada quando é possível também dar alguma coisa?” 

    É dessa pergunta que surge o último estágio da transição: ser generoso e criar um empreendimento regenerativo por concepção.

    “Mais do que uma ação numa lista de coisas a fazer, trata-se de uma forma de estar no mundo que adota a gestão da biosfera e reconhece que temos a responsabilidade de deixar o mundo vivo num estado melhor do que o encontramos.”

    Para isso precisamos criar empresas cuja atividade central ajude a restabelecer os ciclos naturais e reconhecer que também somos parte do todo. Aprender a não só deixar de emitir, mas capturar o carbono e armazená-lo nos solos agrícolas, por exemplo, tomando a natureza como modelo.

    Imagem: Livro Economia Donut, Kate Raworth. Zahar. Edição do Kindle.

    Acreditamos que as empresas não mudam da noite para o dia e que não existe um estágio certo ou errado para se estar agora, apesar de considerarmos o estágio 5 o ideal para a transformação que desejamos promover. 

    Por outro lado, Kate Raworth diz que não há necessidade – e nem tempo – de fazer essa transição passo a passo, se já sabemos onde queremos chegar. Ou seja, podemos evoluir de forma não linear, migrando do estágio 1 para o 5.

    Seguimos na crença de que um movimento de transição deve ser iniciado, e o primeiro passo é ter evoluído do estágio 1 e estar preparado para evoluir constantemente.

    “Para onde se vai é tão importante quanto onde se está agora.” 


    Referência das citações do texto: Raworth, Kate. Economia Donut (pp. 232-236). Zahar. Edição do Kindle.